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Estado de Minas SAÚDE

Lipedema: Não é estética, é doença

Patologia confundida com obesidade, o lipedema é capaz de limitar movimentos e causar danos psicológicos


13/12/2020 04:00 - atualizado 13/12/2020 08:16

A atriz Helena Lins, de 24 anos, conta que sentia muitas dores e teve movimentos limitados até passar pela cirurgia (foto: Arquivo pessoal)
A atriz Helena Lins, de 24 anos, conta que sentia muitas dores e teve movimentos limitados até passar pela cirurgia (foto: Arquivo pessoal)

Peso e inchaço nas pernas, hematomas e dificuldades de locomoção. Esses são alguns dos sintomas que podem indicar o acometimento de membros – braços, pernas e quadris – pelo lipedema, doença causada pelo acúmulo de gordura em regiões específicas do corpo, de forma desproporcional.

A patologia, muitas vezes confundida com a obesidade e/ou de diagnóstico negligenciado, em razão da falta de conhecimento, acomete, segundo dados da Sociedade Espanhola de Medicina Estética (Seme), cerca de 10% das mulheres de todo o mundo, causando sofrimento físico e psicológico.

“O lipedema está diretamente ligado aos hormônios femininos, o estrógeno e a progesterona. Justamente por isso muitas mulheres começam a sentir o desconforto no corpo em razão do aumento de volume nos braços, pernas, quadris e/ou joelhos, após o início da menstruação ou com a inserção da pílula anticoncepcional. A gestação também tende a ser um fato precursor do aparecimento do chamado tumor de gordura”, explica o médico cirurgião plástico Fábio Kamanoto. 
 
O especialista destaca que o primeiro sinal normalmente diz respeito à aparência das pernas e, consequentemente, do corpo como um todo. Segundo ele, os membros inferiores assumem uma semelhança com um tronco de árvore.

Ou seja, o controle da panturrilha é perdido e, assim, a perna tende a se parecer retificada desde o joelho até a altura do pé. No entanto, o pé não é acometido, o que confere à aparência das pernas a impressão de que um elástico foi amarrado no tornozelo.

“Então, a portadora de lipedema normalmente tem uma cintura fina e pernas grossas, as quais ficam caracteristicamente retas. Ao chegar no pé, o aspecto é normal. Além disso, outros sintomas aparecem com o decorrer do tempo e o acúmulo de gordura nas regiões superiores e inferiores do corpo tende a aumentar. A paciente passa, então, a sentir peso e dor local, e sofrer com o aparecimento de hematomas, pois a pele fica mais suscetível ao aparecimento de roxos”, completa Fábio Kamanoto, que aponta outro sinal bem sugestivo da doença: a não perda da gordura nas regiões de acúmulo, mesmo com a prática de atividades físicas e dietas.

Nesse cenário, o quadro clínico só piora. “Na progressão da doença – o volume tende a aumentar muito ao longo dos anos –, a paciente já não consegue mais subir escada, tem dificuldades para andar, não consegue vestir calças, por exemplo, e as roupas começam a não servir mais. E isso está muito relacionado com a falta de conhecimento sobre a doença, tanto pelo corpo clínico e médico quanto pelas portadoras da doença, que muitas vezes têm, mas não sabem”, ressalta o especialista.

EXAMES 


Fábio Kamanoto ilustra bem a situação com dados de um estudo recente realizado por ele sobre o perfil epidemiológico do lipedema. De acordo com os números da pesquisa, 91% dos médicos não estão aptos para diagnosticar e/ou tratar a doença, muito em razão de desconhecê-la.

Foi o que a atriz e produtora de conteúdo digital Helena Lins, de 24 anos, sentiu na pele.

A jovem conta que, mesmo realizando inúmeros exames, os médicos que a atenderam inicialmente diziam ser algo passageiro, partindo do pressuposto de que os exames feitos não apresentaram nenhuma alteração.

Porém, com os inchaços e dores em constante piora, Helena Lins começou a sentir as limitações: já não conseguia andar muito sem se sentir cansada e subir escadas virou um desafio.

“Um dia, perguntei à minha cunhada, que cursava medicina, se havia mais algum exame que eu pudesse fazer. Ela me falou, então, sobre a linfocentinografia. E, apesar de não fazer esse exame, pesquisei muito sobre a doença e ao analisar os sintomas, pensei: ‘Acho que tenho isso’. E foi o que me fez ir atrás de um médico especializado”, relata.

A jovem atriz, na época com 22 anos, precisou ir até São Paulo para conseguir o diagnóstico da doença, já que no Rio de Janeiro, onde reside atualmente, não havia médicos que soubessem sobre o assunto.

“Foi angustiante até o momento em que descobri que, de fato, era lipedema. A partir do diagnóstico, foi um misto de alívio com preocupação. Alívio por, enfim, saber o que eu tinha, e preocupação a respeito de como conseguiria me tratar. Eu sentia muitas dores, me alimentava bem e fazia exercícios, mas nada funcionava.”

GENÉTICA 


Ainda em estudo, a condição genética pode ter relação forte com o acometimento de mulheres pelo lipedema. Segundo o estudo brasileiro realizado por Fábio Kamanoto, 63% das pacientes diagnosticadas com a doença apresentaram histórico familiar positivo para a patologia. Em alguns casos, três gerações sofreram o acúmulo desproporcional de gordura: avós, mães e a paciente em questão.

“Uma pesquisa italiana evidenciou alguns genes. Então, a tese é bem consolidada e pode, sim, em breve se chegar à conclusão de que o fator genético pode ser preexistente para a doença. E, assim sendo, alguns hábitos podem ser capazes de influenciar o acometimento, como o uso de hormônios, alimentação descontrolada, falta de atividade física, entre outros. Ou seja, desse modo, se alguém tem histórico na família, ela pode tentar evitar o uso dos hormônios e incorporar hábitos mais saudáveis”, afirma.

Para além do acometimento físico, das inúmeras limitações e incômodos, Fábio Kamanoto destaca que o emocional pode, e muito, ser afetado pelo lipedema. Inclusive, pode provocar o desenvolvimento de problemas relacionados à autoestima, bem como distúrbios psicológicos, como depressão e ansiedade.

Há, segundo Fábio Kamanoto, duas frentes de tratamento. Um deles, o chamado tratamento clínico, consiste na inserção de uma dieta anti-inflamatória – legumes, carnes, alimentos sem sódio, glúten e/ou bebidas alcoólicas; uso de plataforma vibratória, que diminui o inchaço nas regiões; drenagem linfática para tirar o excesso de líquido; e, por fim, a técnica de taping, aplicada por um fisioterapeuta para melhorar o desconforto.

“Essas ações amenizam os sintomas, mas não resolvem o problema da gordura nas regiões dos braços, pernas e quadril, pois não extrai as células doentes. Ou seja, ele apenas controla a doença”, pontua o especialista, que destaca, ainda, o método cirúrgico, mais eficaz no que tange à projeção de cura.

Isso porque o procedimento adotado nesses casos, a lipoaspiração, é definitivo, já que as células de gordura são removidas e são incapazes de retornar ao organismo, visto que elas não se multiplicam.

Foi o que ocorreu com a atriz Helena Lins há cerca de três meses, quando ela se submeteu à técnica cirúrgica para remover a gordura e se ver livre do lipedema.

“É incrível e muito prazeroso poder andar e não ficar exausta, porque antes era muito pesado. Os resultados não foram instantâneos e vieram com o tempo. Mas é muito satisfatório, pois, com menos de dois meses, eu já conseguia fazer exercícios que fazia antes de as limitações surgirem. E continuo vendo melhora no meu dia a dia. A minha mobilidade como um todo foi beneficiada”, conta.

Fábio Kamanoto destaca que, para além de tratar os sintomas e evitar as limitações o quanto antes, o diagnóstico precoce é um forte aliado da cura, visto que, nas cirurgias de remoção da gordura, consegue-se eliminar apenas 7% do peso total da paciente em litros.

“Se uma mulher tem 100 quilos, é possível remover apenas sete litros. Agora, tem pessoas que têm 20 litros para tirar, o que a obriga a fazer três procedimentos, três anestesias. A paciente perdeu, então, a melhor oportunidade de cura. Porém, quando isso ocorre no estágio inicial, em apenas uma cirurgia a paciente está curada.”

*Estagiária sob supervisão da editora Teresa Caram


Ativismo


Em outubro de 2019, um grupo de mulheres diagnosticadas com a doença criaram a Associação Brasileira de Pacientes com Lipedema (Abrali).

A entidade, voltada para a descoberta e divulgação de tratamentos da patologia, reúne, atualmente, 300 mulheres na luta para que a doença seja reconhecida pela classe médica e, também, em prol de uma causa maior: o tratamento gratuito no SUS e convênios médicos.

Em suas redes sociais – Instagram (@helenaliins e @lipedemalifehourney) e YouTube –, Helena Lins fala sobre o lipedema por meio de suas experiências com a doença, a fim de conscientizar mulheres portadoras da patologia ou mesmo possíveis familiares e/ou amigos de pessoas suscetíveis ao diagnóstico. É, para além de informação, conscientização. “É uma espécie de documentário”, descreve.

 

Fique atenta aos sinais!

 
Saiba como identificar os sintomas da doença!

» Dores locais
» Peso nas pernas
» Inchaço
» Facilidade para ser acometida por hematomas
» Dificuldade para subir escadas e/ou andar
» Dificuldade para usar calças
» Sem resultados com a inserção de dietas e exercícios físicos

Fonte: Fábio Kamanoto, médico cirurgião plástico e especialista no tema


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