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Estado de Minas

Crise da alta dos combustíveis pode ter consequências graves para a economia

Alta do petróleo e do dólar pode provocar efeitos negativos em diversas atividades econômicas, levar a aumento de preços e atrasar a esperada retomada do crescimento, avaliam especialistas


postado em 01/06/2018 06:00 / atualizado em 01/06/2018 14:16

Unidades da Petrobras respondem por 95% da produção de gasolina no país(foto: Jair Amaral/EM)
Unidades da Petrobras respondem por 95% da produção de gasolina no país (foto: Jair Amaral/EM)

São Paulo – Depois da paralisação dos caminhoneiros, a crise gerada em torno dos preços dos combustíveis pode ter efeitos negativos em diversos setores da economia, uma vez que o petróleo alimenta, em maior ou menor proporção, praticamente toda a produção de bens e serviços no país.

A oferta dos derivados pode influenciar desde o custo da lavoura de tomates, por exemplo, que têm de ser transportados da horta até os centros de consumo, à  toda a cadeia da fabricação do plástico, matéria-prima dependente do insumo para a sua produção.

 

Com a atual política da Petrobras, adotada na gestão de Pedro Parente, de calibrar os preços dos combustíveis de acordo com a variação das cotações do barril de petróleo, sempre haverá a ameaça de uma nova onda de aumentos no valor cobrado nas refinarias e nos postos.

Por isso, fala-se agora na possibilidade de usar a variação dos tributos sobre os combustíveis, como PIS, Cofins e Cide, para compensar a disparada do preço. Se ele subir, caem os impostos.

 

Qualquer problema relacionado à alta dos combustíveis que surja a partir de agora terá de conviver com um outro complicador externo, segundo o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sérgio Vale. Trata-se da reação do Palácio do Planalto à greve dos últimos dias.

“O governo foi extremamente fraco, por isso vai ser difícil colocar racionalidade na discussão sobre uma política de preço dos combustíveis. Abriu-se a caixa de pandora e isso pode gerar consequências graves daqui para frente, com outros setores fazendo as mesmas reivindicações”, avalia.

 

Por outro lado, afirma Sérgio Vale, a partir de agora tanto os preços do barril de petróleo quanto a valorização da moeda americana podem se acomodar, o que minimizaria o risco nova onda de avanço dos combustíveis. O economista acredita que a cotação do dólar já tenha chegado no teto.

 

Em relação às cotações do petróleo, Vale lembra que, recentemente, a Arábia Saudita e a Rússia anunciaram que podem elevar a oferta, o que teria força para baixar o preço da matéria-prima.

“Se o acordo entre os dois países for cumprido, deve haver descompressão no preço. De toda forma, será preciso discutir como suavizar esses repasses da alta de preço para o consumidor”, diz o economista-chefe da MB.

 

Outra forma de acelerar a descompressão sobre os preços dos combustíveis seria o aumento da concorrência no setor de refino de petróleo, dominado pela Petrobras, com 13 das 17 refinarias instaladas no país. Esse predomínio dá à gigante brasileira 95% da produção de gasolina do país.

“A venda de quatro parques da Petrobras vai melhorar a disputa comercial no setor de petróleo”, afirma João Luiz Zuñeda, sócio da consultoria Maxiquim. “A solução está em dar maior competitividade no setor de petróleo por meio desse desinvestimento da Petrobras”.

Pouca margem Além disso, Zuñeda lembra que também há poucos competidores atuando na produção de derivados de petróleo. Com a falta de opção para comprar as matérias-primas, a indústria tem pouca margem na hora de negociar preço.

O setor químico é um dos mais impactados pelas variações do preço do barril de petróleo e do dólar, como lembra Fátima Giovanna Coviello Ferreira, diretor de economia e estatísticas da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim).

Com a alta dos últimos meses, o aumento de custos já é fato; só não é possível afirmar quando ele começará a ser repassado para os preços, de acordo com a executiva.

 

“O momento é delicado por causa da combinação de alta do petróleo e do câmbio, mas infelizmente não há muita opção”, diz Giovanna Ferreira.

“As duas variáveis que afetam o setor estão ocorrendo de forma simultânea. Por outro lado, temos hoje uma capacidade ociosa na indústria de 26%. Essas incertezas se aproximam cada vez mais da economia real e não sabemos qual será a reação depois da greve dos caminhoneiros”, diz.

 

Além da indústria química, os setores petroquímico e farmacêutico e o agronegócio também são afetados pela combinação explosiva da valorização do petróleo e do dólar. Por isso, observa Zuñeda, com a recomposição dos preços é de se esperar que haja um reflexo na inflação. “A diferença é que agora a inflação está bem mais baixa, então o impacto será menor do que o visto em outros períodos”, acredita o sócio da Maxiquim.

Inflação


Apesar de a pressão sobre a inflação ser menos ameaçadora agora, não se deve desprezar o fato de o petróleo estar presente em quase toda a cadeia produtiva – desde os fertilizantes até as embalagens plásticas dos produtos de limpeza e dos cosméticos.

“Algum repasse de aumento de custos terá de ocorrer”, avisa José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast).“Claro que o ambiente não permite que seja feito (o repasse ao consumidor) de uma vez só, mas ele virá.”

 

Para Roriz, o ideal para amenizar os impactos dessas variações de custo seria ter a média móvel de preço que permitisse administrar os mecanismos de aumento. “Não defendo o congelamento do preço dos combustíveis”, diz o executivo.

“Sabemos pela experiência do passado que esse tipo de interferência não funciona. Mas o fato é que hoje temos uma desorganização em várias cadeias produtivas num ambiente de monopólio no refino de petróleo. Isso fica ainda mais grave quando as empresas estão vulneráveis pela crise econômica”, afirma.

 

Segundo o presidente da Abiplast, o aumento da concorrência certamente teria minimizado os impactos tanto da alta do petróleo quanto da greve dos caminhoneiros. Para o agronegócio, explica Renato Conchon, coordenador do núcleo econômico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a desvalorização do real e o aumento do preço do petróleo nos últimos meses estão corroendo a rentabilidade no campo em diferentes atividades, como o plantio de arroz e a pecuária de leite.


“Como as safras estão boas, não deve haver repasse para o preço dos alimentos. Mas não há dúvida de que a conta para o produtor está aumentando”, diz. Segundo Conchon, o que mais impacta o setor é a oscilação do dólar, que se acentuou no último mês. Isso torna muito difícil tanto para o agente financeiro quanto para o agricultor fazer previsões sobre o ambiente de negócios.

 

No caso do petróleo, existe uma influência sobre o custo de produção que varia segundo a localização e a atividade. No caso do cultivo de cereais e oleaginosas, por exemplo, o impacto é de cerca de 6%, mas pode chegar a 12% para a pecuária leiteira.

Já a mão de obra, insumos, fertilizantes e sementes sofrem com a alta do dólar e do petróleo. “Não bastasse isso, ainda temos o problema da economia, que não está crescendo, e as eleições de outubro. Será um ano difícil”, analisa o representante da CNA.

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