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Estado de Minas

Fé e história: há 40 anos, papa João Paulo II visitava BH

"É especial quando a gente se lembra de que já viu um santo de tão perto", diz religioso, sobre a única passagem de um sumo pontífice pela capital mineira


postado em 01/07/2020 06:00 / atualizado em 01/07/2020 07:32

No Mangabeiras, João de Deus celebrou missa em área hoje conhecida como a Praça do Papa, depois de percorrer a Avenida Afonso Pena no papamóvel, cercado por uma multidão.
No Mangabeiras, João de Deus celebrou missa em área hoje conhecida como a Praça do Papa, depois de percorrer a Avenida Afonso Pena no papamóvel, cercado por uma multidão. "Vocês são o belo horizonte da Igreja", disse, dirigindo-se especialmente aos jovens (foto: Arquivo EM - 1º/7/80)

 

No início da manhã de 1º de julho de 1980, o papa João Paulo II desembarcou no aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, e marcou a história de Minas Gerais. Foi a única vez que um sumo pontífice pisou em solo mineiro para uma visita – um dia pontuado por momentos de intensa emoção para os fiéis da capital mineira, que o Estado de Minas relembra nesta edição.

 

“Papa chega hoje, às 10h25, a BH”, anunciava o EM naquela manhã. Assim que o Peregrino da Paz desembarcou do avião, uma multidão de fiéis já o aguardava no aeroporto. Os gritos de aclamação davam as boas-vindas ao pontífice. “Ei, ei, ei, o papa é o rei”, cantava o coro. O clamor fazia referência ao grito da torcida do jogador de futebol Reinaldo, do Clube Atlético Mineiro, durante os jogos nos estádios.

 

A paródia dos fiéis evindenciava o foco do papa: os jovens. Para atrair esse público, João de Deus mudou a maneira dos papas de conquistar os fiéis. Por isso, ele é muito conhecido como o primeiro “papa pop” da história da Igreja Católica. Com a sua personalidade  carismática, o papa fez amizades pelos 104 países que visitou, contando com a Itália. Daí, o seu apelido: Peregrino da Paz.

 

Em BH, não foi diferente: João de Deus criou um laço íntimo com os belo-horizontinos. Em seu papamóvel, o carro que o conduzia, o religioso foi seguido por uma multidão pela capital mineira. A jornada de João Paulo II, em desfile desde a rodoviária até o alto da Avenida Afonso Pena, no Bairro Mangabeiras, foi acompanhada de perto até mesmo por muitos que não eram católicos. “Não só fiéis o seguiam. Todos os belo-horizontinos queriam saudar o papa e prestigiar aquele momento. Foi um momento de aclamação”, relatou monsenhor Éder Amantea, que esteve presente como padre durante a visita do papa.

 

O carro de João de Deus subiu a Avenida Afonso Pena até chegar à Praça Governador Israel Pinheiro, no Bairro Mangabeiras. No centro da praça, um palanque para o pontífice celebrar a missa. É preciso contar por que o local foi escolhido para a grande cerimônia. O ponto básico foi a segurança, pois as ruas laterais facilitavam o acesso de João Paulo II ao altar e também permitiriam a saída em caso de qualquer emergência. Com a segurança reforçada, o público na primeira fila ficava a 50 metros de distância do celebrante e os convidados, principalmente religiosos, em torno de 600, dos dois lados do chefe da Igreja Católica.

 

A estrutura foi palco de uma das histórias mais marcantes da vida do padre José Cândido da Silva, pároco da Igreja São Sebastião, no Barro Preto, em Belo Horizonte, que trabalhou na organização da cerimônia do papa em BH. “Até hoje ainda me emociono com a cena inesquecível. O Santo Padre sobe ao altar para iniciar a Eucaristia, eu tento beijar-lhe a mão, mas o mestre de cerimônias da Capela Pontifícia tenta afastar-me. O papa percebe e vem ao meu encontro, me abraça e eu mal conseguia balbuciar alguns vocábulos desconexos”, relembrou o padre, revivendo a emoção que contagiou todos os presentes naquele momento.

 

Praça rebatizada


A cerimônia aos pés da Serra do Curral rebatizou extraoficialmente o local onde se realizou em Belo Horizonte. Até hoje é como Praça do Papa que a área é conhecida. “O lugar foi se enchendo rapidamente. No final, disseram que havia cerca de milhão de pessoas”, relata Joaquim Pereira da Silva, hoje com 49 anos, contador, que na época era criança. As pessoas estavam no evento prestigiando o pontífice e clamavam "viva o papa, viva João de Deus". O Peregrino da Paz, admirado com a beleza da capital, respondeu: "Olhando para vocês, vi um belo horizonte".

 

Na curta passagem de um dia por Belo Horizonte, o líder da Igreja Católica emocionou a multidão ao falar de justiça e o encontro foi marcado pelo sentimento de esperança de mudança. Em seu discurso, João de Deus afirmou que via a nova geração com boas expectativas. “Vocês dizem, com razão, que é impossível ser feliz, vendo uma multidão de irmãos carentes das mínimas oportunidades de uma existência inumana. Vocês dizem, também, que é indecente que alguns esbanjem o que falta à mesa dos demais. Vocês estão resolvidos a construir uma sociedade justa, livre e próspera, onde todos e cada um possam gozar dos benefícios do progresso”, declarou o pontifíce sobre os jovens.

 

Naquela ocasião, o papa falou diretamente aos jovens e reforçou a necessidade de manter os direitos dos mais novos. “Vocês são o belo horizonte da Igreja, o futuro da Igreja”, afirmou João de Deus. Naquele momento, o Peregrino da Paz plantava a semente da fé entre jovens e, mais tarde, os frutos começaram a ser colhidos: os mineiros ficaram ainda mais próximos do catolicismo, relatou monsenhor Éder Amantea . “Essa visita foi um banho de entusiasmo e desejo de conhecer melhor Jesus Cristo e seguir Jesus como católico. Foi um incentivo muito forte”, afirmou.

 

Ao fazer a cerimônia em português, o pontífice emocionou ainda mais os fiéis. A empolgação ficou marcada na memória de quem teve a honra de ficar perto do papa. “Ao final da missa, ele se posicionou ao meu lado para cantar e estabelecer um diálogo com a multidão constituída, em grande parte, de jovens. Ao cantarmos juntos A barca, uma música católica bastante conhecida entre os fiéis, João de Deus me diz: ‘Já cantei tantas vezes esta música na minha terra, a Polônia, sempre com os jovens’. Ele não sabia que nós a tínhamos escolhido de propósito por ser uma canção eslava. Ainda hoje suas palavras ressoam em todos os corações: ‘O papa  não os esquecerá, nunca mais!’”, contou padre Cândido.

 

Por volta das 14h, a energia do local foi diminuindo: o evento havia acabado. O papa deixou a praça e, aos poucos, as pessoas também foram indo embora. “Não perdi um detalhe sequer de João Paulo II na praça. Vi até como ele foi embora. Haviam dito que ele iria de helicóptero. Um aparelho pousou e, quando levantou voo, todos olhavam pra cima e davam adeus. Mas o papa foi embora de carro, em um Alfa Romeo preto. Ninguém percebeu”, contou Joaquim Pereira.

 

“Foi tudo muito emocionante, muito bem vivido, tanto pelo papa quanto pelo povo que ali estava. É uma lembrança muito querida e que eu guardo com muito amor”, comentou monsenhor Éder. Toda essa emoção ganhou um significado extra em 2011. Seis anos após sua morte, o papa João Paulo II foi beatificado. Ele tornou-se santo em 2014. “É especial. Quando a gente lembra que já viu um santo de tão perto, é um consolo e é uma alegria muito grande”, completa.

 

Bênção a distância


A relação de João de Deus com Belo Horizonte continuou crescendo com o tempo. Monsenhor Éder teve a oportunidade de conversar com João de Deus alguns anos depois. “Eu estava em Roma e dom Serafim me chamou para ir a uma audiência com o papa. Quando cheguei ao escritório particular do papa, ele começou a conversar comigo em português. Perguntou de onde eu era e abençoou Belo Horizonte, mesmo a distância”, contou.

 

O papa retornou ao Brasil outras três vezes, mas não esteve mais na capital mineira. Em uma dessas visitas, no Rio de Janeiro, João Paulo II abençoou a cidade aos pés do Cristo Redentor e se declarou: "Se Deus é brasileiro, o papa é carioca". Em Brasília, logo na primeira visita ele beijou o solo.

 

A passagem do Peregrino da Paz pelo Brasil quando veio a Belo Horizonte, em 1980, incluiu 14 cidades em um período de 12 dias. Além de BH e a capital do Brasil, o trajeto contou com visitas ao Rio de Janeiro (RJ), São Paulo, (SP), Aparecida (SP), Vitória (ES), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), Manaus (AM), Recife (PE), Salvador (BA), Belém (PA), Teresina (PI) e Fortaleza (CE). * Estagiária sob supervisão da subeditora Rachel Botelho 

 

Campeão de audiência na Itacolomi

 

A primeira visita de um sumo pontífice ao então país com maior população católica do mundo foi transmitida ao vivo em rede nacional através de um pool de emissoras brasileiras, integrado pela TV  Itacolomi, do grupo Diários Associados, líder de audiência no estado à época. O pool foi criado pela Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom), com transmissão via Embratel. As emissoras selecionadas geravam as imagens e a narrativa era adicionada pelas receptoras locais.

 

A missa na capital mineira foi toda transmitida ao vivo, apesar de um problema técnico ter impedido que a população brasileira e mineira acompanhasse a chegada do papa ao aeroporto da Pampulha (Confins ainda não operava) e sua trajetória até o local da celebração.

 

A Itacolomi, o Canal 4, foi ao ar de 1955 a 1980. Foi a terceira televisão brasileira. Tinha como vinheta "TV Itacolomi, sempre na liderança. Canal 4, Belo Horizonte, Minas Gerais".

 

Durante a peregrinação pelas 14 cidades brasileiras visitadas por Joao Paulo II, a audiência da cobertura ao vivo  chegou a 85% dos 15 milhões de televisores espalhados por todo o país. Em torno de 50 milhões de pessoas assistiram à transmissão ao vivo, audiência superada apenas pela final da Copa do Mundo de 1970, no México.

Pontífice polonês 

João Paulo II foi o 264º papa da história e único de origem polonesa. Eleito no segundo conclave em 1978, assumiu a direção da Igreja Católica, Apostólica, Romana no lugar de João Paulo I, que morreu 33 dias após sua eleição. Karol Józef Wojtyla nasceu em 18 de maio de 1920 e faleceu em 2 de abril de 2005, por complicações do mal de Parkinson. Ele foi canonizado em 27 de abril de 2014. 

 

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