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Estado de Minas CHUVAS

Coragem e doação: o heroísmo dos pais na tragédia de Santa Maria de Itabira

Apesar da morte de seis pessoas e da destruição provocada em Santa Maria de Itabira, na região Central do estado, algumas pessoas conseguiram ser salvas


23/02/2021 11:23 - atualizado 23/02/2021 12:18

Dawid Dener, pai do Bruce Dener, que morreu soterrado em Santa Maria de Itabira(foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
Dawid Dener, pai do Bruce Dener, que morreu soterrado em Santa Maria de Itabira (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
O sepultamento nesta terça-feira (23/2) das últimas quatro das seis vítimas das tempestades que destruíram Santa Maria de Itabira, na Região Central de Minas, revelou histórias de coragem e doação, que terminaram em tragédia no Bairro Poção. Entre a tristeza dos familiares e a consternação dos amigos, no velório municipal, um pai contou como conseguiu salvar a esposa completamente soterrada, mas não teve tempo de resgatar o filho. A poucos metros, em outra linha de caixões, um pai retornou à casa desabando para tirar a filha. A outra filha o seguiu e os três morreram cobertos por lama e detritos.

O resgate sofrido de sua mulher, cavando escombros com as próprias mãos, não alivia a dúvida na cabeça do mecânico Dawid Dener da Silva Gonçalves, de 37 anos. “Se eu tivesse acordado 10 minutos antes poderia ter tido tempo de salvar o meu filho”, lamenta. Ele, a mulher e o filho Bruce Dener Gonçalves, de 5 anos, dormiam juntos no quarto, na noite da tempestade de domingo que arrasou o município.

“Escutei um barulho na casa do vizinho. Já tinha água entrando na casa. Minha mulher foi para a sala e eu para o banheiro, no lado de fora da casa. Chovia pesado demais. Dei uma olhada para fora e vi a lama descendo e tomando a casa toda. Me salvei por estar entre as duas paredes do banheiro”, lembra o mecânico.

Aos tombos e escorregões na lama e detritos ele deu uma volta no terreno completamente revolvido pelos deslizamentos e avistou o braço direito da mulher. “Pulei em cima e comecei a cavar com as minhas mãos para descobrir o rosto dela para ela poder respirar. Consegui e fui removendo a lama dela, que tinha quebrado o fêmur. Ela só dizia para eu salvar nosso filho. Arrastei ela para fora e pedi aos vizinhos que chegaram que a levassem para o hospital”, conta.

Dawid é um outro vizinho chegaram então ao quarto e viram a cama onde estava dormindo Bruce. Mas a maior parte do móvel estava encoberto, com armários e pedaços da parede e telhas por cima.

“Fomos com tudo para tirar aquilo de cima. Tinha certeza que meu filho estava ali. Não sei se vivo, mas ele estava lá. Foi aí que desceu a maior parte da lama tomando conta de tudo. Tivemos de pular para fora para não sermos soterrados. Meu filho ficou lá, debaixo de 4 metros de terra, cercas, arame, árvores, pedras”, afirma.

A prima do garoto morto, Jaqueline Teodora da Silva, de 35, conta que os parentes desabrigados estão alojados em sua casa, em uma região mais alta, mesmo destino de cerca de 160 pessoas que saíram de suas casas no município. Ainda são necessários abastecimento de água, comida e mantimentos.

Muitas famílias perderam inclusive os móveis, colchões, roupas e eletrodomésticos, sem possibilidade de preparar sequer as refeições que chegam em cestas básicas.

“Foi muita tristeza. Uma agonia esperando para saber notícias dos bombeiros que ainda procuravam o menino. Agradeço a eles muito. Os bombeiros nos trouxeram o conforto de termos a certeza de quero corpo seria encontrado”, conta a prima.

No velório da família de três pessoas que morreram soterradas, a emoção foi muito grande também devido aos atos de bravura dos familiares diante do perigo. Na casa estavam Nivaldo Gonçalves, de 70, a filha Magda, de 40 e a outra filha, Marilene, de 42, que estava com a sua filha de 5 anos. “Quando a lama começou a invadir a casa eles saíram, mas a minha prima, Marilene, estava com a perna machucada e não conseguiu sair”, conta a coordenadora de informática Monica Meireles, de 43  anos, sobrinha de Nivaldo.

“Meu tio ficou desesperado e entrou para dentro da casa para tirar a minha prima. Vendo aquilo, minha outra prima pegou a filha dela de 5 anos e deu para alguém que estava lá do lado de fora e pediu para que cuidassem dela. Ela entrou então na casa atrás do pai dela e da irmã, mas a casa desabou e matou os três. Perder três pessoas da família assim desse jeito é um baque. Principalmente porque já estamos todos tristes com a situação da nossa cidade”, conta Mônica.
 
O marido dela, o comerciante Fábio Adriano Fernandes, de 43, afirma que na cidade ocorreram vários casos de bravura e doação. “Na nossa rua a gente tirava as pessoas pelos muros, de dentro das janelas, do jeito que dava e procurava levar para os lugares mais altos. Muita gente salvou vizinhos, amigos e até quem nem conhecia. Nessas horas é que a gente precisa um do outro, mesmo que arrisque a própria vida”, disse.



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