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Estado de Minas ACIDENTE

Operário relata 'tragedia anunciada' em obra que desabou: 'Foi avisado'

Quatro operários morreram soterrados em obra de supermercado no Belvedere, em BH; funcionários dizem ter alertado sobre rachaduras na estrutura que desabou


17/10/2023 14:05 - atualizado 17/10/2023 19:16
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Funcionários que trabalhavam na obra do supermercado Verdemar, no Bairro Belvedere, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, já haviam relatado problemas na estrutura semanas antes do desabamento. O acidente na manhã desta terça-feira (17/10) matou quatro pessoas.

A reportagem do Estado de Minas conversou com um dos operários presentes no local na hora do acidente. Muito abalado e assustado, o homem contou que trabalhava no outro lado da obra quando viu o deslizamento. "Podia ser eu. Na hora, eu estava tirando a terra de outro lugar e consegui ver caindo. Sai correndo pra ajudar. Muito desesperador", contou.

Segundo ele, que preferiu não se identificar, os funcionários já haviam relatado o aparecimento de uma rachadura na base do talude semanas atrás. Mesmo assim, nenhuma medida foi tomada. "Foi uma tragédia anunciada. Não tinha segurança. O mestre, engenheiro já tinham falado. Mas eles não ouviram a gente, não fizeram nada ali", disse.


"Era uma obra para não ceder, sustentar. Mas estava muito perigoso. A gente já tinha avisado", completou o operário. Os taludes são uma espécie de paredão que cerca a escavação de um terreno, com o objetivo de garantir a estabilidade da encosta.

Segundo o tenente Barcelos, do Corpo de Bombeiros, trincas e rachaduras dão indícios de problemas na edificação. "Profissionais ao perceberem essas alterações vão saber dizer se está sob controle ou se é algo emergencial. Se for algo grave, acionar os bombeiros ou a Defesa Civil para tomar as medidas necessárias", afirmou.

Ao Estado de Minas, ele explicou a dinâmica do acidente. O desabamento provocou uma espécie de 'cunha' -deslizamento condicionado por duas superfícies de ruptura- na base do talude, soterrando as vítimas. "É como se a parte do talude do barranco fosse retirada com uma colher, caindo pela gravidade e atingindo os operários", disse.

Rachadura é sinal de instabilidade, diz especialista


Especialista ouvido pelo Estado de Minas alerta que a presença de rachaduras em taludes, especialmente em forma de cuia, é sinal de grande instabilidade no terreno. "Ele dá sinais, vai trincar antes. Depende muito de quanto instável ele está, isso tem jeito de calcular", aponta o perito em engenharia e presidente do Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia de Minas Gerais (Ibape-MG), Clémenceau Chiabi Saliba Júnior.

"Eu entendo que a pessoa, muitas vezes, vê o talude movimentando e quer tentar sanar isso, mas, em uma situação de instabilidade, o recomendado é não ficar perto, é sair mesmo. É preferível ter uma perda material do que perda de vidas. É realmente uma situação que merece atenção", completa o especialista.

As chuvas dos últimos dias também podem ter contribuído para a instabilidade do terreno. "Quando chove a terra fica mais encharcada e mais suscetível ao deslizamento", aponta.

Com isso, o especialista estende o alerta para a população. "A mesma coisa vale para moradores de áreas de risco, começando agora o período chuvoso. Se perceber uma trinca no barranco, em forma de cunha, é preferível sair e preservar a vida. Se apareceu, não fica debaixo. A parte material depois a gente dá um jeito", alerta.

Risco de novos desabamentos


Apesar disso, segundo a Prefeitura de Belo Horizonte, a obra estava regular e com alvará ativo. "O comunicado de obra ocorreu em 14/9, sendo de responsabilidade do responsável técnico a estabilidade e demais assuntos referentes ao projeto e estrutura", disse por meio de nota.

A causa do acidente, no entanto, ainda será apurada pela Polícia Civil.

obra foi interditada preventivamente depois de vistoria da Defesa Civil. Segundo o órgão, há risco de novos desabamentos no local. "Foi um acidente de trabalho. Aparentemente não há nada irregular. Mas, há risco de novos deslizamentos, considerando que o terreno está ainda em estado de vulnerabilidade", disse Marcos Vinícius Vitório, agente de proteção da Defesa Civil.

obra no Belvedere
Defesa Civil interditou obra, onde quatro operários morreram, em BH, por risco de novos desabamentos (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)


O desabamento


Segundo informações do Corpo de Bombeiros, o barranco desabou por volta das 8h, no momento em que funcionários faziam uma obra de sustentação da estrutura. Além da terra, havia muito minério de ferro, o que dificultou ainda mais o salvamento.

No local, era construída uma unidade do supermercado Verdemar. "Estava sendo feito um trabalho de fundação em um talude em 90 graus, sem escoramento. O terreno cedeu e soterrou os operários", explicou o tenente Felipe Biasebetti, do Corpo de Bombeiros.

Ao todo, quatro pessoas morreram soterradas após o desabamento: engenheira da obra, Juliana Angélica Menezes Veloso, de 30 anos, Rafael Pereira Barbosa, 35, Roberto Mauro da Silva, 55, e Zacarias Evangelista Fonseca, de 59 anos.

Um funcionário, de 23 anos, foi socorrido com uma das pernas quebradas e levado para o hospital Odilon Behrens.


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