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Estado de Minas NO VERMELHO

Endividamento das famílias de BH fecha 2021 com novo recorde

O número de consumidores endividados na capital aumentou em dezembro, atingindo 88,9% da população


20/01/2022 18:18 - atualizado 20/01/2022 19:28

Fachada da agência do Serasa, em BH
O número de consumidores belo-horizontinos endividados aumentou em dezembro, atingindo 88,9% da população (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
O endividamento das famílias de Belo Horizonte fechou 2021 com novo recorde. De acordo com a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Minas Gerais (Fecomércio MG), o número de consumidores belo-horizontinos endividados aumentou em dezembro, atingindo 88,9% da população. O percentual é o maior registrado pela série histórica, iniciada em 2014.

 

 


Os dados fazem parte da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), elaborada pela Fecomércio MG, com dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). 

Foram entrevistados consumidores em potencial moradores da capital mineira. A margem de erro da pesquisa é de 3,5% e o nível de confiança é de 95%.

A análise também mostrou que a inadimplência não acompanhou essa expansão do endividamento, e encerrou 2021 em estabilidade.

O número de consumidores que não terão condições de pagar suas dívidas foi de 15,5%, inferior ao apurado em novembro. Acompanhando a estabilidade, os consumidores inadimplentes apresentaram uma queda em relação ao mês anterior, assumindo o valor de 39%.

Segundo a economista da Fecomércio MG, Gabriela Martins, esse aumento do endividamento das famílias já era esperado, diante da situação socioeconômica enfrentada no país. 

"Acrescido ao aumento do endividamento, acompanhamos um índice de inadimplência muito elevado em Belo Horizonte que, apesar da leve queda entre os meses de novembro e dezembro, ainda se encontra entre um dos maiores patamares da série histórica observada a partir de 2014", destaca.

Cartão de crédito segue liderando


A pesquisa apontou, ainda, que a principal modalidade de endividamento continua sendo o cartão de crédito. Em dezembro, 79,6% utilizaram essa modalidade para compras, seguido pelo uso dos carnês (25,9%), cheque especial (8,7%), financiamento de carro (8,1%), crédito pessoal (7,6%) e financiamento de casas (6,1%).

Gabriela explica que um dos principais motivos para o uso do cartão de crédito é o aumento da inflação, que afeta a compra de bens essenciais como alimentos, combustíveis e energia. "Dessa forma, as famílias procuram cada vez mais o crédito para seu consumo básico."

A auxiliar de serviços gerais, Maria Jesus de Souza, de 49 anos, moradora de Sabará, é um exemplo. Ela tem dívidas no cartão de crédito. Apesar de não revelar o valor da dívida, Maria conta que já chegou a pagar R$ 2 mil. 

"O dinheiro que recebi do meu 13° foi tudo (para pagar a dívida). Fiquei zerada, mas ainda tenho que pagar uma que acho que não é alta. Ainda não olhei quanto está." 

Segundo ela, as dívidas surgiram devido a pandemia. A auxiliar de serviços gerais tinha uma renda extra por trabalhar também em outro emprego, mas o local acabou fechando.  

"Eu trabalhava e recebia um extra por fora. Mas, ele foi cortado e não recebo mais. Agora recebo um salário, pago aluguel, outras contas e não sobra nada. Agora tive que ir para a casa da minha mãe e acabei passando no cartão de crédito de novo. Não teve jeito. Então, no mês que vem vai vir de novo, só vai acumulando." 

Maria conta que não é a primeira vez que enfrenta dificuldades para pagar as contas. "Já tive uma dívida de R$ 8 mil no cartão de crédito também. Os juros foram subindo. Fiz uma dívida de R$ 500, quando fui pagar eles me disseram que já estava em R$ 8 mil."

Foi preciso fazer um acordo para ela conseguir quitar o valor. 

"A gente espera ajuda do governo, mas não vem. Tem coisas que não estou pagando, estou deixando para eu não passar fome. E o negócio vai acumulando."

Maria mora sozinha, mas ajuda nas despesas da casa da mãe. "Só a aposentadoria dela não dá. Lá tem umas seis pessoas, tenho um irmão na cadeira de rodas. A gente vai empurrando com a barriga', desabafa. 
 
A auxiliar de serviços gerais, Maria Jesus de Souza, de 49 anos
A auxiliar de serviços gerais, Maria Jesus de Souza, tem dívidas no cartão de crédito (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
 

A aposentada Silvana Souza, de 62 anos, diz que está endividada como "qualquer brasileiro". 

"Mas acho que estou pior. Eu pedi a portabilidade de pagamento no Banco Santander, só que a prefeitura fez convênio com o Bradesco e não me deixa ficar em um banco só. O conveniado está cobrando tarifa bancária muito acima do normal e quando meu pagamento chega, eles são os primeiros que pegam meu salário e o que resta eles mandam para o banco da portabilidade." 

Ela conta que se endividou após pegar crédito pessoal e usar o cartão de crédito. A aposentada também reclama que a situação piorou com a pandemia. 

"Eu não posso arrumar outra coisa pra fazer. Vendia Minascap, mas fui obrigada a parar porque o meu filho implicou com a empresa, rasgou minhas cartelas, meu uniforme. Agora eu fico só aguardando o pagamento chegar". Atualmente, ela recebe apenas a aposentadoria. 

"Para comprar as coisas agora, só com cartão de crédito. Água, luz, eu estou dando conta de pagar. Mas cortamos a carne, que é o mais caro, e estamos comendo ovo e soja. De vez em quando, compro um quilo de frango quando o pagamento cai. Fora isso, só legumes mesmo."
 
Silvana mora com uma tia, também aposentada, e um filho de 29 anos, que está desempregado. Segundo ela, o filho é outro que está endividado. "Ele pediu um empréstimo e não pagou." 

Para tentar quitar as dívidas, a aposentada diz que só com um milagre. "Eu tenho jogado bastante na Mega-Sena, compro Telesena também. Eu espero só um milagre, porque tenho mais de 60 anos e não consigo emprego em lugar nenhum, já mandei currículo para vários lugares e não consegui nada."
 
A aposentada Silvana Souza, de 62 anos
A aposentada Silvana Souza, tem com crédito pessoal e cartão de crédito (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
 

Brasileiros endividados


O nível de endividamento médio das famílias brasileiras em 2021 foi o maior em 11 anos, segundo a mesma pesquisa, divulgada na terça-feira (18/1) pela CNC.

De acordo com o levantamento, o último ano apresentou recorde do total de endividados, registrando uma média de 70,9% das famílias brasileiras, enquanto dezembro alcançou o patamar máximo histórico com 76,3% do total de famílias. Segundo a CNC, as famílias recorreram mais ao crédito para sustentar o consumo.
 
Ao contrário dos indicadores de endividamento, no último ano, os números de inadimplência apresentaram queda. De acordo com a pesquisa, o percentual médio de famílias com contas e/ou dívidas em atraso diminuiu na comparação com 2020, chegando a 25,2%.

Após começar 2021 em patamar superior em relação ao fim do ano anterior, o percentual mensal de inadimplência teve redução até maio, mas passou a apresentar tendência de alta desde então, alcançando 26,2% em dezembro e ficando acima da média anual.

(Com informações da Agência Brasil)
 
*Estagiária sob supervisão do subeditor João Renato Faria


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