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Estado de Minas Pequi S/A

Presa à 'economia invisível', riqueza gerada pelo pequizeiro é subestimada

Sem boa parte de registros na comercialização do fruto do cerrado e seus derivados, municípios deixam de explorar potencial da atividade


12/09/2021 04:00 - atualizado 12/09/2021 11:11

Com abrangência sobre 1,2 mil famílias no Norte de Minas, Cooperativa Grande Sertão busca maior aproveitamento do fruto
Com abrangência sobre 1,2 mil famílias no Norte de Minas, Cooperativa Grande Sertão busca maior aproveitamento do fruto (foto: Vanderlândia Rodrigues/Divulgação)
A renda gerada pelo pequi poderia ser melhor aproveitada, não fosse a comercialização de grande parte do produto do extrativismo do cerrado ocorrer no mercado informal. Com isso, os ganhos das comunidades que vivem da coleta do fruto e de seus derivados ficam restritos à chamada “economia invisível”, o que impõe perdas para os municípios produtores e o potencial dessa atividade.

 

A informalidade na cadeia produtiva do pequi foi objeto de estudo da bióloga Sarah Alves de Melo Teixeira. Ao concluir o doutorado em ecologia, conservação e manejo da vida silvestre na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ela elaborou a tese “Ecologia política e econômica do extrativismo do pequi (Caryocar brasiliense): bases para seu manejo sustentável em Minas Gerais”. Ao analisar dados da economia associada à ecologia, a pesquisadora concluiu que os registros dos Produtos Florestais Não Madeireiros (PFNM) relativos ao pequi não refletem a realidade, o que significa prejuízo à valorização do fruto e ao próprio cerrado.

 

A produção submestimada, de acordo com Sarah Teixeira, é um dos principais motivos que tornam invisível a economia dessas cadeias produtivas, principalmente para os gestores e quem toma as decisões que interferem nesses mercados. “Essa invisibilidade econômica é um dos motivos pelos quais o cerrado se tornou o bioma mais desmatado do Brasil, apesar de ser uma das regiões de maior sociobiodiversidade do mundo e o berço dos maiores rios do Brasil, por isso o cerrado é chamado de caixa d’água do Brasil”, explica.

 

Segundo maior bioma do Brasil, o cerrado perdeu 26,5 milhões de hectares, equivalentes a 19,8% de sua área nativa, entre 1985 e 2020. A extensão degradada é superior à do estado do Piauí, de acordo com levantamento feito pelo MapBiomas, projeto de mapeamento anual do uso e cobertura da terra no país, que reúne especialistas em rede colaborativa. 

 

O país tem uma grande e infeliz carência da dados sobre toda a cadeia dos frutos nativos do cerrado. Segundo Sarah Teixeira, sabe-se que Minas lidera a produção de pequi, atributo que já daria vantagem ao estado na guerra travada com Goiás e Tocantins pelos feitos da árvore. O pequi da espécie Caryocar brasiliense ocorre em toda a região do cerrado no Brasil. A pesquisa         “Produção da extração vegetal e da silvicultura”, do Instituto Brasileira de Geografia e Estatística (IBGE), aponta que, desde 2013, Minas detém essa liderança. Em 2019, dos municípios que produziam e comercializavam o pequi, o estado detinha 115.

 

“Somente em minha pesquisa identifiquei mais de 175 municípios de Minas que apresentam a cultura do extrativismo e da comercialização do pequi. E reconheço que esses dados ainda estão subestimados”, pontua a pesquisadora. Informações do escritório de Montes Claros, no Norte do estado, da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG) indicam grande influência da economia baseada no fruto para as comunidades de região historicamente castigada pela seca. A safra do pequi 2020/2021 está estimada em 90 mil toneladas, envolvendo 12 mil famílias, informa Sarah Teixeira.

 

A doutora em ecologia lembra, ainda, que a cidade de Japonvar, visitada pelo Estado de Minas, é exemplo da força do pequi em Minas. “Em Japonvar, a última safra do pequi movimentou cerca de R$ 6 milhões na economia local, números muito expressivos para um município de apenas 8 mil habitantes”, avalia. Contudo, Sarah Teixeira lembra que praticamente nenhum município faz o registro da produção e comercialização do pequi, o que pode levar a grande perda tendo em vista que muitos caminhões saem das cidades carregados com o fruto e as respectivas prefeituras nem sequer sabem a quantidade extraída.

 

“Praticamente, nenhuma nota fiscal é emitida. No âmbito dos municípios, os prefeitos precisam se planejar para uma melhor organização das safras do pequi e de outros frutos nativos também”, defende. Outra recomendação é para que os gestores municipais atuem no sentido de que os catadores de pequi e outros agroextrativistas tenham acesso à Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPMB-BIO), da União, e emitam nota fiscal, sendo incluídos no cadastro da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). 

 

Ainda no âmbito federal, a pesquisadora defende que o governo crie e fortaleça políticas públicas voltadas para a estruturação das cadeias produtivas, elevando a renda das comunidades por meio de ações como as do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Na esfera estadual, devem ser incrementadas medidas previstas no Programa Pró-Pequi e o Fundo Pró-Pequi, e o desenvolvimento sustentável das cadeias produtivas dos frutos do cerrado.

 

Processamento Cerca de 90% dos comerciantes de pequi são agricultores familiares. Além de constituir prática cultural, muitas vezes a atividade equilibra a renda das famílias que dela dependem, principalmente no Norte de Minas, onde a seca tem causado grande perda à colheita. De acordo com a pesquisadora Sarah Teixeira, o apoio de instituições de pesquisa ao processamento do pequi contribuiu para elevar a renda das comunidades e estruturar a cadeia produtiva do fruto símbolo do cerrado.

 

“Além da polpa em conserva ou congelada, do óleo e licor, que já são tradicionalmente produzidos pelas comunidades, outros derivados também estão ganhando mercado, como, por exemplo, pastas, cremes, molhos, sorvetes e castanha. Agora, temos o azeite do pequi, que é extraído de um processo prensado a frio que garante maior qualidade e sabor ao produto e também tem se destacado como nutracêutico (espécie de suplemento alimentar) para atletas”, afirma a pesquisadora.

Terapêutico

Processamento pelas comunidades extrativistas depende de assistência técnica e assessoria na comercialização
Processamento pelas comunidades extrativistas depende de assistência técnica e assessoria na comercialização (foto: Luiz Ribeiro/EM/D.A Press)
Estudos têm indicado propriedades do pequi, como o uso do óleo extraído da espécie no tratamento e na prevenção de doenças. A casca do fruto pode ser usada na forma de pesticida natural, ração animal, adubo e até como fonte de fibra e proteína para enriquecimento de farinhas. “Todos esses processos só foram criados por causa da parceria existente entre as instituições de pesquisa e ensino e as comunidades, e ainda há muitos outros processos que precisam ser desenvolvidos, por isso a importância da manutenção do cerrado em pé. Temos uma farmácia viva em grande potencial que está sendo rapidamente destruída”, alerta Sarah Teixeira.

ENGRENAGEM
175

 

É o número de municípios produtores no estado

90 mil 

toneladas

Safra estimada em 2021

12 mil

Universo de famílias envolvidas na coleta do fruto e produção de derivados

 

 

Oferta de derivados em mercado de Montes Claros mostra inovação, com óleo, licor, pastas, cremes, molhos e castanha, entre outros itens
Oferta de derivados em mercado de Montes Claros mostra inovação, com óleo, licor, pastas, cremes, molhos e castanha, entre outros itens (foto: Luiz Ribeiro/EM/D.A Press - 27/7/21)

Da safra nada se perde

 

As associações comunitárias de localidades que trabalham com o extrativismo do pequi no Norte de Minas decidiram se reunir para buscar mais eficiência no aproveitamento e comercialização do pequi. Foi criado o Núcleo do Pequi, uma rede formada por 18 associações e co-   operativas agroextrativistas,  que contam com instituições de apoio. A iniciativa visa à gestão da cadeia produtiva do pequi e de outros frutos do cerrado, focada no estímulo à comercialização, articulação e proposição de políticas públicas, de modo a contribuir para o desenvolvimento sustentável em sua área de atuação.

 

A rede foi constituída por meio do Plano Nacional da Sociobiodiversidade, do governo federal, que promoveu a oficina de planejamento participativo da cadeia produtiva do pequi no Norte de Minas Gerais. Uma das entidades integrantes do Núcleo do Pequi é a Cooperativa Grande Sertão, sediada em Montes Claros, que conta com 270 cooperados e envolve cerca de 1.200 famílias de pequenos agricultores da região. Neste ano, a cooperativa beneficiou cerca de 157 toneladas de pequi, produzindo e comercializando óleo e pequi congelados e polpa do fruto congelada e embalada a vácuo.

 

O presidente da Grande Sertão, Wagner Pereira Santos, destaca que a entidade atua na organização da cadeia produtiva do pequi na região. “Contribuimos diretamente com a assessoria técnica das famílias extrativistas visando às melhores práticas e manejo sustentável para a produção dos derivados do pequi. Temos como foco a geração de oportunidade de trabalho e renda para essas famílias envolvidas com a venda dos produtos para os diferentes canais de comercialização acessados pela cooperativa”, afirma Santos. Entre as principais áreas de atuação da cooperativa está o esforço de garantir o aproveitamento de maior volume de frutos na época da safra e a realização dos processos de beneficiamento, estocagem e comercialização fora do período da temporada. (LR)

Reconhecimento

Minas é o único estado que tem uma lei de incentivo à cadeia produtiva do pequi e outros frutos do cerrado (Lei 13.965, de 27 de julho de 2001), que cria o programa mineiro de incentivo ao cultivo, à extração, ao consumo, à comercialização e à transformação do pequi e demais frutos e produtos nativos do cerrado,  o Pró-Pequi. 


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