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Estado de Minas PRAIA DOS OSSOS

Série de podcasts lança enredo do assassinato de Ângela Diniz por Doca Street

Pesquisa resgata história dos anos 1970, debate machismo e promete revelações sobre o crime


06/09/2020 07:00 - atualizado 06/09/2020 07:35

A socialite mineira três anos antes do assassinato, ocorrido às vésperas do réveillon de 1976/77(foto: O Cruzeiro/Arquivo Estado de Minas - 20/6/1973)
A socialite mineira três anos antes do assassinato, ocorrido às vésperas do réveillon de 1976/77 (foto: O Cruzeiro/Arquivo Estado de Minas - 20/6/1973)
 

Uma linda mulher – corajosa, acima de tudo –, uma vida de glamour nas altas rodas, um fim trágico. Há muitas formas de se contar a história da mineira Ângela Maria Fernandes Diniz, mais conhecida como Ângela Diniz, morta aos 32 anos, às vésperas do réveillon de 1976/77, na Praia dos Ossos, em Búzios (RJ).




No gatilho que disparou os quatro tiros fatais estava o dedo do empresário paulista Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street, então com 42. Vítima de um crime de repercussão nacional, tema de livros, debates, programas de televisão e muitas reportagens, a chamada Pantera de Minas tem agora sua trajetória contada em uma plataforma que joga os sons do século 21 sobre um enredo que traz à tona temas mais atuais que nunca: uma séries de podcasts com estreia no próximo dia 12.


Ver galeria . 5 Fotos O Cruzeiro/Arquivo Estado de Minas
(foto: O Cruzeiro/Arquivo Estado de Minas )


Em oito episódios e com pesquisa detalhada, incluindo arquivos do Estado de Minas, o podcast Praia dos Ossos é fruto do trabalho da norte-americana Flora Thomson-Deveaux, residente no Rio de Janeiro (RJ), e da carioca Branca Vianna, com produção da Rádio Novelo.

Para lembrar a vida de Ângela Diniz, há depoimentos de pessoas que a conheceram bem de perto, a exemplo da jornalista Anna Marina, editora do caderno Feminino do EM, e de amigas de infância, entre elas Ângela Teixeira de Mello e a cientista política Valéria Penna.

Mesmo que Ângela Diniz tenha ficado sob os holofotes de uma vida social intensa – e, depois da morte, tendo a intimidade exposta às luzes da Justiça, da imprensa e da curiosidade pública – ainda há muito para se conhecer sobre ela.

Com a palavra, as duas pesquisadoras: “Falta contar a história dela: quem era, do que gostava, quem eram seus amigos, o que queria da vida. Ângela era uma mulher diferente para a época, muito corajosa, decidida”, analisa Branca.

Flora destaca outro aspecto: “A questão não é só o que falta ser contado; é importante olhar para a maneira como essa história foi contada, e como isso acabou influenciando o desenrolar do caso”. Para resumir, “era uma mulher à frente do seu tempo, e do nosso tempo também”, define Branca.

MISTÉRIO

Os casos de feminicídio (assassinato da vítima motivado pelo fato de ela ser mulher, crime só tipificado no país em 2015, portanto muitas décadas após a tragédia em Búzios) não param de crescer no Brasil.

Podemos falar que Ângela pagou o preço de viver numa sociedade muito machista. “Muitas outras mulheres foram e são assassinadas todos os dias, sem terem feito nada de errado. Elas morrem só porque são mulheres”, destaca Branca.

Mais de quatro décadas após o assassinato de Ângela Diniz, pairam sombras de mistério sobre o caso. Um dos enigmas se refere à jovem alemã Gabriele, que se encontrou com o casal na Praia dos Ossos e depois desapareceu sem deixar vestígios. A resposta sobre a investigação das pesquisadoras sobre essa personagem está nos podcasts. Mas, por enquanto, não tem spoiler.

QUEM FOI

 

Ângela Diniz nasceu em 10 de novembro de 1944 em Curvelo, na Região Central de Minas. Íntima das colunas sociais desde criança, casou-se aos 18 anos com Milton Villas Boas, construtor e filho de um ministro do Supremo Tribunal Federal.

Na ocasião, os jornais mineiros chamaram o evento, realizado em janeiro, de “o enlace mais focalizado de 1963”. O casal teve três filhos e se desquitou depois de nove anos – o divórcio só foi instituído no Brasil em 1977.

Segundo as pesquisadoras, “Ângela começou a construir a biografia de mulher independente que faria a alegria das colunas sociais – e contribuiria para endossar a imagem nada invejável da ‘desquitada’, então sinônimo de ‘mulher fácil’“.

Já morando no Rio, Ângela Diniz ganhou do maior colunista social da época, Ibrahim Sued, o apelido de Pantera de Minas. Por alguns meses, os dois formaram um conhecido, e conturbado, casal na noite carioca.

Ângela já estivera envolvida num homicídio (chegou a confessar o crime que não cometeu para proteger um amante). A esse processo somaram-se dois outros, por suposto sequestro da própria filha e por uso de entorpecentes (a polícia, numa batida, encontrara maconha em seu apartamento).

Em 1976, o caminho da mineira cruzou com o de Raul Fernando do Amaral Street, mais conhecido como Doca, 10 anos mais velho. A paixão foi fulminante: Ângela se separou de Sued, enquanto Doca, marido da socialite paulista Adelita Scarpa, fez as malas.

Depois de poucos meses morando juntos no Rio, resolveram levar as coisas um passo adiante. Decidiram trocar o jet set por uma casa em Búzios – naquela época pouco mais que uma vila de pescadores – e viver longe dos holofotes e das colunas sociais que tinham regido suas vidas até então.

Mas a nova vida em Búzios não durou mais que poucos dias. Em 30 de dezembro de 1976, Ângela e Doca brigaram, e ele a matou com quatro tiros de uma arma da marca Beretta. Doca fugiu. Enquanto Ângela era velada e enterrada em Belo Horizonte, começava um circo midiático que duraria anos. E que culminaria com o assassino sendo ovacionado na porta do tribunal.

 

O empresário paulista que cometeu o crime a tiros: defesa alegou 'legítima defesa da honra'(foto: Arquivo Estado de Minas)
O empresário paulista que cometeu o crime a tiros: defesa alegou 'legítima defesa da honra' (foto: Arquivo Estado de Minas)
 

SAIBA MAIS

Crime e castigo
Doca Street foi a julgamento em outubro de 1979, e condenado por excesso culposo de legítima defesa – isso supondo que Ângela teria agredido a honra masculina dele e que as quatro balas que a mataram seriam uma espécie de legítima defesa. Doca recebeu uma pena de 18 meses pelo crime e seis meses por ter fugido, pena suspensa porque ele já havia cumprido sete meses na prisão antes do julgamento. O resultado acabou sendo anulado como sendo manifestamente contrário à prova dos autos. Ele foi levado a julgamento novamente em novembro de 1981 e condenado a uma pena de 15 anos. Depois de cumprir cinco anos entre regime fechado e semiaberto no Rio de Janeiro, Doca Street voltou para São Paulo, onde ainda vive.


ENTREVISTA

Flora Thomson-Deveaux e Branca Vianna, autoras da série de podcasts Praia dos Ossos

 

“Ela estaria à frente do nosso tempo”

O que falta saber sobre a história de Ângela Diniz, uma mulher que teve uma vida social tão exposta e foi vítima de um crime de repercussão nacional?
Branca - Falta contar a história dela: quem ela era, do que gostava, quem eram seus amigos, o que ela queria da vida. Ângela era uma mulher diferente para a época, muito corajosa, decidida. Foi uma boa surpresa descobrir sua personalidade ao longo desses dois anos. E foi isso que tentamos retratar ao longo dos oito episódios da Praia dos Ossos.
Flora - Além disso, a questão não é só o que falta ser contado; é importante olhar para a maneira como essa história foi contada, e como isso acabou influenciando o desenrolar do caso.

Seria pouco dizer que era alguém à frente do seu tempo?
Branca -
Seria exato dizer que ela era uma pessoa à frente do seu tempo. Acho que ela estaria à frente do nosso tempo também.

Com os olhos de 2020, o que podemos falar sobre a trajetória de Ângela Diniz?
Branca
- Podemos falar que a Ângela Diniz pagou o preço de viver numa sociedade muito machista. Assim como ela, muitas outras mulheres foram e são assassinadas todos os dias, sem terem feito nada de errado. Morrem só porque são mulheres.

O crime que completa 44 anos em 30 de dezembro ocorreu numa época em que muitas mulheres foram assassinadas, no Brasil, pelos companheiros, maridos ou namorados. Essa violência continua acontecendo. Pelas pesquisas e depoimentos para os podcasts, é possível ter pistas para tal motivação?
Branca -
Nossa sociedade patriarcal ainda não enfrentou a violência de gênero. É inaceitável que mulheres morram por quererem se separar, por não quererem namorar alguém, ou só porque os homens acham que são donos delas e podem dispor das suas vidas.

A morte da chamada “Pantera de Minas” significou um grito, ainda não ouvido por muitos, contra o machismo?
Branca -
A morte dela, não. Foi uma tragédia, como muitas outras, resultado do mundo machista em que ainda vivemos hoje. É uma tragédia pessoal, naturalmente, mas também uma tragédia social, sistêmica, estrutural. O problema da violência contra as mulheres não será  resolvido caso a caso.
Flora - A reação à morte dela, na época, foi bastante peculiar. É algo que exploramos no primeiro episódio de Praia dos Ossos, que estreia em 12 de setembro.

Vocês imaginam como seria o julgamento de Doca Street hoje, quando caiu por terra a tese de “legítima defesa da honra”?
Branca -
Dificilmente o advogado dele conseguiria empregar a mesma defesa hoje em dia. Os casos de feminicídio continuam a crescer, mas hoje têm tipificação no código penal e ninguém mais alega ter matado por amor, ou ao menos não se aceita mais essa alegação.  

A história ainda guarda mistérios, como o desaparecimento, sem pistas, da jovem alemã Gabriele. Vocês abordam esse aspecto?
Branca -
Abordamos, e resolvemos o mistério. Mas não podemos dar spoiler.
Flora - Sem dar spoiler, queria meter a minha colher de pesquisadora nessa: quase sempre erraram a ortografia do nome dela na imprensa brasileira, a ponto de canonizar o erro. Era Gabriele Dyer, não Gabrielle Dayer.

Como foram as pesquisas para este trabalho? A família dela colaborou?
Flora -
A pesquisa foi demorada e imprevisível. Fizemos dezenas de entrevistas presenciais com pessoas relacionadas ao caso no Rio, Belo Horizonte, São Paulo – mas antes disso, mergulhei durante meses na cobertura do caso, nos autos, e nos livros que foram escritos a respeito. Na nossa passagem por Minas, passei vários dias praticamente acampando entre a Biblioteca Estadual e o acervo do Estado de Minas. Procuramos a família dela, mas a maior parte da apuração se debruçou na mídia, propriamente dita: não só a história da Ângela, mas como ela foi contada.

Se estivesse viva, Ângela Diniz teria 76 anos. Nesses tempos de tanta exposição em redes sociais, vocês acreditam que ela estaria mais reclusa ou tenderia a ser adepta dessa frenesi virtual?
Branca
- Difícil dizer. Ela nunca foi reclusa. As pessoas mudam com a idade, mas eu imagino a Ângela ainda saindo, se divertindo, com muitos amigos e sempre próxima da família, especialmente dos filhos. Ela era muito ligada a eles.


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