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Estado de Minas SAUDE

COVID-19: Novas moléculas associadas à hiperinflamação são descobertas

Resposta do organismo causa a conhecida tempestade de citocinas, visto que envolve elevadas taxas de moléculas pró-inflamatórias no sangue


21/01/2021 12:34 - atualizado 21/01/2021 14:48

O estudo contou com amostras de sangue de pessoas contaminadas com COVID-19 para coleta de dados(foto: ImunoCovid/Divulgação)
O estudo contou com amostras de sangue de pessoas contaminadas com COVID-19 para coleta de dados (foto: ImunoCovid/Divulgação)

Independentemente da contaminação, o organismo humano sempre irá responder aos “corpos estranhos” identificados como parasitas. E com a COVID-19, o mesmo irá ocorrer. Porém, em casos mais graves da doença, essa resposta tende ser a mais intensa e exacerbada. É o que chamamos de hiperinflamação, reação inflamatória sistêmica fora do controle, que, além dos pulmões, atinge diversos órgãos do paciente. 

Essa resposta do organismo, inclusive, causa a conhecida tempestade de citocinas, visto que envolve elevadas taxas de moléculas pró-inflamatórias no sangue, o que tende a ser mais grave que a própria infecção pelo novo coronavírus. E isso muito tem a ver com o potencial risco de que essa resposta imunológica cause disfunção orgânica ou mesmo falência múltipla dos órgãos no paciente infectado. 

Nesse cenário, um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), fez descobertas relevantes.

Isso porque, pela primeira vez, se percebeu que o processo inflamatório pulmonar, a tempestade de citocina e a gravidade da doença em si, tem relação estreita com o aumento exacerbado de mediadores lipídicos – derivados de ácido araquidônico – e de acetilcolina, substância produzida no sistema nervoso central e responsável pela comunicação entre neurônios.  

“Trabalhamos com pessoas não infectadas – grupo de controle –, e com quatro grupos de pessoas infectadas: as que foram infectadas e não tiveram sintomas (assintomáticas), as que tiveram manifestações moderadas, as que tiveram manifestações mais graves e pessoas que tiveram um quadro muito crítico. O que a gente observou é que quanto maior a gravidade da doença, mais a acetilcolina é produzida. Então, pode-se dizer que a acetilcolina tem, sim, correlação com a gravidade.” 

É o que explica a professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP-SP) e coordenadora da pesquisa Lúcia Helena Faccioli.

Ela relata, ainda, que ao encontrar uma alta concentração desses componentes moleculares no soro de pacientes com quadros graves de infecção pelo Sars-Cov-2, pode-se supor que células pulmonares e leucócitos liberam, além de citocinas, a acetilcolina, o ácido araquidônico e seus derivados. 

“Isso foi uma grande surpresa, pois nunca esses compostos lipídicos tinham sido descritos atuando no pulmão na COVID-19”, completa. 

A partir dos resultados obtidos, Lúcia Faccioli declarou que novas “portas” foram abertas para que possa se entender mais sobre a, em suas palavras, complexidade da doença causada pelo novo coronavírus. Isso porque, conforme elucidado pela pesquisadora, o organismo humano exige mais cuidados e estudos.

“Em animais, por exemplo, quando temos um dado, manipulamos o organismo do animal, seja inibindo ou estimulando, para entender o papel dos compostos que foram dosados. Em humano a gente não pode fazer isso.” 

“E podemos inibir a acetilcolina no humano? Até podemos, mas é extremamente delicado e, por isso, precisa de mais estudos. E isso porque, como ele é um neurotransmissor, a regulação precisa ser feita de forma muito precisa. Então, de certa forma, é perigoso, porque em doses erradas ou mesmo com a inserção no momento errado, podemos ter resultados contrários ao que buscamos”, diz a professora. Ela ressalta, ainda, um outro ponto abordado pelo estudo, justamente nessa vertente, o uso da dexametasona. 

“Percebemos para a nossa surpresa que, apesar de muito benéfica para alguns pacientes, a dexametasona inibe, em alguns casos, somente a acetilcolina, não interferindo no ácido araquidônico e seus derivados, o que, na nossa corte, resulta em um benefício não tão grande assim."

"Então, orientamos o seguinte: a dexametasona ou corticoide deve ser usado, sim, mas em combinação com inibidores do metabolismo do ácido araquidônico e orientado por um médico, pois se ela for incluída no tratamento precocemente, enquanto o vírus ainda está em fase de replicação, ela pode inibir a resposta imune e matar o paciente”, justifica. 


O ESTUDO 


Essa descoberta parte de uma série de estudos feitos por pesquisadores do consórcio ImunoCovid – coalizão que envolve 10 pesquisadores da USP e um da UFSCar, além de profissionais de saúde da Santa Casa de Misericórdia e do Hospital São Paulo em Ribeirão Preto, que trabalham em colaboração e com o compartilhamento de dados e de amostras de sangue para pesquisa. O estudo contou, também, com o apoio da Fapesp. 

“Dentro desse projeto, buscamos estudar vários aspectos da COVID-19 com base na expertise de cada um dos pesquisadores”, conta Lúcia Faccieli. 

Foi assim que surgiu o estudo em questão, com base na especialidade de pesquisadora, que anos antes estudou sobre o papel dos mediadores lipídicos derivados do metabolismo de doentes e/ou envenenados por peçonhas.

“Então, aproveitei minha bagagem com mediadores lipídicos e acetilcolina dos estudos com envenenamento e apliquei na COVID-19, porque o processo inflamatório que ocorre na infecção pelo Sars-Cov-2 é semelhante. E isso porque, independentemente do estímulo, seja de vírus ou bactéria, o processo inflamatório é o mesmo.”  
 

"Trabalhamos com pessoas não infectadas no grupo de controle, e com quatro grupos de pessoas infectadas: as que foram infectadas e não tiveram sintomas (assintomáticas), as que tiveram manifestações moderadas, as que tiveram manifestações mais graves e pessoas que tiveram um quadro muito crítico. O que a gente observou é que quanto maior a gravidade da doença, mais a acetilcolina é produzida. Então, pode-se dizer que a acetilcolina tem, sim, correlação com a gravidade."

Lúcia Helena Faccioli, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP-SP) e coordenadora da pesquisa

 

Para isso, os pesquisadores estudaram o lipidoma (conjunto de moléculas de origem lipídica) no plasma sanguíneo de pacientes com COVID-19 e de voluntários saudáveis. No total, 8.791 metabólitos do tipo estavam presentes em pelo menos 50% de todas as amostras.  

Em seguida, os cientistas acompanharam a produção de mediadores no soro sanguíneo de 190 pacientes com COVID-19 – 43 assintomáticos, 44 moderados, 54 graves e 49 críticos. Soma-se aos dados, a análise de 39 participantes saudáveis e 13 hospitalizados não infectados pelo novo coronavírus, que formaram o grupo controle.  
 
Para comprovar, de fato, resultados obtidos no estudo, foi feita uma análise de dados de expressão gênica de biópsias pulmonares de pacientes infectados pelo Sars-Cov-2 já mortos e publicados em artigos científicos.  

*Estagiária sob a supervisão da editora Teresa Caram 


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