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Estado de Minas AGRICULTURA

Pequenas ações produzem resultados impactantes em Arcos


postado em 30/05/2012 11:44 / atualizado em 01/06/2012 13:31

Adoção de novas práticas possibilitou a produção de tomate sem agrotóxicos(foto: Grupo Guaxinim)
Adoção de novas práticas possibilitou a produção de tomate sem agrotóxicos (foto: Grupo Guaxinim)


Segundo o relatório da ONU, a transição da agricultura tradicional para a verde vai exigir investimentos de US$ 198 bilhões anuais até 2050. Mesmo com a previsão alta de gastos, conceitos e atitudes simples, como alguns desenvolvidos no Brasil, mais precisamente na cidade mineira de Arcos, no centro-oeste do estado, mostram que mesmo sem recursos financeiros volumosos é possível conseguir bons resultados. Fundado por Zenaido Lima da Fonseca e Irani Muniz Leão, funcionários da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), o Grupo de Ação Ambiental Guaxinim estabeleceu novos procedimentos a serem adotados pela agricultura familiar da região em relação ao manejo da lavoura e descarte do lixo. Em 2009, a ONG realizou um diagnóstico para implantar a proposta nas propriedades de agricultura familiar e uma das coisas que mais chamou a atenção foi o uso de agrotóxicos e adubos químicos.

Unidade de reciclagem retira do meio ambiente 15 toneladas de lixo por mês(foto: Grupo Guaxinim)
Unidade de reciclagem retira do meio ambiente 15 toneladas de lixo por mês (foto: Grupo Guaxinim)
O projeto tomou forma com a primeira unidade demonstrativa de cultura de tomates orgânicos, na propriedade da família de Dezedino José Soares, Sirlene Maria do Carmo Soares e seus filhos, Igor e Daniela. Assim como a maioria das 180 famílias que vivem da cultura do tomate em Arcos, a lavoura recebia produtos químicos e Sirlene já havia apresentado quadros de intoxicação. Depois da realização de alguns eventos e ações educativas, as novas práticas foram adotadas e todos os produtos ganharam o selo “sem agrotóxico”. A produção é vendida nos mercados do próprio município, mas os resultados vão além de tomates livres de veneno. “Temos pessoas protegidas contra contaminação, utilizando o que a natureza oferece de forma equilibrada e construindo conhecimento. Partimos do princípio do respeito à cultura local, para depois introduzir novas técnicas”, resume Zenaido Fonseca.

Hoje, além do tomate, são produzidos jiló, quiabo, vagem, cenoura e beterraba. Com o passar do tempo, foram sendo incorporadas outras ações. Os próprios lavradores construíram o Centro de Coleta de Lixo Rural, em que o material descartado é separado para reciclagem. A Associação de Recicladores busca os resíduos e a unidade custou R$400. Esse pequeno investimento é suficiente para retirar do ambiente 15 toneladas de lixo por mês. Outra ideia colocada em prática foram as “hortas urbanas integradas”, instaladas em 2011 no estacionamento da Santa Casa de Arcos, com seis pneus considerados inutilizáveis. Hoje eles produzem hortaliças e plantas medicinais. Na construção, foi empregada mão de obra de pessoas ligadas à Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac).

Todas as ações da Guaxinim seguem os princípios da “agroecopedagogia”, termo criado pelo próprio Zenaido. “A proposta é realizar uma educação prática, converter o comportamento indesejável em atos sustentáveis e rotineiros. Imprimir no DNA humano o hábito ecológico. A Rio+20 é uma arena com a difícil missão de trabalhar a melhor combinação possível entre o socialmente justo, o economicamente viável e o ambientalmente correto. Aqui já mostramos que com pouco dinheiro e pequenos gestos é possível realizar grandes ações, basta que haja lideranças capazes de mobilizar pessoas e também a atenção do poder público e privado para aplicar recursos na hora certa em projetos sérios”, resume Zenaido.

Minas é sexto maior consumidor de agrotóxicos no país


Cinco estados brasileiros devem concentrar em 2012 pelo menos 63,3% de todas as riquezas produzidas pela atividade agrícola do país. Conforme o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), juntos, São Paulo, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná e Goiás devem faturar neste ano R$ 133,9 bilhões com o exercício agrícola, detendo os maiores Valores Brutos da Produção (VBP). A lista praticamente coincide com os maiores consumidores de agrotóxicos, sendo que Minas Gerais ocupa o sexto lugar, atrás de Mato Grosso, São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Goiás.

Um dossiê que a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) vai apresentar na Rio+20 aponta que um terço dos alimentos consumidos no Brasil está contaminado por agrotóxicos. O país ocupa, desde 2009, o primeiro lugar no ranking mundial de consumo desses produtos, quando ultrapassou os Estados Unidos. Em Minas, de acordo com o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), a situação é um pouco melhor. Entre 2009 e 2011, foram analisadas 820 amostras de resíduos agrotóxicos em alimentos. Desse total, 719 (88%) apresentaram resultados satisfatórios, enquanto 101 (12%) foram consideradas impróprias. Minas ocupa ainda o sexto lugar no ranking de recolhimento de embalagens de agrotóxicos vazias. Os agricultores mineiros devolveram 2.733 toneladas de embalagens aos postos de recolhimento em 2011.

Existem hoje 1.301 marcas de agrotóxicos registradas no estado, das quais 387 são consideradas de classe 1 (extremamente tóxicas), ou seja, oferecem mais riscos ao aplicador. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem cerca de 415 mil propriedades rurais em Minas Gerais, entre as quais 85 mil são potenciais usuárias de agrotóxicos. O IMA fiscalizou, em 2011, 5470 propriedades, e expediu 82 autos de infração (1,6%). Em 2009, 387 propriedades foram verificadas, gerando 106 autos (0,6%). No caso do comércio de agrotóxicos, em 2009 foram fiscalizados 2.245 estabelecimentos, com 210 autos de infração (9,3%) e em 2011 foram visitados 3738 lojas, com apenas 19 infrações (0,5%).



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