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Estado de Minas GERENCIAMENTO DE LIXO

Garrafa pet que poluía rios é usada na construção de casas

Com custo menor que a construção de alvenaria comum, modelo já foi exportado para o Maranhão


postado em 30/05/2012 15:59 / atualizado em 01/06/2012 13:35

Preço do metro quadrado de casa feita com garrafas pet é 67% menor do que alvenaria comum(foto: Rômulo Amorim/Divulgação)
Preço do metro quadrado de casa feita com garrafas pet é 67% menor do que alvenaria comum (foto: Rômulo Amorim/Divulgação)
De acordo com o relatório da ONU para a economia verde, a reciclagem, em todas as suas formas, emprega 12 milhões de pessoas somente em três países (Brasil, China e Estados Unidos). Entretanto, o Brasil gerou, em 2011, 61,9 milhões de toneladas de resíduos sólidos, 1,8% a mais do que no ano anterior. O mais grave é que, do total coletado, 42% do lixo são jogados em local inadequado, segundo o Ministério do Meio Ambiente, sendo que 10% de tudo que é gerado acaba em terrenos baldios, córregos, lagos e praças.

A situação não era diferente em Tarumirim, município de sete mil habitantes do Vale do Rio Doce. Era comum ver lixo, principalmente garrafas pet, jogado em lotes vagos e na beira de córregos. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente começou, em fevereiro de 2010, a mobilizar a comunidade na coleta desse material.


Pesquisando alternativas de uso para os resíduos, o secretário Rômulo Perentoni Amorim assistiu a uma palestra sobre a construção de casas com garrafas pet e vislumbrou uma solução que combinava destinação correta, reciclagem e educação ambiental. Em junho de 2011, a primeira casa foi concluída e hoje é sede da Secretaria. Amorim explica que o custo do metro quadrado na construção de alvenaria tradicional é de R$450, em média. A casa construída em Tarumirim, que leva também madeira e uma mistura de terra, areia e cimento, teve custo de R$150/m², com possibilidade de ficar ainda mais barata, trazendo uma oportunidade socioeconômica, além de ambiental. "A construção apresenta bom isolamento térmico e durabilidade equivalente à de uma casa tradicional", explica Amorim.

A curiosidade entre os moradores da região foi tanta que a casa fica aberta todos os dias, das 8h às 16h, recebendo visitas guiadas de escolas. A unidade modelo já trouxe como resultados o envolvimento da população nas questões de saneamento básico e meio ambiente. Prova disso é que as margens e os cursos d'água do município têm se mantido limpos e os próprios moradores começaram a construir muros e cercas com as garrafas. "Desde a construção, não foi necessário fazer limpeza de lixo nos córregos da cidade e houve expressiva diminuição dos casos de dengue", comemora Amorim.

Visitas guiadas de escolas auxiliam atividades de educação ambiental (foto: Rômulo Amorim/Divulgação)
Visitas guiadas de escolas auxiliam atividades de educação ambiental (foto: Rômulo Amorim/Divulgação)
O projeto auxiliou estrategicamente também a operação da usina de triagem e compostagem do município. As próximas unidades construídas serão utilizadas como habitação para famílias de baixa renda. "Hoje, já há um sistema de coleta seletiva em estruturação para toda a cidade e atribuímos tudo isso à repercussão da casa", relata o secretário. O exemplo de Tarumirim está sendo transportado para o nordeste brasileiro, onde um projeto semelhante já está em construção, no município de Zé Doca, no oeste do Maranhão, em parceria com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do estado.

Reciclagem de PET no Brasil

Rômulo defende que o gerenciamento correto de lixo deve começar no consumo: evitar sacolas plásticas comuns, dar preferência a produtos que utilizam embalagens recicladas e de empresas que financiem projetos socioambientais. "Mas ainda há alguns entraves, como a tributação sobre os produtos reciclados, a exemplo do papel sulfite, que é em média 30% mais caro que o papel virgem. Sem resolver os passivos ambientais em saneamento, o Brasil sempre terá dificuldade em debater a questão de forma global", defende o idealizador da casa de garrafa pet de Tarumirim.

Segundo a Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet), cerca de um terço do faturamento do setor vem da reciclagem. A associação reúne 500 empresas em todo o Brasil, que geram um faturamento de R$ 1,18 bilhão. O país é líder na atividade, à frente de Estados Unidos e União Europeia e o pet reciclado é utilizado principalmente na indústria têxtil, na produção de embalagens e resinas, além de fitas, tubos, laminados e chapas. Mas, enquanto são consumidas cerca de 565 mil toneladas de PET no Brasil por ano, são recolhidas para reciclagem 282 mil toneladas. Segundo último censo realizado pela associação, em 2011, metade do material consumido é, portanto, candidato ao descarte inadequado. "Se continuarmos nessa curva ascendente de crescimento ano após ano, sem adotar ações adequadas para conter a geração de lixo, nossos sistemas de gestão de resíduos entrarão em colapso", avalia o diretor de Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente, Silvano Silvério da Costa.

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