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Estado de Minas

Economia de Governador Valadares esquenta com a volta dos moradores que foram aos EUA


postado em 03/07/2011 07:06 / atualizado em 03/07/2011 10:19

Governador Valadares – Refém por mais de três décadas das volumosas remessas mensais de dólares enviadas pelos emigrantes seduzidos pelo sonho de uma vida melhor nos Estados Unidos, a economia de Governador Valadares, a cidade brasileira que mais exportou mão de obra para a terra do Tio Sam, começa a caminhar com as próprias pernas. A engrenagem da nova realidade do município mais populoso do Vale do Rio Doce, com cerca de 290 mil moradores e a 310 quilômetros de Belo Horizonte, deixou de ser movida pelos repasses mensais, os chamados “valadólares”, para ser impulsionada pela economia das pessoas que foram “fazer a América” e acabaram obrigadas a retornar, a partir de 2008, devido à crise financeira deflagrada naquele país e que avançou pelo restante do planeta.

A recessão americana – a bolha explodiu quando um grande número de mutuários não conseguiu mais honrar as prestações de financiamentos de imóveis – trouxe cerca de 5 mil valadarenses de volta à cidade, segundo estimativa da prefeitura. De um lado, a crise minguou as remessas em dólares para Valadares. De outro, obrigou os emigrantes que retornaram a transformar a grana juntada lá em empreendimentos para movimentar o comércio e a indústria do município.

Para se ter ideia, o emprego formal na cidade cresceu 5,77% no acumulado entre junho de 2010 e maio, conforme o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). O percentual, apesar de baixo, interrompeu dois resultados negativos apurados pelo Caged: recuo de 1,40% entre junho de 2008 e maio de 2009 e queda de 0,02% de junho de 2009 a maio de 2010.

Dólar minguando Enquanto o emprego na cidade está em alta, as remessas de valadólares estão seguindo trajetória contrária. Não há uma estatística oficial da redução dos repasses dos moradores do município que foram desbravar a América, mas um dado do Banco Central, acerca das transferências legalizadas e enviadas de todos os países estrangeiros ao Brasil, sinaliza que o recuo foi alarmante.

Nos primeiros cinco meses de 2008, quando a crise americana ainda não havia estourado, os brasileiros que moram no exterior enviaram US$ 1,152 bilhão ao país. No mesmo período de 2009, houve queda para US$ 951 milhões. Outro recuo em igual intervalo de 2010, para US$ 870 milhões. O mesmo ocorreu em 2011, quando entraram apenas US$ 837,7 milhões no país, no período. A redução, frente ao registrado em 2008, foi de cerca de 27%.

Um exemplo que mostra claramente as razões para essa queda é o relatado por Edimar Bispo de Souza, de 44 anos, que morou em Somerville, no estado americano de Massachusetts, de 2005 a 2008. “Recebia US$ 2 mil entregando gelo nos Estados Unidos. Enviava para cá, mensalmente, US$ 1 mil. A crise freou o ritmo de trabalho e passei a enviar US$ 300.” Hoje, ele é recepcionista de um hotel que fica em frente à Prefeitura de Governador Valadares.

Boom imobiliário O empresário André da Costa, de 44, também vem ajudando a movimentar a nova economia da cidade. Ele foi “fazer a América” em 1985 e retornou, em agosto de 2010, para montar a R.A. Construtora. O primeiro empreendimento imobiliário – um prédio de nove apartamentos – está em fase de acabamento e todas unidades foram vendidas. “Ganhei dinheiro lá fora. Era dono de uma empresa de pintura. Em 2007, empregava 350 pessoas e atendia de 60 a 70 casas por semana. Em 2008, restaram 15 funcionários e seis ou sete imóveis semanais. Não tive outra escolha: voltei. Aqui, constatei que o mercado está propício à construção civil”, disse o executivo, pai de três filhos nascidos no exterior.

Ele atua no ramo cuja variação do emprego formal foi a maior entre os setores pesquisados pelo Caged em Valadares: 28,34%. Rina Machado, de 47, também soube aproveitar oportunidade na área. Há três semanas, retornou da América e foi convidado a administrar uma construtora. Ele foi para os EUA em 1984, montou alguns negócios, entre os quais destaca um restaurante. Depois, migrou para o mercado imobiliário, onde a crise estourou. “Perdi dinheiro e fui ganhar a vida, como empregado, no meu antigo restaurante. A crise e a saudade do Brasil me fizeram voltar. Sempre tive saudades daqui. Senti falta do calor humano do nosso país.”

Para o secretário municipal de Desenvolvimento, Paulo Costa esses movimentos são a prova de que a economia da cidade começa a caminhar com as próprias pernas: “O município tem que aprender a se sustentar sem os repasses dos emigrantes”. O emprego no comércio, principal atividade econômica de Valadares, cresceu 5,87% no período, quando 9,5 mil vagas foram abertas.

“Nossa economia vai muito bem”, acredita Celso Antônio de Oliveira, de 37, que montou uma quadra futebol de grama artificial com o dinheiro da economia feita na América. “Lá, fui pintor e pregador de placas de amianto entre 1999 e 2009. Quando voltei, investi R$ 480 mil nesta quadra, inaugurada há duas semanas, e já estou com 65% dos horários reservados. Já penso em abrir outra na região”, planeja.

Na minha cidade

O retorno em massa de emigrantes levou a Prefeitura de Governador Valadares a organizar, amanhã, das 13h às 18h, na sede do Executivo, o fórum “Emigração: um ciclo que acabou?”. O evento discutirá a situação dos emigrantes que moram no exterior e a redução do envio de remessas. E esse tipo de iniciativa deve estar sempre na pauta dos governantes do município. Sugestão de Raimundo Santana, gerente do Programa Emigrante Cidadão (PEC)

Mais um motor

A indústria representa menos de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) de Governador Valadares. Mas o segmento deve ganhar impulso em 2013, quando o laticínio goiano Bela Vista, dono da marca Piracanjuba, planeja inaugurar sua primeira unidade mineira no município. Será a maior indústria da cidade. O empreendimento, orçado em cerca de R$ 30 milhões, vai gerar perto de 2 mil postos de trabalho, entre diretos e indiretos.


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