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Estado de Minas Dia dos pais

Pais celebram vacina, recuperação da COVID e a reaproximação da família

Na data dedicada a eles, uma homenagem aos que podem comemorar com mais serenidade após a vacinação, e uma mensagem de esperança aos que ainda estão na fila


08/08/2021 06:00 - atualizado 08/08/2021 07:40

Eugênio Nogueira, que se lembra da angústia da internação longe da família, vai celebrar com os filhos Vinícius e Caio (D) e a mulher, Nélia:
Eugênio Nogueira, que se lembra da angústia da internação longe da família, vai celebrar com os filhos Vinícius e Caio (D) e a mulher, Nélia: "Mudei para melhor" (foto: TÚLIO SANTOS/EM/D.A Press)
Recuperados, duplamente vacinados, imunizados com apenas uma dose... os pais são muitos, todos cheios de alegria para receber, neste domingo, o mais poderoso dos antídotos contra o sofrimento provocado pela pandemia: o abraço carinhoso dos filhos.

No segundo Dia dos Pais em tempos de COVID-19, mineiros falam da tranquilidade de celebrar a data, desta vez, com um pouco mais de segurança, sem abdicar, claro, dos cuidados necessários para evitar a proliferação do vírus. No churrasco em família, a máscara estará presente; ao lado da cervejinha, o álcool em gel não vai faltar; e à mesa para curtir a feijoada, o sagrado  distanciamento será mantido, pois, afinal, fala mais alto a voz do coração para desejar saúde, felicidade e esperança aos papais.

Para o supervisor de vigilância Héberson Damico, de 48 anos, morador de Belo Horizonte, a comemoração começou mais cedo.

Na manhã de quinta-feira, na companhia da mulher, Patrícia, e do filho Edgar, de 10, ele tomou a segunda dose do imunizante da Pfizer.

E ele sabe como poucos a importância da proteção. “Passei 40 dias hospitalizado, dos quais 18 intubado, perdi um irmão de 55 anos, de COVID, não foi fácil, não. Mas vamos saborear uma feijoada na casa dos meus pais, que são idosos e também foram vacinados”, conta Héberson.

O calvário não foi menor para o comerciante Eugênio Carlos Nogueira, de 56, conhecido como Nica e residente em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Ele também ficou internado com COVID-19, e um episódio marcou seu coração de pai.

“Um dos melhores momentos da minha vida foi ver meus filhos, Vinícius, de 27, e Caio, de 25, esperando na porta do hospital para me levar de volta para casa”, emociona-se o dono de um depósito de material de construção, ao lado dos dois jovens e da mulher, Nélia Maria Marques Nogueira.

Na mesma cidade, a família de Anderson Eduardo dos Santos, de 38, que trabalha em almoxarifado, quer festejar a vida.

“Tomei a primeira dose da vacina, então agora fico um pouco mais à vontade. Só não podemos descuidar. Ando de ônibus e sei que ali mora um grande perigo de contaminação, por estarem sempre lotados”, afirma Anderson.

Os filhos Anna Sara Karolina Silva Costa, de 15, e Eduardo Henrique Silva dos Santos, de 9, querem paparicar bastante o papai, mas, atenta, a mãe, Soraia Aparecida da Silva, de 42, que já tomou as duas doses por trabalhar na área de educação, ressalta que tudo deve ser na medida certa. “Nada de relaxar”, avisa, com doçura.

Celebração de uma vida nova

Héberson Damico, com o filho Edgar, de 10, e a mulher, Patrícia, após tomar a segunda dose da vacina(foto: EDÉSIO FERREIRA/EM/D.A PRESS)
Héberson Damico, com o filho Edgar, de 10, e a mulher, Patrícia, após tomar a segunda dose da vacina (foto: EDÉSIO FERREIRA/EM/D.A PRESS)
 Héberson Damico ao sair do hospital, depois de 40 dias: alívio(foto: COMUNICAÇÃO REDE PAULO DE TARSO/DIVULGAÇÃO)
Héberson Damico ao sair do hospital, depois de 40 dias: alívio (foto: COMUNICAÇÃO REDE PAULO DE TARSO/DIVULGAÇÃO)

O sorriso confiante de Eugênio Carlos Nogueira, popularmente conhecido como Nica, morador de Santa Luzia, na RMBH, mostra que o pior já passou e que as luzes da esperança vieram para ficar e clarear cada vez mais seus caminhos e da família.

“Imagina que fui internado com COVID em um sábado, véspera do último Dia das Mães. Fiquei oito dias no Hospital Risoleta Neves, felizmente sem precisar de intubação. Mesmo assim, não pode haver nada pior do que estar ali sozinho, sem a mulher e os filhos. A auto-estima vai lá para baixo... É muito sofrido”, relata o comerciante.

O alívio só voltou ao sair e ver, na porta do hospital, os filhos Caio César Marques Nogueira, engenheiro civil, e Vinícius Marques Nogueira, administrador, que trabalham com o pai no depósito de material de construção. Os dois se emocionam diante das palavras do pai.

“Foi um período de muita angústia, a gente fica meio sem ter o que fazer”, observa Caio, enquanto para Vinícius, também acometido pela doença, não há maior tristeza do que ver alguém de quem se gosta sofrendo assim.

Em um grupo de amigos, tendo à frente o primo Guilherme César, os dois participaram de uma caminhada de 20 quilômetros para pagar uma promessa pela recuperação do pai, entre as igrejas Nossa Senhora Aparecida, no Bairro Kennedy, e São Francisco, na localidade de Taquaraçu de Baixo, em Santa Luzia.

Muito católica, a família de Nica tem na sala um belo quadro de José, Maria e Jesus, além de imagens de Santa Luzia e Nossa Senhora Aparecida.

É nesse ambiente, com o devido distanciamento, que eles posam para a foto desta reportagem. Mas num instante de afeto filial, Caio e Vinícius pousam as mãos nos ombros do pai, parecendo anunciar, em silêncio: “Pai, estamos aqui”.

Certo de que as boas energias  são fundamentais para a cura, Eugênio diz que se surpreendeu ao sair do hospital.

“Não sabia que tinha tantos amigos, muita gente rezando por mim. Confesso que, no hospital, tive muito medo, mas aprendi também que devemos valorizar mais a família e as amizades, e reduzir a velocidade na qual vivemos. Para que tanta pressa?”, pergunta.

As lições são muitas, e vão desde a calma para admirar o nascer do Sol como encontrar a paz em situações simples. “Acho que mudei um pouco... Para melhor”, conclui, certo de que hábitos saudáveis ao longo da vida, como jogar futebol e não fumar, ajudam bastante.

Primeira dose deixa Anderson dos Santos mais à vontade para a comemoração com os filhos Anna e Eduardo e a muher, Soraia,
Primeira dose deixa Anderson dos Santos mais à vontade para a comemoração com os filhos Anna e Eduardo e a muher, Soraia, "mas sem descuidar" (foto: TÚLIO SANTOS/EM/D.A Press)


Proteção e lembranças ruins

Na manhã de quinta-feira, no Centro Municipal de Saúde Cidade Ozanan, na Região Nordeste de BH, o supervisor de vigilância Héberson Damico, de 48 anos, recebeu a segunda dose do imunizante contra a COVID-19.

Feliz da vida, estava na companhia do filho Edgar Mesquita Damico, de 10, e da mulher Patrícia Mesquita de Araújo – o enteado Igor Mesquita Barbosa Costa, de 29, terá que esperar sua vez.

A injeção fundamental para se proteger contra a doença que assola o mundo trouxe alívio, mas também as lembranças do período que aterrorizou o vigilante.

Em 17 de fevereiro, ele passou mal e caiu na rua, sendo socorrido e levado às pressas para o hospital.

“Já estava com 50% do pulmão tomado pelo coronavírus. Dois dias depois, fui intubado. Vi gente morrendo, fiquei com medo de que pudesse ser mais um, mas fiquei bom. Curioso é que não me lembro de nada do que passei no hospital”, conta Héberson, que ficou mais 11 dias na UTI e depois mais 20 dias em reabilitação no Hospital Paulo de Tarso, no Bairro São Francisco, na capital.

Considerando o período ao qual sobreviveu como “uma loucura total”, o mineiro natural de Itabira, na Região Central do estado, que vive no Bairro Nova Floresta, na Região Nordeste de BH, quer ver o brilho da esperança no lugar do breu das incertezas e das dores.

“Nesse período, perdi meu irmão, de 55 anos, que morava em Araxá (Região do Alto Paranaíba). Éramos 10 filhos, hoje somos nove. Minha mãe sofreu muito.” Neste domingo, é hora de espantar a saudade e celebrar a família, embora sem aglomerar e sempre com atenção quanto aos protocolos sanitários.

Churrasco ou hambúrguer?

A pergunta ainda estava sem resposta na noite de quinta-feira, mas, independentemente do cardápio, já dava água na boca da adolescente Anna Sara Karolina Silva Costa, de 15, e do seu irmão, Eduardo Henrique Silva dos Santos, de 9.

“Ele é o melhor pai do mundo, merece um abração”, determinou o menino, abrindo os braços. “Merece mesmo”, concordou a adolescente, que deseja um domingo bem animado.

E com razão: o aniversário de 15 anos dela ocorreu no auge da pandemia, o que atrapalhou os planos da família de festejar com amigos e parentes.

Com a primeira dose da vacina, Anderson Eduardo dos Santos se sente mais “à vontade” como diz, e sua mulher, Soraia, emocionada pela proximidade da data, chegava às lágrimas.

“Tanto eu quanto meu marido fomos criados sem pai. Queremos, portanto, que seja um domingo especial para nossa família.”

Sobre o prato escolhido, Soraia  deixava a resposta no ar, mas tudo sinaliza para a carne na brasa na hora do almoço. Mas o sorriso do papai mostrava que, de todo jeito, o garotão não ficaria na mão: hambúrguer garantido para o lanche da tarde. O domingo vai longe. 

A celebração da vida e a certeza da superação da pandemia, também. Feliz Dia dos Pais!


(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press - 5/8/21)
(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press - 5/8/21)


Homenagem e saudade 

Na quinta-feira, durante a vacinação de mulheres de 35 anos e de pessoas com fatores de risco em BH, um protesto silencioso emocionou e chamou a atenção no posto montado no câmpus da UFMG. Com os olhos marejados, Clarisse Aparecida dos Santos Oliveira Pereira (foto), segurava um cartaz em homenagem ao pai, Afonso Quintino dos Santos, que perdeu a vida para a COVID-19 em outubro de 2020, aos 75 anos, exatamente no dia do aniversário dela. A administradora lamentou o fato de ele não ter podido se beneficiar das vacinas, que começaram a ser disponibilizadas no mundo em 8 dezembro e no Brasil, em 17 de janeiro. “Hoje é um dia triste, pois lembro a morte do meu querido pai”, declarou, após ser imunizada. Pelas palavras e atitudes dela, o Estado de Minas presta homenagem a todos os pais que partiram vítimas da pandemia, e a todos os filhos para os quais este domingo será um dia de ainda mais saudade.

 

 




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