De macacão, botas e óculos preto, Rosalía canta no Grammy Latino em cenário branco

Diversas vezes premiada pelo disco "Motomam"", que rendeu também uma turnê internacional com ingressos esgotados, a espanhola Rosalía fez de 2022 o ano de seu sucesso mundial

VALERIE MACON /AFP

Ela foi a sensação de 2022, pendurando a placa de "esgotado" da Motomami World Tour nos Estados Unidos, na Argentina, no México, na Espanha e na França. Embora ainda seja sua maior inspiração, Rosalía não se limita ao flamenco. 

Rosalía Vila Tobella, seu nome de batismo, não tem raízes ciganas e descobriu o gênero durante sua infância na Catalunha, terra natal, graças aos amigos de origem andaluza.

A paixão foi instantânea. Lançado em 2017, seu primeiro álbum, "Los Ángeles", cujo vocal é acompanhado apenas de uma guitarra, integra o tradicional gênero musical. Apesar do sucesso de crítica, o disco não teve repercussão internacional.

Em uma dualidade essencial em sua discografia, Rosalía nunca deu as costas para outros estilos e continua inspirada pelo flamenco. A espanhola foi lançada ao estrelato mundial aos 25 anos, com sua segunda obra, "El mal querer" (2018).



O disco, que ganhou o gramofone de Álbum do Ano no Grammy Latino e mais três outras categorias na mesma noite, reflete o imaginário espanhol e o flamenco de Rosalía, acompanhado por um tom pop e mais dançante.

Entre as canções de sucesso, "Malamente" alcançou 160 milhões de reproduções no YouTube, e "Pienso en tu mirá", cerca de 89 milhões de reproduções.

Dividido em 11 canções, este disco conceitual começou como um trabalho de fim de graduação de Rosalía e relata as etapas de um relacionamento amoroso tóxico, inspirando-se na anônima obra medieval "Flamenca". Com o passar dos capítulos, a protagonista, personificada pela cantora, progride rumo à emancipação.

Ozuna, The Weeknd, Bad Bunny, ou Travis Scott. Rosalía ousa em qualquer dueto com as maiores estrelas da música urbana, mas uma colaboração que se destaca em sua discografia é a com o colombiano J. Balvin.

Intitulada "Con altura", a música estreou em 2019 e tem mais de 2 bilhões de reproduções no YouTube. Esta foi uma de suas primeiras colaborações internacionais, onde deu os primeiros passos no reggaeton.

Fiel às suas influências, a canção expõe pequenas referências ao flamenco, como "llevo a Camarón en la guantera", ao citar o cantor espanhol deste estilo, Camarón De la Isla, ou à música latina, no verso "pongo palmas sobre la guantanamera".

Sem volta

"Sinto que em 'Motomami' eu fiz e disse exatamente o que queria dizer e fazer, do meu jeito. Depois disso, não tem como voltar atrás", declarou à edição americana da revista “Rolling Stone”, no mês passado.

Lançado em março de 2022, "Motomami" foi aclamado por crítica e público. A mariposa virou a marca do disco, um símbolo de transformação, assim como Rosalía canta em "Saoko": "Una mariposa, yo me transformo", "Me contradigo".

O álbum embarca em diversos gêneros, como pop, reggaeton, hip-hop, eletrônica e jazz. O conteúdo desta terceira obra é, sem dúvida, o mais íntimo. Rosalía aborda sexualidade, feminismo, espiritualidade e amor próprio.

Além das canções e da sonoridade, a cantora também tem uma estética ligada à Espanha. O conceito aparece em seus clipes, capas de discos e performances. Alguns de seus videoclipes são referências ao cinema de Bigas Luna ou Pedro Almodóvar, com quem trabalhou, desempenhando um pequeno papel em "Dor e glória" (2019). O clipe de "Juro que" mostra a influência de Almodóvar nas cores e nas composições.

O videoclipe de "Pienso en tu mirá" começa com uma cena de uma boneca vestida de flamenca, já o de "Di mi nombre" é inspirado na pintura "La maja vestida", de Goya.