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Estado de Minas CHECAMOS

Terapias em estudo contra o coronavírus não substituirão as vacinas

A União Europeia (UE) trabalha no desenvolvimento de medicamentos contra a COVID, mas não para substituir as vacinas, e sim como um complemento aos imunizantes


15/10/2021 20:55 - atualizado 15/10/2021 20:55


 

Imagem mostra post incorreto nas redes sociais
Captura de tela feita em 15 de outubro de 2021 de uma publicação no Twitter ( . / ) (foto: reprodução)
Publicações visualizadas mais de 23 mil vezes nas redes sociais desde pelo menos 7 de outubro garantem que "a União Europeia substituirá vacinas por ivermectina" porque o bloco aprovou "cinco terapias" para tratar a covid-19 que estarão disponíveis a partir de outubro. O texto também afirma que o Instituto Pasteur francês "reconheceu cientificamente" a ivermectina como uma droga contra o vírus. Mas nada disso é verdade: a comissão e o parlamento europeus negaram à AFP que a vacinação será suspensa, e o Instituto Pasteur tampouco reconheceu a ivermectina como um tratamento eficaz contra a covid-19.


“UNIÃO EUROPEIA SUBSTITUIRÁ VACINAS POR IVERMECTINA. Boas notícias para quem não gosta da vacina covid-19:A PARTIR DE 20.10.2021, COVID TRIAL E PROTEÇÃO DE VACINAS PARA COVID-19 SERÃO CANCELADOS TODOS NA EUROPA” , diz o texto de uma das publicações compartilhadas no Facebook ( 1 , 2 ), no Twitter ( 1 , 2 ) e no Telegram ( 1 , 2 ).

Uma versão mais longa acrescenta: “O Instituto Pasteur reconheceu a eficácia da Ivermectina, uma bebida única que pode eliminar todo o material genético da SARS covid-19” .

O conteúdo também circulou em espanhol e francês .

A vacinação continuará

A União Europeia (UE) trabalha no desenvolvimento de medicamentos contra a covid-19, mas não para substituir as vacinas, e sim como um complemento aos imunizantes. Em maio de 2021, a Comissão Europeia anunciou uma "estratégia em matéria de terapêuticas contra COVID-19" para complementar o plano da vacinação. “A estratégia inclui ações e objetivos claros, incluindo a autorização de três novas terapêuticas para a COVID-19 até outubro de 2021 e, possivelmente, mais duas até ao fim do ano” , afirmou o comunicado.

Algumas das publicações que mencionam a aprovação de cinco terapias compartilham o link de um comunicado à imprensa em francês, de 29 de junho de 2021 e atualizado em 29 de setembro, também do Executivo comunitário. O primeiro parágrafo, de acordo com a versão em português , diz: “A vacinação contra a COVID-19 é a melhor forma de pôr termo à pandemia e de regressar a uma vida normal. Paralelamente, estamos a trabalhar no sentido de dispor dos melhores tratamentos disponíveis para as pessoas infectadas”.

A Comissão Europeia anunciou ainda o desenvolvimento de cinco tratamentos, quatro baseados em anticorpos monoclonais , em que as células são fabricadas para tratar doenças específicas, e um imunossupressor , que já tem autorização para ser comercializado e que pode servir para tratar os infectados pela covid-19.

Em nenhum dos dois comunicados de imprensa o uso da ivermectina ou o fim da campanha de vacinação na UE foram mencionados. Na nota de maio, o vice-presidente da Comissão Europeia para a Promoção do Modo de Vida Europeu, Margaritis Schinas , explicou: “A situação em muitas unidades de cuidados intensivos em todo o continente continua a ser crítica. Temos de nos concentrar tanto nas vacinas como nas terapêuticas, duas formas poderosas e complementares de combater a COVID-19”.
Homem de máscara
O vice-presidente da Comissão Europeia para a Promoção do Modo de Vida Europeu, Margaritis Schinas, em 3 de fevereiro de 2021 em Bruxelas ( AFP / Kenzo Tribouillard) (foto: reprodução)

Esses tratamentos "irão complementar e não substituir a vacinação" , afirmou Stefan De Keersmaecker , porta-voz da Comissão Europeia, à AFP em 17 de setembro. “Continuamos trabalhando em vacinas para reduzir a transmissão e garantir que as pessoas infectadas tenham sintomas menos graves” . Ele acrescentou ainda que as instituições europeias não podem tornar os tratamentos obrigatórios.

A equipe de comunicação do Parlamento Europeu explicou no mesmo dia à AFP que os tratamentos não são destinados a substituir a vacinação e esclareceu que no momento "não há intenção de tornar esses medicamentos obrigatórios" .

A estratégia para desenvolver tratamentos contra a covid-19 complementa a relativa à vacinação, apresentada em junho de 2020 .

Vacinas "aprovadas em ensaio provisório"


O texto viral afirma que as vacinas foram "aprovadas em um ‘ensaio provisório’”. A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) concedeu autorizações condicionais de comercialização para as vacinas, mas com uma análise independente, exaustiva e sólida ”.

A autorização condicional permite que os laboratórios forneçam dados suplementares, obtidos com novos estudos, após o recebimento do sinal verde para aplicação de vacinas, enquanto uma autorização clássica ou normal exige que todos os dados sejam fornecidos previamente. No âmbito desse procedimento emergencial, que permitiu acelerar a disponibilização de vacinas contra a covid-19, a EMA decidiu conceder essas autorizações pelo prazo de um ano, que podem ser renovadas.

Mas isso não significa que as vacinas contra a covid-19 não tenham sido testadas adequadamente. Os imunizantes, como verificou o AFP Checamos , seguiram os passos necessários para sua aplicação na população.
Seringa e agulha
Seringa é vista com a bandeira da União Europeia ao fundo em 17 de novembro de 2020 ( AFP / Justin Tallis) (foto: reprodução)

Instituto Pasteur e ivermectina

Finalmente, o Instituto Pasteur não reconheceu a eficácia da ivermectina como um tratamento contra a covid-19. Os usuários interpretaram erroneamente um estudo pré-clínico do centro francês publicado em julho, que foi realizado com hamsters e que já foi checado pela equipe de verificação da AFP.

A ivermectina é um medicamento recomendado para o tratamento de doenças causadas por parasitas, como sarna e piolho, segundo registros do bulário eletrônico da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O Instituto Pasteur divulgou em 12 de julho uma nota à imprensa sobre os resultados do seu estudo , publicado naquele mesmo dia por uma revista científica após ter sido revisado por pares.

Os pesquisadores do Instituto Pasteur analisaram se os hamsters infectados pelo SARS-CoV-2, o vírus que causa o covid-19, tinham menos sintomas da doença quando tratados com ivermectina. Eles tentavam descobrir se a molécula poderia diminuir a carga viral, ou seja, limitar sua multiplicação no corpo.

“Os cientistas observaram que a ingestão de ivermectina está associada a uma limitação da inflamação do trato respiratório e dos sintomas dela derivados” nesses animais, diz nota do instituto, que especificou que os resultados “não mostram efeitos da molécula na multiplicação viral do SARS-CoV-2 ”.

"Os resultados foram obtidos no âmbito de um estudo pré-clínico" , que "não é suficiente para uso médico no contexto da crise de saúde" , disse o centro francês à AFP em agosto passado.

Na época, Julival Ribeiro , membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), explicou à AFP que “todo estudo sobre qualquer droga tem fases pré-clínica e clínica até que fique comprovado por meio de estudos clínicos randomizados, duplo-cego, que esse medicamento combate determinada doença”.

“A Sociedade Americana de Infectologia e outras sociedades do mundo afirmam que a ivermectina só poderá ser usada quando [sua eficácia] for [comprovada] em estudos clínicos. Até agora não está demonstrada a eficácia da ivermectina para tratar covid-19 em seres humanos” , acrescentou Ribeiro.

Ribeiro alertou ainda que, “após testar uma droga em animais, jamais se pode extrapolar o resultado para seres humanos”.

Portanto, o Instituto Pasteur não reconheceu a eficácia da ivermectina contra a covid-19. Embora haja pesquisas em andamento, tanto a EMA quanto a Organização Mundial da Saúde ( OMS ) desaconselham o uso de ivermectina para tratar o coronavírus, para além do seu uso em ensaios clínicos.

Outros conteúdos viralizados sobre a ivermectina foram verificados pelo AFP Checamos ( 1 , 2 , 3 ).

 

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