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Estado de Minas

Tentativa de vereadores de barrar exposição em BH gera protesto e aumenta visitação

Críticas de vereadores apontando 'apologia à erotização' em exposição de fotos de homens sobre vestido de noiva no Bairro São Geraldo; Ontem, um grupo esteve ao local para se manifestar a favor do artista


postado em 09/08/2018 06:00 / atualizado em 09/08/2018 09:31

Com mais de 200 fotos, parte delas de homens semidespidos presas com alfinetes a um vestido de noiva, o artista pretende inspirar reflexão sobre o casamento (foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)
Com mais de 200 fotos, parte delas de homens semidespidos presas com alfinetes a um vestido de noiva, o artista pretende inspirar reflexão sobre o casamento (foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)


Há uma semana, um dos grafites que colore os tapumes das obras na Praça da Liberdade, na Região Centro-Sul de BH, amanheceu censurado. Mamilos e genitália da mulher representada na peça foram cobertos com tinta branca. Desta vez, a nudez que compõe Sonho agridoce, ou imaculado, exposta no Centro Cultural São Geraldo, na Região Leste de BH, foi questionada por parlamentares, que apontaram “apologia à erotização e à masturbação” e afirmaram que crianças estariam “expostas a uma mostra pornográfica.” Após a crítica dos vereadores, pelo menos quatro ameaças ocorreram no espaço e guardas municipais foram solicitados para proteger permanentemente o local. Os funcionários estão com medo de outras possíveis intimidações. Mas, na contramão da intolerância, tanto eles quanto a obra receberam apoio de visitantes e instituições culturais. Ontem, um grupo esteve ao local para se manifestar a favor do artista e da liberdade de expressão. A Fundação Municipal de Cultura também se pronunciou: o trabalho se encontra dentro dos padrões sugeridos como critérios para a classificação livre, diz a instituição que ainda “lamenta’ e “repudia o ato de desrespeito dos vereadores”.

A mostra, composta por um painel com mais de 200 fotos e um vestido de noiva, onde foram alfinetadas imagens de corpos masculinos parcialmente despidos, está gerando polêmica. O intuito do artista, que usa o pseudônimo de Meshiacha, é convidar a uma reflexão sobre como a sociedade cria os homens e mulheres para terem objetivos diferentes em relação ao casamento. Mas os vereadores Fernando Borja (Avante) e Jair Di Gregório (PP) visitaram a exposição no fim de semana e classificaram as imagens como uma forma de “apologia à erotização e masturbação, sem nenhuma restrição à entrada de crianças”. Na ocasião, dois vídeos foram divulgados nas redes sociais denunciando o conteúdo da mostra. “Precisamos combater a erotização disfarçada de arte”, disse o vereador Fernando Borja ao Estado de Minas.



Segundo ele, crianças não têm maturidade psicológica para compreender temas da sexualidade adulta. “A Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) são expressos em reconhecer a vulnerabilidade psicológica. A lei é expressa ao proibir a exibição de fotos, imagens ou desenhos eróticos”, afirmou ele. Colega de Câmara Municipal de Belo Horizonte de Borja, o vereador Jair Di Gregório, líder da bancada cristã, também foi ao centro, onde fez um vídeo “ao vivo” para mostrar a “aberração”. Ele é o mesmo que denunciou a exposição do artista mineiro Pedro Moraleida, Faça você mesmo sua Capela Sistina, que ficou em cartaz no Palácio das Artes. “É brincadeira o que a cultura de BH está fazendo com as nossas crianças.”, disse em vídeo. “Isso nunca foi arte e nunca vai ser. É pornografia”, completou.

Ao EM, Gregorio sustenta a mesma argumentação do colega sobre a suposta “apologia à erotização”. E afirma: “Material dessa natureza não pode estar exposto a crianças e adolescentes, principalmente em equipamento público.” Segundo ele, o fato será apurado com a Secretaria Municipal de Cultura. O parlamentar garante que não se trata de censura: “Estamos cumprindo as leis. Os artigos 78,79 e 214 do Estatuto da Criança e Adolescente, bem como os artigos 218 e 233 do Código Penal proíbem a exposição de imagens ou mensagens pornográficas ou obscenas a crianças e adolescentes.”



ATAQUES AO CENTRO
 Após as visitas, o Centro Cultural São Geraldo tem recebido constantes ameaças. Ana Paula Cantagalli, gestora do espaço e artista plástica disse estar assustada com a repercussão: “A exposição veio de comum acordo com a comissão local de cultura, já para ter essa abertura. A gente esperava que gerasse uma polêmica, já que é uma exposição que traz um questionamento, mas não contávamos com ataques de ódio gerados por esses vídeos”, contou ela. Ela disse que pessoas estiveram ao local e tentaram entrar, mesmo com o centro cultural fechado. “Queriam que fosse aberto de qualquer jeito, ameaçando: ‘Tem que pôr fogo nisso aí’. ‘Nada que tem aí presta’”, lamentou ela. Em quatro casos de ataque, a profissional se sentiu acuada. Além da entrada forçada, um homem que se identificou como agente penitenciário disse: “Vou arrebentar esse risinho seu. Vou rasgar esse risinho seu. Só não vou fazer nada enquanto vocês (referindo-se aos guardas municipais) estiverem aqui”.

Diante dos ataques envolvendo a instalação, o artista se manifestou para explicar o conceito em torno da obra e apontou censura nas atitudes dos vereadores. Ao EM, ele disse acreditar que os debates são importantes e as opiniões contrárias merecem ser ouvidas, desde que isso seja feito de forma respeitosa: “Além do tom de voz desrespeitoso, podemos perceber no próprio vídeo uma explícita deturpação do conteúdo da obra”.

Meshiacha (C) com parte do grupo que esteve ontem no Centro Cultural São Geraldo para defender a livre expressão (foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)
Meshiacha (C) com parte do grupo que esteve ontem no Centro Cultural São Geraldo para defender a livre expressão (foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)


Meshiacha ainda pontua que, de acordo com o Guia Prático de Classificação Indicativa do Ministério Público Federal, seu trabalho está dentro dos padrões sugeridos como critérios para a classificação livre. “Observado o contexto do trabalho proposto – que está explicitado no texto que acompanha a instalação e ignorado pelos dois vereadores que foram até a exposição –, acredito que o trabalho está de acordo com a classificação livre sugerida pelo Ministério da Justiça, uma vez que nenhum órgão genital está exposto e as imagens não sugerem atos sexuais nem se apresentam em nenhum contexto erótico”, completou.

Por meio de nota, a Fundação Municipal de Cultura prestou apoio e solidariedade aos funcionários do Centro Cultural São Geraldo e à instalação Sonho agridoce, ou imaculados e concordou que o trabalho não fere as normas sugeridas para classificação livre. E reafirmou “a vocação pública de seus equipamentos culturais ao oferecer seus espaços expositivos para artistas e projetos culturais, fomentando reflexões artísticas e prezando pela pluralidade”.

Frequência à mostra dobra


É a arte cumprindo o seu papel? A polêmica levou centenas de pessoas ao Centro Cultural São Geraldo. Há quem admire e quem critique a exposição Sonho agridoce, ou imaculado. Mas se o número de pessoas que passavam por ali não era muito grande até o último fim de semana, após a polêmica, as atenções se voltaram para a mostra e o número de visitantes dobrou. E na contramão do ódio um grupo de cerca de 30 pessoas foi ontem ao espaço em solidariedade ao artista.

“A exposição já estava acontecendo e não tinha gerado repercussão nenhuma. Agora, está trazendo uma discussão, e vemos que a arte está cumprindo seu papel. Como artista plástica, estou muito feliz. O número de visitantes praticamente dobrou, ajudou a divulgar o centro. Entre as pessoas da comunidade, há muito mais apoio. Quase todos apoiando”, contou Ana Paula Cantagalli, gestora do Centro Cultural. 


Leandro Pereira Dias, de 38 anos, produtor cultural e músico foi ao local para prestar suas homagens e pedir pela liberdade de expressão. “A gente percebe que a questão dessas pessoas que fomentam o ódio não é contra a exposição em si, porque a obra mesmo não traz nada além do que a gente vê todos os dias na televisão, nas bancas de revista. A posição dessas pessoas é contra a cultura, contra a arte, contra a liberdade de expressão”, afirmou o produtor, que levou a filha de 1 ano e nove meses para o protesto. “A gente cria nossos filhos já com esse pensamento do que é arte e a importância que ela tem”, completou.

Durante o ato, um abaixo-assinado foi repassado para os visitantes em apoio à exposição. Até o início da tarde de ontem, pelo menos 100 pessoas já haviam assinado o documento. Meshiacha se diz muito satisfeito e grato pelo apoio. “Fiquei muito surpreso quando vi os vídeos. Mas estou ainda mais surpreso com o apoio. Estou muito feliz”, contou.

 

SERVIÇO
Centro Cultural São Geraldo – Av. Silva Alvarenga, 548, Bairro São Geraldo
Até 31 de agosto. Segundas, das 9h às 17h. De terça a sexta, das 9h às 18h.
Outras informações: (31) 3277-5648

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