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Estado de Minas

Pichação em mural recém-pintado na Praça da Liberdade revolta artista e admiradores

Seios e sexo de mulher criada por grafiteira em painel de tapumes são cobertos com faixa de spray branco, em ato de vandalismo que provocou protestos da artista e do público


postado em 02/08/2018 06:00 / atualizado em 02/08/2018 07:48

Para Ana Caroline e Taline, a intervenção anônima na obra não é apenas conservadorismo e sim um ato contra as mulheres grafiteiras (foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)
Para Ana Caroline e Taline, a intervenção anônima na obra não é apenas conservadorismo e sim um ato contra as mulheres grafiteiras (foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)
 

Moralismo ou liberdade de expressão? Preconceito ou puro machismo? Atitude conservadora, censura ou ofensa pessoal? Duas semanas após um grupo de grafiteiros deixar sua arte nos tapumes da Praça da Liberdade, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, um dos painéis protetores do canteiro de obras é alvo de uma “intervenção” inesperada, que divide opiniões e não deixa ninguém indiferente. Com spray branco, uma pessoa não identificada cobriu com uma faixa os seios e o sexo da mulher criada, sobre a madeira, pela artista Patrícia Caetano (Pat Caetano). Sobre a pintura, a artista escreveu Respeita as Minas.

Passando pelo local, o designer de interiores Guilherme Siqueira, de 25 anos, morador do Bairro Santa Maria, na Região Noroeste, fez questão de olhar bem de perto o painel. Para ele, o ato agressivo contra o trabalho da artista não passa de conservadorismo. “Que bobagem que fizeram! Os corpos do homem e da mulher são livres, não há necessidade de cobrir o sexo desta forma, ainda mais numa pintura”, afirmou Guilherme.

Com a exposição da obra do artista norte-americano Jean-Michel Basquiat (1960-1988) em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), muita gente aproveitou para ver ou rever as 54 obras integrantes do Mural Liberdade. Moradora do bairro São Benedito, em Santa Luzia, na Grande BH, a estudante de psicologia Ana Caroline de Souza, de 24, fez uma leitura bem diferente, que passa pelo machismo.

“O mundo do grafite ainda é dominado pelo homens, há muito machismo. Assim, muitos não concordam com a presença de uma mulher neste mural, que ganha, assim, muita visibilidade”, disse Ana Caroline. Para a estudante, “a frase da Pat Caetano é no sentido ‘Respeita as Minas grafiteiras’. E aí alguém, numa atitude preconceituosa contra a mulher, deu o seu recado diretamente para ela”.

Ana Caroline contou que acompanhou o trabalho dos grafiteiros em torno do espaço público e achou sensacional a ideia, certa de que os murais dialogam com a exposição de Basquiat, a qual já viu duas vezes. Ao lado, a amiga Taline Cristina Souza, moradora do Bairro Vitória, na Região Nordeste, concordou. “Infelizmente, há muito machismo. Mas não sou grafiteira, não”, disse a jovem. 

O painel com nomes dos artistas foi usado por alguém para deixar recado sobre o descuido em relação às favelas e Maria Isabel aprovou (foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)
O painel com nomes dos artistas foi usado por alguém para deixar recado sobre o descuido em relação às favelas e Maria Isabel aprovou (foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)


RECADOS
Do outro lado, quase em frente ao prédio conhecido como Rainha da Sucata, alguém deixou um recado bem perto dos nomes dos artistas que fizeram os grafites e da equipe de produção do Mural Liberdade. A tradução, do modo que está grafado sobre a superfície branca, é a seguinte: “Cês num cuida nem dos ponto turístico, imagina das favela”.

Para a estudante de direito Maria Isabel Tarcis, de 21, moradora do Bairro Funcionários, na Região Centro-Sul, “o painel é para todo mundo se expressar”, ainda mais que, no local da frase, havia um espaço em branco. Quanto ao Respeita as Minas, ela critica. “Não precisa apagar a arte do outro, estragar um trabalho que, assim, perdeu o seu propósito”, disse a estudante.

Na sua página no Facebook, a artista plástica belo-horizontina Patrícia Caetano, de 46, considerou hipocrisia a agressão à obra e se mostrou perplexa. E em entrevista ao Estado de Minas disse que vai lavrar um boletim de ocorrência na polícia e pretende restaurar a obra. “Estava meio que esperando isso, porque a gente já conhece o jeito que as pessoas reagem a esse tipo de exposição. Não me assustei tanto. Até achei que demorou muito. Fiquei num misto de perplexidade e raiva. Mesmo que esteja esperando, a gente fica um pouco impactada.”

Pat Caetano, que foi informada do ocorrido por uma amiga, explicou ainda que, quando viu as pessoas reagindo à pichação, principalmente mulheres, ficou com muita raiva. “Muitas mulheres se sentiram ofendidas. Isso foi uma afronta a nós mulheres, à nossa liberdade”. Sobre a ideia do painel, ela disse que pensou em homenagear as mulheres e, ao mesmo tempo, deixar marcado no cartão-postal da cidade um apelo ao respeito. “Respeito aos nossos corpos. Respeito ao nosso direito de ir e vir. Não quis fazer nada agressivo, por isso optei por um traço mais lúdico”.

A artista afirmou ainda que no dia em que fez o grafite ficou muito feliz. “Havia crianças e pais acompanhando meu trabalho. Ninguém criticou. Eu quis passar uma mensagem politizada, mas sem ser agressiva. Acho que todas as pessoas têm direito de não gostar, sou aberta a críticas. Mas sem atacar com violência uma expressão que levou tanto tempo para ser feita, com esforço mental e físico. Faça um trabalho você mesmo criticando, mas não vandalize o meu”, disse, destacando ainda que não teve tempo de ir a uma delegacia lavrar o boletim de ocorrência.

Em nota, a Prefeitura de Belo Horizonte se limitou a lamentar “o desrespeito com a obra da artista Patrícia Caetano”.

ORGANIZAÇÃO A iniciativa de pintar os tapumes e transformá-los no Mural Liberdade foi idealizada e organizada pelo Instituto Amado (cujo objetivo é reconectar a cidade com os moradores por meio da arte pública da educação), pela Galeria de Arte Quartoamado e por profissionais de forma individual, com apoio da PBH. Os tapumes, de 7,7 x 2,2 metros, em sua maioria, mostram cenas diversas – esporte, urbanas, brinquedos, gastronomia etc. – produzidas com criatividade, cores, spray e pluralidade cultural. As atividades têm apoio do Movimento Gentileza.

A revitalização completa do complexo turístico, prevista para terminar em novembro, tem à frente a PBH, governo do estado, por meio do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha/MG), e uma empresa privada. A praça vai passar por uma renovação do sistema de iluminação, restauração do coreto, da estátua Ninfa e do piso da pista de caminhada, reinstalação das placas de monumentos e a reformulação do mobiliário. Ela vai receber equipamentos com padrões arrojados de design, com a renovação de bancos e lixeiras. O espaço foi inaugurado em 1897 e tombado como patrimônio há 40 anos pelo Iepha.

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