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Estado de Minas

Apagão acorda o fantasma do racionamento de energia no Brasil

Falha em linha de transmissão que liga Norte ao Sudeste deixa 6 milhões de pessoas sem energia em 11 estados de quatro regiões. Em Minas, blecaute afetou 62 cidades


postado em 05/02/2014 06:00 / atualizado em 05/02/2014 07:29

Márcio Zimmermann, secretário-executivo do Ministério das Minas e Energia:O evento ocorrido hoje (ontem) pode ser considerado de médio porte, pois comprometeu só 8% da carga envolvida. De toda forma é cedo para avaliar o fato que ainda será detalhado(foto: Uéslei Marcelino/Reuters)
Márcio Zimmermann, secretário-executivo do Ministério das Minas e Energia:O evento ocorrido hoje (ontem) pode ser considerado de médio porte, pois comprometeu só 8% da carga envolvida. De toda forma é cedo para avaliar o fato que ainda será detalhado (foto: Uéslei Marcelino/Reuters)

Brasília – As elevadas temperaturas registradas em janeiro combinadas com a maior estiagem para este mês em 60 anos, expuseram ontem graves deficiências do sistema elétrico nacional e ainda deram novo impulso ao pior pesadelo para a presidente Dilma Rousseff — o racionamento de energia. Apenas um dia após o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, afirmar que o risco de um desabastecimento de eletricidade no país era “zero”, uma simples falha numa linha de transmissão que liga o Norte ao Sudeste provocou no início da tarde um apagão, o décimo do atual governo, que deixou cerca de 6 milhões de pessoas sem luz em 11 estados das regiões Norte, Sudeste, Sul e Centro-Oeste.

Em Minas, o desbastecimento afetou a região de Venda Nova, na capital, e 62 cidades na Grande BH, no Triângulo, no Leste, no Sul e no Oeste do estado. Segundo a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) a interrupção no fornecimento de energia afetou 230 mil pessoas na sua área de concessão. Segundo a empresa, o apagão durou no máximo de 56 minutos. O desligamento ocorreu às 14h02 e o restabelecimento se iniciou a partir da determinação do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), às 14h48. “Às 14h58, todos os clientes afetados já tinham sido restabelecidos”, disse a empresa em nota. Além de Minas, faltou energia em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul.

Analistas acreditam que um descompasso na distribuição das cargas entre o Norte e o Sul do país provocado pela elevada demanda de energia nas horas mais quentes do dia levou a um colapso de uma das principais conexões do Sistema Interligado Nacional (SIN). A exemplo da série de apagões de grandes proporções que vêm atingindo o país desde 2008, eles enxergam crescente fragilidade do setor em decorrência da falta de planejamento e de investimentos em manutenção de redes, além de atrasos na entrega de equipamentos de proteção e de novas usinas geradoras.
O governo tentou minimizar a extensão do primeiro grande blecaute de 2014 e procurou desvincular sua ocorrência ao aumento do consumo combinado aos baixos níveis dos reservatórios. Segundo o Operador Nacional do Sistema elétrico (ONS), órgão gestor das instalações de geração e distribuição chegaram às hidrelétricas do país, só 55% da água das chuvas esperada para janeiro.

O acúmulo de problemas coloca em xeque o modelo criado pela então ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, em vigor desde 2003. “O evento ocorrido hoje (ontem) pode ser considerado de médio porte, pois comprometeu só 8% da
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carga envolvida. De toda forma é cedo para avaliar o fato que ainda será detalhado pelo ONS nos próximos dias e investigado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel)", contemporizou o secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, em entrevista coletiva.

Para ele, a falha que tomou boa parte do país ontem nada tem a ver com a sobrecarga ao sistema, acrescentando que o sistema está "equilibrado". O secretário também rebateu a aposta de analistas de elevação do risco de racionamento de 5% (média padrão adotada pelo governo) para 20%. "Disseram isso em 2008 e 2012, mas nada ocorreu. Os problemas são conjunturais e não estruturais", discursou.

Conforme o ONS, o acidente — ainda sem causas conhecidas — ocorreu às 14h03 e a chamada "perturbação" no SIN foi detectada entre as cidades de Colinas (TO) e Minaçu (GO), onde está localizada a hidrelétrica de Serra da Mesa. O transtorno interrompeu o fornecimento de aproximadamente 5 mil MW (megawatts) por, pelo menos, 35 minutos, quando iniciou o restabelecimento. "Para evitar a propagação do evento, houve desligamento automático de cargas selecionadas pelos distribuidores locais, visando restabelecer o sistema", divulgou o órgão em comunicado.

Críticas


Em nota, o presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), apontou a má gestão e o intervencionismo estatal como causas do apagão de ontem. "O governo afugentou investimentos e, se não chover rapidamente, os apagões poderão ser maiores ainda no futuro", afirmou. O líder do DEM na Câmara, deputado Mendonça Filho (PE), apresentou requerimento pedindo a convocação de Edison Lobão para falar sobre a política energética e os apagões mais recentes. O presidente da Casa, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), vai analisar o pedido. “A política energética do governo está fracassando, mesmo com a concessão de subsídio na veia por parte do Tesouro”, argumentou Mendonça Filho.

O deputado Arnaldo Jardim (PPS-SP), como presidente da Frente Parlamentar em Defesa da Infraestrutura, disse que o setor elétrico atravessa "momento de estresse" e o apagão de ontem é fruto de lacunas do planejamento. Ele ressaltou que o Tribunal de Contas da União (TCU) realizou levantamento sobre a situação do setor elétrico e identificou falhas que se repetem. "Lobão sempre diz que o sistema elétrico é robusto para ocultar fatos negativos ao governo", finalizou Jardim.


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