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Estado de Minas SERRA DO CIPÓ

Serra do Cipó: fotos indicam deslocamento de pedra no Véu da Noiva

Laudo técnico vai determinar se há risco de queda do paredão da cachoeira de mais de 70 metros, que está interditada desde a semana passada


05/05/2023 04:00 - atualizado 05/05/2023 09:35

cachoeira véu da noiva
A fenda no paredão da cachoeira em dois tempos: à esquerda, em registro de 1988 a que o EM teve acesso, e à direita, atualmente: deslocamento começou a ser observado no ano passado e, ao que parece, aumentou, aponta professor da UFMG (foto: Fotos: Leandro Couri/EM/D.A Press)


Um dos cartões-postais da Serra do Cipó, a cachoeira Véu da Noiva, na Região Central de Minas Gerais, aguarda um laudo técnico para determinar se há risco de queda de um paredão da estrutura rochosa. A cachoeira foi interditada na semana passada, após visitantes notarem uma fenda que aparenta estar se desprendendo do muro. O caso acende na memória dos mineiros lembranças sobre a tragédia que ocorreu no Lago de Furnas, em Capitólio, no Sul de Minas, em janeiro de 2022, e retoma o alerta para a segurança em locais de turismo geológico e de aventura. Especialistas ouvidos pela reportagem do Estado de Minas reforçam a necessidade de um mapeamento de risco em áreas de ecoturismo.
 
Com uma queda d’água de quase 70 metros, a cachoeira Véu da Noiva fica dentro do camping da Associação Cristã de Moços em Minas Gerais (ACM-MG). O acesso é feito por uma trilha de cerca de 400 metros, fechada desde 27 de abril. O caminho é uma subida de pedras, tem até corrimão, e a caminhada dura, em média, 10 minutos. Segundo Geraldo Majella Barreto, presidente da ACM-MG, a entidade estuda a contratação de um geólogo para avaliar o real dano na pedra, mas ainda sem prazo para conclusão. “Não é uma coisa para se fazer igual parto que foi avisado e tem 24 horas para sair. Aqui a gente trabalha com vidas. Nós não temos prazo, mas temos pressa. Temos que fazer rápido, mas com extrema cautela, porque isso não é coisa com que se brinque”, afirma.
 
A reportagem do EM esteve na cachoeira na quarta-feira (3/5) e conseguiu acesso a imagens exclusivas, registradas 35 anos antes da interdição da queda d’água. No comparativo com a foto de 1988, oito anos depois da inauguração do camping da ACM, é possível constatar um deslocamento da pedra, que hoje apresenta uma fenda em formato de V. A ACM ressalta que realiza vistorias periódicas no local e promete uma avaliação completa de todo o maciço da cachoeira na elaboração do laudo com especialista. “Nossa preocupação é com a vida. Naturalmente, sem nenhum alarde, a gente já faz essas vistorias. Agora, vamos aproveitar a visita do geólogo para fazer uma avaliação de toda a estrutura”, destaca o presidente da entidade. Ele também enfatiza os investimentos na segurança dos visitantes, como a instalação de corrimão na trilha de acesso à cachoeira e a presença de salva-vidas no espaço.

Apesar de a cachoeira não estar aberta, a unidade da ACM, inserida no Circuito do Parque Nacional da Serra do Cipó e da Estrada Real, conta com vista privilegiada para o cânion, e segue funcionando normalmente, sem qualquer risco aos visitantes. O espaço tem uma piscina natural com água cristalina que vem do Véu da Noiva, além de uma estrutura completa com acampamento com vestiários, restaurantes, quadras de vôlei, peteca e campo de futebol. A entidade, sem fins lucrativos, converte os valores arrecadados no camping em programas sociais para crianças e adultos em situação de vulnerabilidade e risco social. Também atua com educação complementar, atendimento psicossocial, esporte e lazer. "A gente só trabalha com coisa séria, raciocínio e documento", diz Barreto, enquanto mostra o relatório de interdição da queda d'água.

ECOTURISMO

A cachoeira foi interditada pelo Corpo de Bombeiros e pela Defesa Civil de Santana do Riacho, município na Região Central de Minas Gerais, onde está localizada a Serra do Cipó. A ACM afirma que eles mesmos acionaram a prefeitura e pediram um diagnóstico do local depois de perceber a circulação de mensagens sobre o risco na queda d'água. Passeio obrigatório para os amantes da natureza, a cidade sobrevive do ecoturismo. “É muito melhor uma interdição temporária do que uma tragédia. Queremos manter a imagem positiva da Serra do Cipó. A gente mostra que queremos o turista, mas com segurança”, afirma o prefeito de Santana do Riacho, Fernando Burgarelli, que não teme impactos negativos na atividade turística da região pelo fechamento da cachoeira. “Temos muitos outros atrativos. O turista pode continuar vindo”, completa. O laudo do especialista contratado pela ACM vai confirmar a necessidade ou não de uma intervenção no local. “Nossa equipe técnica terá respaldo para desinterditar o local”, disse o prefeito da cidade.

ZONAS DE FALHA

O tombamento de blocos é um evento bastante comum em cânions, e só não é muito notado porque essas áreas costumam ser menos acessadas por visitantes. “Como a maior parte das cachoeiras da Serra do Espinhaço, o Véu da Noiva é controlado por zonas de falha. Isso significa que a rocha é fatiada verticalmente. É uma ruptura ou cisão de um bloco de rochas. Com o tempo, essas fatias verticais sofrem uma descompressão e algumas delas aumentam a fenda e acabam quebrando”, explica Allaoua Saadi, geólogo e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O tamanho dessas fraturas aumenta por uma série de fatores, como vento, chuvas, secas e cheias das cachoeiras que cercam essas rochas. “A própria formação desse espaço aconteceu porque essas fatias já foram derrubadas pela ação do tempo”, completa Saadi.

Por meio do monitoramento geotécnico é possível analisar o nível de instabilidade dessas formações. Segundo o professor da UFMG, o deslocamento no Véu da Noiva já havia sido observado no ano passado. “Agora ele aumentou”, relata. Sem uma avaliação rigorosa e presencial, ele diz, no entanto, que é impossível cravar o tipo de intervenção necessária na região. Além do mapeamento de risco nas áreas turísticas, o geólogo indica caminhos para prevenção, como a instalação de telas para contenção dos paredões rochosos e parafusar as lascas das pedras. “Isso falando em termos leigos. Não há uma solução simples. É um problema geotécnico, que exige estudo”, aponta.
 
Especialistas ressaltam que o monitoramento e a análise de risco não existem para inibir o turismo ou afastar as pessoas dessas áreas. As informações, ao contrário, visam garantir a segurança das atividades turísticas, comerciais e culturais, restringindo o acesso às áreas em que há risco de desabamento iminente e limitando o número de pessoas permitidas, quando necessário. “É necessário que o poder público esteja presente e atue em parceria com as empresas envolvidas nesse nicho de turismo ecológico, que tenha coragem e discernimento para assumir que isso precisa ser feito”, avalia a também professora e geóloga Cristiane Oliveira. Em um cenário ideal, segundo ela, as análises de risco são feitas anualmente.

CAMINHOS ALTERNATIVOS

O poço da cachoeira Véu da Noiva fica no pé de um enorme morro, que pode ser percorrido por um caminho histórico: a Trilha dos Escravos. O local recebeu esse nome por ter sido construído por pessoas escravizadas no século XIII para transportar riquezas extraídas na Serra do Espinhaço, durante o Ciclo do Ouro em Minas Gerais. Partindo da portaria da ACM, onde está localizada a cachoeira Véu da Noiva, o turista pode seguir a MG-010 por aproximadamente 500 metros pela estrada asfaltada e encontrará a entrada para a trilha, indicada por uma singela placa de identificação de madeira. Calçada com pedras, a Trilha dos Escravos tem subidas íngremes em meio à vegetação de Cerrado e resquícios de Mata Atlântica.
 
O trajeto começa no sopé da Serra do Cipó e termina na Mãe d’Água, nascente da cachoeira Véu da Noiva. Além de íngreme, a ladeira tem pedras úmidas e de característica escorregadia, por isso é importante ter cuidado ao subir a trilha. O passeio, no entanto, é um lindo percurso que leva até a parte de cima da cachoeira. O turista precisa estar atento, o caminho não é sinalizado e só é indicado por pedras amarelas. Vale lembrar também que, apesar de a cachoeira não estar aberta, o camping da ACM conta com vista privilegiada para o cânion, e segue funcionando normalmente, sem qualquer risco aos visitantes. O espaço tem uma piscina natural com água cristalina que vem do Véu da Noiva.


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