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Estado de Minas ENTREVISTA/TALLIS GOMES

"Investidores-anjo vão ganhar espaço", diz fundador da Easy Taxi

Criador do Easy Taxi revela que vai expandir aplicativo de beleza para BH e Brasília


postado em 19/11/2018 09:42

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)

São Paulo – O empreendedor Tallis Gomes, fundador do Easy Taxi, foi responsável por internacionalizar o aplicativo, hoje com operações em mais de 30 países, e deixou o negócio depois de ter recebido oferta milionária pelo negócio. Nos últimos anos, ele tem se dedicado a outro projeto, a Singu, apontada como maior marketplace de beleza da América Latina, e que tem cerca de 200 mil usuários.

O aplicativo elimina a figura do atravessador – no caso, o salão de beleza – entre profissionais como manicures, e as clientes. Com cerca de 2 mil profissionais cadastrados, o app retém 35% do valor pago e repassa os outros 65%. Para Tallis Gomes, o ponto de partida para que um empreendimento seja viável é encontrar solução para a “dor” de alguém, para um problema que precisa ser resolvido. Mas ele aconselha: nada de ideias fáceis, porque elas são facilmente copiáveis.

Apesar de serem muitas as necessidades a atender por boas ideias, Gomes lembra que ainda há muito entraves para quem quer empreender no Brasil. Um deles é a dificuldade de acesso ao capital, já que poucos preferem abrir mão do retorno garantido da taxa de juros paga no Brasil para investir em uma startup, por exemplo.

"Inovação vem do caos, de tentativa e erro, você não planeja. Primeiro tem de pensar em um problema, uma dor grande que precisa ser resolvida"



“O ambiente de negócios do Brasil está muito longe de se parecer com o de primeiro mundo”, lamenta Gomes.  Contudo, o fundador da Easy Taxi acredita que o ambiente de negócios vai melhorar, com o novo governo, e encorajar mais investidores. Por outro lado, ele alerta para a necessidade de os empreendedores adotarem cada vez mais inovação em seus negócios.

Fundador do Easy Taxi, maior aplicativo de táxi do mundo, o mineiro Tallis Gomes surgiu na lista da revista americana Forbes, que, em sua edição Forbes 30 under 30, destaca os empreendedores com menos de 30 anos que revolucionaram os negócios. Ele foi eleito em 2017 pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) o jovem empreendedor mais inovador mundo e eleito ‘Líder Jovem do Ano’, em 2016, pela Latin Trade Foundation, em Miami. É CEO e fundador da Singu, maior aplicativo de serviços de beleza e bem-estar do Brasil, e autor do livro “Nada Easy”.

O ambiente de negócios para startups no Brasil tem as mesmas facilidades de outros mercados, como o americano e o português?
O ambiente de negócios do Brasil está muito longe de se parecer com os de primeiro mundo. O custo de capital é muito alto, o que é um problema, porque o capital de risco está ligado ao custo de capital. Mas quanto menor a taxa de juros, maior a chance dessa realidade mudar. Hoje, é muito mais fácil ganhar dinheiro no mercado financeiro do que investir em startup. Mas com a chegada de mais capital externo, e a taxa básica de juro caindo, haverá uma melhora.

O dinheiro é o único problema?

Não, também falta educação como um todo. Só 20% dos que entram na faculdade se formam. O empreendedorismo é atividade de muito risco e há chance grande de dar errado, por isso incentivo que as pessoas terminem a faculdade. Além disso, não há uma cultura de ajuda no ecossistema brasileiro. Aqueles que tiveram sucesso não repassam sua experiência e não investem tempo para ajudar a nova geração. Por essas razões todas, o ecossistema brasileiro está pelo menos 20 anos atrasado em relação ao americano.

"Hoje, é muito mais fácil ganhar dinheiro no mercado financeiro do que investir em startup"



O que falta para tornar o ecossistema brasileiro mais relevante?

Acredito que a tendência seja de melhora. O ambiente vai melhorar à medida que a confiança no Brasil crescer. Só de o país ter se livrado de outro mandato do PT já traz mais confiança. Essa é a percepção que vemos no mercado financeiro. Há mais fluxo de entrada de capital no Brasil e as pessoas estão buscando mais opções em renda variável. Esse comportamento vai bater na startup quando o investidor buscar mais risco. Acredito que a figura dos investidores-anjo (aqueles que investem capital próprio em empresas nascentes e com alto potencial de crescimento, como as startups) também deve ganhar espaço.

Isso vai depender de ações do novo governo?
Precisamos ver o que o governo Bolsonaro vai conseguir executar do que prometeu, como a Reforma da Previdência e a Reforma Fiscal, além de deixar a Reforma Trabalhista mais redonda. Se isso ocorrer, vai melhorar o ambiente de negócio, o custo do dinheiro cairá e os investimentos vão aumentar.

O que espera do novo governo? Haverá maior grau de fomento do empreendedorismo?
Acredito que o novo governo vai participar porque estou sendo consultado para falar sobre o setor, mas minha opinião é de que não deve participar. Seu papel deve ser no afrouxamento fiscal. Isso fará com que sobre mais dinheiro para as empresas, que vão investir mais para valorizar o seu capital. Espero que o novo governo aprove as reformas e refaça as nossas relações com as economias que realmente importam. Os parceiros estratégicos do Brasil devem ser aqueles que importam para a economia global. Vou destacar uma frase que o Bolsonaro disse quando foi eleito: ‘A gente precisa de mais Brasil e menos Brasília.’ Quero ver se é só retórica ou se vai ser aplicada na prática.

A falta da cultura do investimento em inovação é um dos entraves para a expansão de startups no Brasil?
Sim. Nos Estados Unidos, as empresas com maior valor de mercado hoje são Apple, Google, Amazon, e Microsoft, todas ligadas à inovação. Todas têm uma gestão horizontalizada, com as decisões sendo delegadas à equipe. Nesse ambiente, o que se vê também são muitas operações de compra e venda de empresas, especialmente de startups. Elas são compradas não porque geram caixa, mas porque possibilitam que seja adquirida uma cultura específica, uma equipe com determinado conhecimento ou alguma tecnologia. É o caso do Instagram, que foi comprado pelo Facebook em 2012, por US$ 1 bilhão, e hoje vale 100 vezes mais. Mark Zuckerberg (criador do Facebook)foi muito criticado na época, mas aquela era a tecnologia necessária para destruir um competidor que ameaçava sua companhia. Não sabemos fazer isso no Brasil.

Por quê?
Quando a Easy foi lançada, as seguradoras começaram a investir e copiar nosso modelo, mas não deu certo. A inovação não funciona com cópia, é uma mudança cultural. Inovação vem do caos, de tentativa e erro, você não planeja. Primeiro tem de pensar em um problema, uma dor grande que precisa ser resolvida. Normalmente, a tecnologia serve para oferecer uma solução pela qual as pessoas queiram pagar. Mas se for fácil de executar, qualquer um pega a sua ideia e faz.

Nos empreendimentos Easy e Singu, foram desenvolvidas tecnologias que aumentam o contato entre cliente e fornecedor. Foi coincidência ou uma necessidade identificada?
Comecei a empreender com 14 anos e até hoje tive cinco empresas. Tive a oportunidade de trabalhar em diversos setores, como tecnologia e venda direta, e, com isso, aprendi um pouco sobre intermediação de negócios. No caso da Easy, foi coincidência. Mas com a Singu, isso foi planejado. Pesquisei e vi que o mercado de beleza não tinha novidades há décadas. Os salões de beleza funcionam como um aluguel de cadeira que fica com até 70% do ganho. Então, por que não levar um salão de beleza para a casa das pessoas, com um algoritmo inteligente que traça roteiros, agendas e permite repassar 65% para a profissional?

Como foi o desenvolvimento da Singu?

Quando vi esse problema da remuneração, comecei a testar a solução. Hoje, o aplicativo para encontrar profissionais de beleza é muito mais um banco plugado à plataforma. Como concentro os pagamentos dos serviços e sei qual é o volume médio de serviço gerado por profissional, comecei a fazer operações como antecipação de recebíveis e crédito.

Quais são os planos de expansão da Singu, que hoje está em São Paulo e no Rio de Janeiro?

No ano que vem vou expandir para as principais capitais brasileiras. Belo Horizonte e Brasília estão nos planos.

Quais são os setores mais promissores e quais já ficaram para trás quando falamos de startups?
As fintechs (startups da área financeira) são extremamente promissoras, assim como o setor de mobilidade. Refiro-me a serviços, como o aluguel de patinete e bicicleta, que vão ser quentes em 2019. O serviço de beleza também está crescendo e deve avançar muito no ano que vem. Diria que ficaram para trás os aplicativos de transporte, de aluguel de casa, de compra coletiva e trader de bitcoin.

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