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Estado de Minas

Solenidade da início ao processo de beatificação de Monsenhor Domingos

Seguindo os ritos estabelecidos pelo Vaticano, primeiro passo para que o religioso se torne santo é o processo que investigará a vida e os milagres atribuídos ao 'Evangelista da Piedade'


postado em 16/09/2018 06:00 / atualizado em 16/09/2018 09:30

No dia da padroeira de Minas, celebração na Basílica Nossa Senhora da Piedade marcou a fase inicial do processo de beatificação(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
No dia da padroeira de Minas, celebração na Basílica Nossa Senhora da Piedade marcou a fase inicial do processo de beatificação (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)

Um ato solene, seguindo os ritos do Vaticano, marcou na tarde de ontem a abertura do processo de beatificação do monsenhor Domingos Evangelista Pinheiro (1843-1924), natural de Caeté, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e considerado, no século 19, um dos guardiões da região onde fica o Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade – Padroeira de Minas Gerais. “Monsenhor Domingos era o ouro da nossa terra. Chamado de ‘Evangelista da Piedade’, sempre teve os olhos voltados para os pobres. Temos uma data importante, pois hoje é o dia da padroeira dos mineiros, Nossa Senhora da Piedade”, disse o arcebispo metropolitano de BH, dom Walmor Oliveira de Azevedo. Com a abertura do processo, o monsenhor se torna Servo de Deus.


O rito da Santa Sé para abertura do processo – tecnicamente denominado “inquérito”, conforme destacou o postulador da Causa dos Santos da Santa Sé Apostólica, o italiano Paolo Vilotta – teve início às 14h20, com a formação do tribunal que vai investigar a vida e o legado do candidato a beato. “Trata-se da fase diocesana e não sabemos quanto tempo vai durar. Neste período, será investigada a existência de um milagre concedido por intercessão de Monsenhor Domingos. Passada essa etapa, vem a fase romana”, disse dom Walmor. Além do arcebispo e do postulador, participam do grupo monsenhor Geraldo Calixto, padre Fernando César do Nascimento, reitor do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade – Padroeira de Minas Gerais e agora promotor de Justiça no inquérito, e os “notários e atuários”, professora Betânia Diniz Gonçalves e Álvaro Luiz Carvalho da Cunha.

Após a assinatura em documento oficial de todos os integrantes do tribunal e do juramento de que manterão silêncio sobre o transcorrer do processo, a multidão que lotou a basílica, ex-Igreja Nova das Romarias, pôde ver o sarcófago contendo os restos mortais de Monsenhor Domingos, fundador, em 1892, da Irmandade Nossa Senhora da Piedade, que deu origem à Congregação das Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade (Ciansp).

Restos mortais do sacerdote foram expostos e depois levados em procissão(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Restos mortais do sacerdote foram expostos e depois levados em procissão (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
PROCISSÃO A caixa de madeira fica no jazigo do Asilo São Luís ou Recanto Monsenhor Domingos, localizado aos pés da Serra da Piedade, e também obedeceu ao rito da Santa Sé. Foi levada para o templo no alto do maciço, esteve no altar, durante a missa das 15h, e depois retornou em procissão ao local de origem, em carro do Corpo de Bombeiros. No asilo viveu a Irmã Benigna Victima de Jesus (1907-1981), cujo processo de beatificação, aberto em 2011, tramita na Santa Sé desde 2013.

Destacando que o candidato a beato foi o primeiro brasileiro a fundar uma congregação no país, algo até então restrito a estrangeiros, o italiano Paolo Viotta, responsável por outros processos, como os dos beatos Nhá Chica e Padre Victor, em Minas, e Irmã Dulce, na Bahia, resumiu na palavra “coragem” a atuação de Monsenhor Domingos. “Devoto de São José e de Nossa Senhora da Piedade, o monsenhor viveu para ajudar os pobres. A solenidade deste sábado, em que ocorre a abertura do inquérito, significa um procedimento jurídico, um momento histórico. Agora, serão entrevistadas muitas pessoas e reunidos documentos. Há muito trabalho a fazer nesta primeira fase”, afirmou Vilotta.

À frente de uma caravana de professores, estudantes e funcionários da rede de escolas dirigidas pela Congregação das Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade, a madre-geral, Teresa Cristina Leite, ressaltou que o mais importante no legado de Monsenhor Domingos se refere às questões defendidas por ele, muito atuais no mundo contemporâneo, como a luta contra o racismo e a ajuda aos pobres. “Trabalhou para a dignidade humana, lutou contra a escravidão. O que fez não tem a ver com assistencialismo, mas com acolhimento. Muitas das escravas que defendeu se tornaram professoras”, disse a religiosa.

 Arcebispo dom Walmor destacou a preocupação com pessoas carentes que marcou a vida e a obra do religioso(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Arcebispo dom Walmor destacou a preocupação com pessoas carentes que marcou a vida e a obra do religioso (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)

Acolhida às ‘filhas do ventre livre’


Um dos feitos marcantes de Monsenhor Domingos foi acolher na instituição de ensino criada por ele meninas libertas pela Lei do Ventre Livre. Embora não cativas, essas crianças estavam em situação difícil, pois seus pais ainda eram escravos. Sensibilizado, e com o propósito de contribuir para a verdadeira libertação da população negra, o monsenhor criou o Asilo São Luís, em 1878, formando a primeira turma de professoras negras do Brasil, que continuaram o trabalho de formação das crianças no asilo. “No coração de Monsenhor Domingos surgiu o apelo evangélico de trabalhar, continuamente, o processo de conversão para transformar, por dentro, as estruturas da sociedade, para se respeitar e promover a dignidade”, disse a madre-geral.

A religiosa, que veio do Rio de Janeiro (RJ), informou que há registros de milagres concedidos por intercessão do fundador da congregação. O primeiro ocorreu ainda no século 19, quando um grupo de irmãs se queixou de que não havia nada para comer e distribuir aos famintos. Com tranquilidade, o monsenhor pediu que elas voltassem à cozinha, e, para surpresa geral, as panelas estavam cheias de comida. Outro milagre diz respeito à cura de uma religiosa da congregação.

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