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Estado de Minas

Igreja da Boa Viagem entra em nova etapa do trabalho de restauração

Com quatro frentes de trabalho, série de intervenções para recuperação tem início na igreja e na imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem. Já foram investidos R$ 700 mil


postado em 14/03/2018 06:00 / atualizado em 14/03/2018 08:01

Padre Marcelo acompanha as obras, que incluem pintura e recuperação de vitrais, do piso e dos altares(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS)
Padre Marcelo acompanha as obras, que incluem pintura e recuperação de vitrais, do piso e dos altares (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS)

Novo tempo na restauração da Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem e Santuário Arquidiocesano de Adoração Perpétua, na Região Centro-Sul da capital. Começaram, ontem, as obras no interior do templo, que funciona como catedral provisória da Arquidiocese de Belo Horizonte e deverá abrigar quatro frentes de trabalho nesta temporada: pintura para devolver a cor original às paredes, além de recuperação dos vitrais, do piso de tacos e dos altares de mármore. Enquanto os serviços avançam para ficar prontos em seis meses, uma delicada intervenção enche os olhos de especialistas e apresenta descobertas: trata-se do restauro da imagem da padroeira Nossa Senhora da Boa Viagem, de origem portuguesa, que chegou ao primitivo arraial de Curral del-Rey em 1714.

Acompanhando o trabalho de montagem dos andaimes, que deverão subir a uma altura de 12 metros, o titular da paróquia e reitor, padre Marcelo Carlos da Silva, adianta que a igreja continua aberta para as missas e demais celebrações religiosas. Cheio de entusiasmo, ele explica que a obra começou em 2015, para reforma do telhado, atravessando 2016 com a parte de infraestrutura (rede elétrica, iluminação, sonorização e segurança). Já no ano passado, foi contemplada a execução do novo sistema de som e da implantação de câmeras de segurança e início do restauro da imagem.

A expectativa, diz o pároco é de reentronizar a peça sacra em 15 de agosto, data consagrada à padroeira de BH, e quando o altar dedicado a ela estará concluído. Grato à comunidade pela colaboração no projeto por meio da campanha Juntos pelo restauro, padre Marcelo celebrou domingo missa de “agradecimento e súplica” pelo bom andamento do projeto com bênção para os trabalhadores envolvidos. Ele lembra que, além da ajuda popular e de atividades da paróquia, há recursos provenientes de emenda parlamentar e busca parceiros no setor privado, via Lei Rouanet, para levar adiante a obra. Até agora, já foram investidos mais de R$ 700 mil nas obras da igreja.

OURO COLONIAL Ficar alguns momentos em silêncio no interior da catedral provisória representa acolhimento, fortalecimento da fé e descanso para o espírito. Mas logo que os operários voltam à ativa, montando os andaimes, vê-se que, para instantes de paz, é preciso muita luta. Basta olhar para o ambiente. O padre explica que há molduras dos vitrais com ferrugem, infiltrações em alguns pontos e simplesmente cinco camadas de tinta cobrindo a cor original das paredes, conforme ficou constatado em pesquisas entre 2011 a 2015. “Vamos retornar com o ouro colonial às paredes internas”, observa.

O piso de tacos também merece atenção especial nesta empreitada. “A madeira é muito bonita, embora esteja coberta de cera e outros produtos, então será raspada. Apontando as luminárias no alto, que destoam da arquitetura, padre Marcelo revela que serão colocados lustres. Tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) e Conselho Deliberativo Municipal do Patrimônio Cultural e com elementos artísticos – incluindo a imagem, altar, pia, chafariz e outras peças do século 18 sob proteção do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) –, a igreja em estilo neogótico não está muito longe de completar o centenário de inauguração, o que ocorrerá em 8 dezembro de 2023. E todos trabalham para mostrar um patrimônio do qual os belo-horizontinos devem se orgulhar. “No ano passado, celebramos oito décadas da Adoração Perpétua”, destaca o religioso.

“Fazemos churrascos, barraquinhas, enfim, de tudo para terminar a igreja. É preciso lembrar que a história da capital surgiu com a imagem que estava na capela original, em torno da qual nasceu o arraial, formou-se a vila e cresceu a capital. São mais 300 anos”, ressalta o pároco.

A imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem, esculpida em madeira de lei, também está sendo restaurada e deve ser reentronizada em 15 de agosto(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS)
A imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem, esculpida em madeira de lei, também está sendo restaurada e deve ser reentronizada em 15 de agosto (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS)


DESCOBERTAS Numa sala da igreja transformada em ateliê, especialistas da Rara – Relíquia Ateliê de Restauração Artística trabalham no restauro da imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem, que chegou aqui em 1714, pelas mãos de Francisco Homem Del Rey e tem 80 centímetros de altura, 40cm de largura e 26cm de profundidade. Com equipamentos para verificar todos os detalhes, Luzia Marta Marques Gonçalves e Jussara Maria Rocha Alves revelam a necessidade de remoção de pintura, pois havia até quatro camadas de tinta sobre a peça sacra policromada e esculpida em madeira de lei. “Havia até tinta plastificada”, afirma Luzia.

Jussara informa que dois dedos da mão esquerda da peça tinham “sofrido”, no sentido mais exato da palavra, uma intervenção inadequada: no lugar da madeira, colocaram resina epóxi. O jeito então foi contratar o serviço do escultor Guilherme Marques, que refez os dedos e também o nariz de um anjo querubim da base que estava quebrado.

Os olhos da peça também mereceram criteriosa intervenção e as restauradoras revelam uma história surpreendente, em que talvez nem todos os fiéis tenham reparado ao longo dos anos. É que, no lugar dos olhos de vidro originais, Luzia e Jussara encontraram “massa pintada” que deixava a imagem estrábica. “Sempre fazemos as intervenções com a decisão tomada em conjunto com o Iepha e o pároco”, conta Luzia. A solução veio da especialista em prótese ocular para humanos Elizabeth Souza, que doou os olhos, com um pedido à paróquia: doar uma prótese ocular para uma criança que esteja precisando.

TECNOLOGIA “É uma imagem linda, espetacular”, afirma Luzia, contando que no manto da santa, sob as camadas de tinta, descobriu-se um azul mais claro salpicado de flores num tom mais forte. Nas bordas, assim como nas asas dos anjos, havia folhas de ouro, destacam as especialistas. Com todo carinho, as duas apontam um suave tom de rosa encontrado em outra parte do manto, com botões de rosa. Já na base, outra surpresa: debaixo de uma azul chapado, foram encontradas as cores que lembram o pôr do sol.

O trabalho do Laboratório de Ciência da Conservação da Escola de Belas Artes (Lacicor/EBA) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) foi importante para o restauro da imagem da padroeira, sendo feitos exames como raio x, para conhecimento das técnicas construtivas e ultravioleta, para detectar as repinturas, vernizes e pigmentos usados. A equipe aguarda o resultado da espectroscopia de fluorescência de raio-x (FRX), que mostrará os componentes químicos dos pigmentos.

HISTÓRIA A história da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem teve início no século 18. Em 1709, o português Francisco Homem del Rey conseguiu autorização da coroa portuguesa por meio de cartas de sesmarias e se estabeleceu na região onde hoje se encontra Belo Horizonte. Segundo as pesquisas, ele trouxe uma imagem da padroeira dos navegantes portugueses, Nossa Senhora da Boa Viagem, que o acompanhou na travessia do Oceano Atlântico.

Para proteger e homenagear a santa, Francisco ergueu em suas terras uma pequena capela de pau-a-pique. Como estava na rota dos tropeiros que passavam pela região transportando riquezas do interior do país, a igrejinha recebeu o nome de Nossa Senhora da Boa Viagem e passou a ser conhecida também como a padroeira dos viajantes.

Com o passar dos anos e a enorme devoção dos fiéis, a capelinha ficou pequena para receber tanta gente e em seu lugar foi construída uma igreja maior. Mas, com a construção da capital, foi necessário erguer um novo templo – o atual Santuário Arquidiocesano de Adoração Perpétua Nossa Senhora da Boa Viagem, inaugurado em 1923, data em que a cidade de Belo Horizonte foi oficializada como arcebispado.

O nariz de um anjo querubim teve que ser refeito por um escultor(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS)
O nariz de um anjo querubim teve que ser refeito por um escultor (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS)

Memória

 

TAREFA CUIDADOSA

 

Em 16 de abril de 2016, o Estado de Minas documentou o início da terceira etapa das obras no Santuário de Adoração Perpétua e Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem. Para perfuração da base e passagem do novo cabeamento elétrico nas laterais internas do templo houve a cuidadosa tarefa de retirada dos tacos de madeira. Tanta atenção e, principalmente, perícia com a talhadeira, eram necessárias já que as peças do revestimento voltariam, uma a uma, ao local de origem. A catedral recebia, assim, novos sons: no lugar dos cânticos, dos salmos e das orações, ouvia-se o barulho do maquinário perfurando o piso. Em 18 de outubro do mesmo ano, ficou pronta a infraestrutura interna, incluindo o sistema de vigilância, e a nova iluminação para valorizar a arquitetura neogótica.

 

Centro de eventos religiosos

(foto: Arquivo EM - 15/08/1948)
(foto: Arquivo EM - 15/08/1948)

Santuário Arquidiocesano de Adoração Perpétua e catedral provisória de Belo Horizonte, a Igreja da Boa Viagem se tornou o centro de realizações dos grandes eventos religiosos da capital, na época do primeiro arcebispo dom Antônio dos Santos Cabral, o dom Cabral (1884-1967). Sempre em 15 de agosto, dia dedicado a Nossa Senhora, os católicos fazem procissões, participam de missas solenes e lotam o templo neogótico localizado na Região Centro-Sul. Em 15 de agosto de 1948, não foi diferente, e as festividades à padroeira da cidade foram registradas pelo Estado de Minas, que está em plena comemoração dos seus 90 anos de fundação.

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