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Estado de Minas

Barragens construídas com método mais seguro estão sem estabilidade

Estruturas feitas em etapa única são quase 40% das 33 sem declaração de estabilidade no estado, segundo estudo da ANM


postado em 04/04/2019 06:00 / atualizado em 04/04/2019 08:16

O levantamento da Agência Nacional de Mineração (ANM) sobre a situação das barragens de Minas Gerais sem a Declaração de Controle de Estabilidade (DCE) chama a atenção para um tipo de construção específico dessas estruturas. Considerado o método de barramento de rejeitos mais seguro e com maior apoio da tecnologia para se evitar qualquer tipo de problema e, consequentemente, garantir a estabilidade, as barragens construídas por etapa única, quando não há o alteamento previsto, são a maioria dos exemplos sem a estabilidade confirmada em Minas Gerais.

Os dados da ANM, divulgados na segunda-feira, apontam 36 reservatórios no estado sem a DCE, seja por confirmação de instabilidade ou por não terem entregado o documento, sendo 12 construídas por etapa única. Para o diretor da ANM, Eduardo Leão, esse cenário revela duas situações: problemas na construção desses reservatórios, mas também rigor maior das próprias auditorias, que temem transtornos futuros, a tal ponto que não conseguem chegar aos níveis exigidos de estabilidade depois da tragédia de Brumadinho.

Das 36 barragens do estado sem a DCE conforme a ANM, uma delas é a própria Barragem 1 da Mina Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho, que se rompeu matando 218 pessoas e deixando 78 desaparecidas. Outra é Três Fontes, que a empresa sustenta que já foi descaracterizada em Itabira. Por fim, a Gerais II, que aparece na lista da empresa Minerações Gerais, mas não consta no Cadastro Nacional de Barragens e, por isso, não foi possível levantar informações sobre o método construtivo.

Das 33 restantes, 12 foram viabilizadas pela etapa única e nove alteadas a montante, estilo considerado o mais perigoso e que era praticado nas barragens que se romperam em Mariana (2015) e em Brumadinho. As 12 restantes estão divididas igualmente entre alteamento a jusante e alteamento por linha de centro.

Para o consultor em barragens Joaquim Pimenta de Ávila, o modo etapa única é considerado o mais seguro porque já é construído da primeira vez com todos os requisitos necessários para o controle da estabilidade. “O que normalmente torna a barragem mais insegura é o crescimento dela por alteamento, especialmente em cima do rejeito, que nem sempre é competente para suportar esse crescimento”, explica o especialista.

O fato de 12 barragens de um método considerado mais seguro estarem sem DCE, seja por não terem enviado o documento, seja pelo auditor ter confirmado que elas são instáveis, leva a o diretor da ANM, Eduardo Leão, a acreditar que um dos problemas podem ser falhas na engenharia. “Na etapa única você tem toda a previsibilidade do mundo para fazer essa construção. Não tem alteamento. Você teria todas as premissas para fazer uma barragem com o melhor método. Se mesmo assim o fator de segurança está dando errado, muito provavelmente há problemas com a construção”, afirma. 
(foto: Arte EM)
(foto: Arte EM)


Maior pressão após Brumadinho 


Mas o diretor também pontua que é preciso investigar melhor outra situação, ligada à repercussão da tragédia de Brumadinho. Para ele, pode existir um outro fator que contribuiu para a falta de declaração de estabilidade. “Pode ser que as empresas consultoras estão com tanto medo, que jogam coeficientes e subjetividades tão altos que o fator de segurança não bate”, comenta. Essa ponderação também é compartilhada pelo professor do Departamento de Termo-hidráulica da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) Carlos Barreira Martinez.

O especialista reconhece que na etapa única existe toda a tecnologia suficiente para embasar a construção, principalmente pelo fato de que você constrói o barramento e depois coloca o rejeito. Não há aumento do barramento durante o processo de deposição de rejeitos. Mas Martinez destaca que existe um temor muito grande dos auditores, principalmente depois que a Justiça chegou a prender os técnicos envolvidos na barragem que se rompeu. “Acredito que não é que a barragem que era considerada a mais segura hoje é a mais insegura. Os critérios da régua de avaliação mudaram e essas estruturas caíram numa faixa que é necessário implementar novas medidas”, afirma.

O diretor da ANM, Eduardo Leão, também destaca que outro critério precisa ser levado em consideração nesse contexto. Segundo ele, a agência recebeu comunicados de empresas solicitando a ampliação do prazo para entrega do documento que atesta a estabilidade, sob o argumento de que os auditores estariam assoberbados com a quantidade de serviço. Os casos serão analisados individualmente, mas ele admite que existe a possibilidade de empresas que não entregaram conseguirem a DCE com mais tempo.

Das 33 barragens levantadas pela reportagem sem a DCE, 13 delas tiveram a estabilidade negada e 20 não entregaram o documento. Quando analisadas apenas as de construção por etapa única, em quatro das 12 sem DCE os auditores concluíram que não havia estabilidade. As outras oito não enviaram o laudo.

 


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