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Estado de Minas Medicina do Futuro

Tecnologia que ajuda a salvar vidas

Vários dos novos tratamentos em cardiologia foram desenvolvidos usando a inteligência artificial e a machine learning. Robôs-cirurgiões já são uma realidade, mas a presença humana ainda é essencial


25/11/2019 04:00 - atualizado 10/08/2020 14:24

(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press %u2013 29/4/19)
(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press %u2013 29/4/19)


A inteligência artificial (IA) está mudando o paradigma da saúde. De acordo com o estudo “Inteligência artificial em saúde: passado, presente e futuro”, publicado no BMJ Journals, do Reino Unido, uma das mais influentes e conceituadas publicações sobre medicina no mundo, as principais áreas de doenças que usam ferramentas de IA incluem cardiologia, oncologia e neurologia. As três especialidades são as principais causas de morte, portanto, diagnósticos precoces são cruciais para mudar o estilo de vida e prevenir a piora do estado de saúde. Como a inteligência artificial visa imitar as funções cognitivas humanas usando dados e algoritmos, ou seja, sequências de cálculos matemáticos para fornecer aos profissionais da saúde novos pontos de visita em tratamentos e solucionar grandes desafios, é fato afirmar que a tecnologia revoluciona a maneira de aplicar a saúde. Hoje, já é possível apontar quando um paciente está ficando doente mesmo antes do aparecimento de sintomas, viabilizando assim um atendimento individualizado e preventivo. Assustador e maravilhoso ao mesmo tempo. Imagina se o médico puder prever uma parada cardíaca a tempo de tomar providências para evitar que ela ocorra? Pesquisadores e especialistas dizem que, no futuro, a tendência é que a IA possa ajudar a diagnosticar mais cedo doenças difíceis de detectar apenas por meio de pesquisas que as pessoas fazem na web. O cardiologista Marcus Vinícius Bolívar Malachias, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), professor da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais e atual cientista visitante no Brigham and Women’s Hospital – Harvard Medical School, nos Estados Unidos, concedeu entrevista ao Estado de Minas para falar dos avanços da inteligência artificial em algumas áreas da cardiologia. Confira:
 
Como a IA é usada para melhorar a saúde cardiovascular?
O maior avanço tem sido no aprofundamento do conhecimento sobre o funcionamento do sistema cardiovascular e da gênese de suas doenças para o desenvolvimento de novas possibilidades de tratamento. Para isso, em medicina, tem sido muito empregado um ramo da computação conhecido como machine learning (ML), que, em vez de simplesmente seguir regras e padrões de grandes conjuntos de dados, é capaz de realizar raciocínios dedutivos. Dados armazenados e analisados em IA podem gerar modelos de corações e vasos sanguíneos normais ou doentes, modelar animais com defeitos genéticos similares aos que ocorrem em humanos e, a partir daí, criar protótipos de equipamentos e medicamentos “candidatos” ao tratamento.

Em que medida a IA aumenta e estende a eficácia do cardiologista?
A tecnologia está modificando todos os aspectos das nossas vidas. Na medicina – e em especial em algumas áreas, como a cardiologia, a oncologia, a imagenologia, entre outras –, vivemos uma verdadeira revolução. De uma maneira objetiva, o uso da IA em saúde possibilitaria armazenar, analisar e utilizar uma quantidade infinita de dados, sejam eles sobre o conhecimento científico acumulado ou simplesmente sinais, sintomas e exames de pacientes, para simular o raciocínio humano e nos ajudar na tomada de decisões.

Em quais tratamentos cardiológicos a IA e a machine learning estão presentes?
Vários dos novos tratamentos em cardiologia foram desenvolvidos usando uma parcela menor ou maior de IA, ML, como os novos medicamentos biológicos para doenças raras e graves, os novos anticoagulantes orais, os redutores do colesterol de última geração, os modernos marcapassos e desfibriladores, novas próteses e clips para tratamento das doenças valvares cardíacas, além de centenas de equipamentos e programas para diagnóstico.
 
Exames como ecocardiogramas, varreduras do CT, entre outros, evoluíram com a IA. Quais os benefícios?
Essa é uma área em que se têm  constatado grandes avanços. Os grandes fabricantes de equipamentos diagnósticos têm armazenado há anos milhões de registros de pacientes reais de forma que, hipoteticamente, poderiam disponibilizar sugestões de laudos automaticamente. Em muitas condições envolvendo situações raras, diagnósticos difíceis e alterações anatômicas, por exemplo, padrões armazenados em big data poderiam auxiliar o médico a emitir o seu parecer. A tecnologia pode também facilitar que a imagem seja transmitida a diferentes centros do mundo para que seja analisada a distância. Em centros desprovidos de recursos, um médico não especialista poderia receber assistência por telemedicina. Apesar de possíveis, esses recursos são alvo de acaloradas discussões éticas e têm sido empregados ainda em pequena escala.
 

"Acredito que o médico atual deve buscar o mais alto grau de conhecimento, habilidade em utilizar os modernos recursos tecnológicos e a mais ampla rede de acesso à informação, mas preservar o humanismo, a cordialidade e o bem-querer aos pacientes da medicina tradicional"

 

Doenças cardiovasculares são as que mais matam. A IA é uma aliada que pode reverter ou contribuir para a mudança desse quadro?
Grandes bancos de dados, como o Biobank, no Reino Unido, com registros de estudos clínicos financiados pelo Instituto Nacional de Saúde dos EUA (NIH), além de registros de saúde pública de alguns outros países, têm sido ofertados à comunidade científica internacional para que façam pesquisas que possam ajudar a salvar vidas. Estudos gerados a partir desses dados têm sido muito úteis para avaliar as condições da população na vida real, quantificar fatores geradores de doença e a eficácia de tratamentos. No Brasil, o Datasus (departamento de informática do SUS) e outras plataformas do Ministério da Saúde (MS) têm sido importante fonte para os pesquisadores, sobretudo no tocante aos dados de mortalidade e internações pelo SUS. Na saúde complementar, a maioria das cooperativas e planos de saúde têm investido fortemente em sistemas de computação, principalmente na tentativa de otimizar custos, gerenciar a efetividade da assistência e na implantação de pagamento por performance. Assim, mais conhecimento e melhor assistência podem determinar mais vidas salvas.

A IA é uma aliada ou há o risco de, no futuro, o paciente ser operado apenas por um robô?
Robôs-cirurgiões já são uma realidade, mas operados por mãos humanas, como é o caso do equipamento Da Vinci, presente já em Belo Horizonte e em várias cidades brasileiras, mas ainda muito pouco utilizado em cirurgias cardíacas. O Japão e a China já usam robôs autônomos para atividades repetitivas de médicos e enfermeiros, como coleta e análise de dados pessoais, monitoramento a distância etc. Sistemas como o Siri, da Apple, e o Alexa, da Amazon, entre outros, são capazes de coletar e processar informações por comandos de voz, reduzindo o tempo gasto na anamnese e permitindo que a equipe médica possa otimizar o atendimento com ênfase no raciocínio clínico. A IA pode ainda ajudar a fornecer possibilidades de diagnóstico e sugestões de tratamento para a tomada de decisão. Medidas como essas podem ampliar a capacidade de atendimento das unidades de saúde e hospitais, além de aumentar a assertividade das medidas adotadas. Mas, sinceramente, não acredito que isso seja um modelo adequado ao Brasil no momento. Por aqui, mais da metade dos pacientes não toma os medicamentos prescritos em receitas, por diferentes razões, muitos fazem exames e nem sequer buscam os resultados, é grande o não comparecimento às consultas e controles agendados e é baixa a adesão aos cuidados básicos, como alimentação saudável e atividade física regular. Imagine se o atendimento fosse realizado por robôs!

Toda essa tecnologia é responsável pelos elevados custos da medicina moderna?
A tecnologia tem elevado custo, mas, ao mesmo tempo, representa uma atraente alternativa para melhor equilibrar o custo e a efetividade na saúde. Para cada novo medicamento ou equipamento, estima-se que haja a necessidade de um investimento de US$ 150 milhões a US$ 500 milhões para a realização de todos os testes até a sua aprovação pelas agências reguladoras. Isso faz com que os novos medicamentos tenham elevado custo para fazer jus ao investimento e gerar lucros aos acionistas, tendo em vista que em alguns anos vencerá a patente do produto. Além disso, em muitos casos, as indústrias investem e o produto não se revela eficaz ou os possíveis efeitos adversos não compensam a sua utilização. Atualmente, com o uso de IA e ML é possível simular várias das etapas dessa pesquisa e avaliar as chances de sucesso do novo produto para assim minorar os riscos do investimento. O mesmo raciocínio se aplica a hospitais, clínicas, e sistemas de saúde, onde o investimento inicial em tecnologia deverá se reverter em menor custo no futuro.

Se a IA é um caminho sem volta em todas as áreas, ao invadir a saúde ela pelo menos será acessível a todos? Chegará aos SUS, por exemplo? Ou mais uma vez teremos milhões de excluídos?
Na medicina, assim como em todas as áreas, existem muitos Brasis. Se por um lado temos universidades e hospitais de ponta, médicos e cientistas de nível internacional e uma profusão de equipamentos de última geração em serviços de referência, ainda convivemos com áreas de total carência de recursos básicos. Escrevi recentemente um editorial para uma revista científica internacional em que destaquei dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) que revelam que a pobreza e o baixo nível educacional são os maiores fatores de risco para todos os tipos de doenças. Sistemas computacionais têm sido empregados para melhor analisar a desigualdade social e propor soluções. Mas um maior equilíbrio social é condição básica para uma saúde mais igualitária. A tecnologia não deve ser responsabilizada pelo desequilíbrio social e seus reflexos na saúde.


Quais questões éticas são levantadas ao se tratar da relação IA e a medicina?
Muitos médicos argumentam que o uso da tecnologia configura uma quebra do juramento de fazer o seu melhor para o bem-estar de seus pacientes. A discussão é que o paciente será deixado sob os cuidados mais das máquinas do que dos doutores...
Essa tem sido uma discussão ainda sem um veredito final. O direito à privacidade de dados pessoais é inquestionável. Não existe consenso sobre como conciliar esse direito em tempos de big data. Não se pode garantir a segurança plena em arquivos eletrônicos, mesmo com dados criptografados. Há sempre a possibilidade de que empresas de serviços em saúde, seguradoras e hackers possam se valer de dados de pacientes contra os mesmos. Mesmo assim, uma pesquisa que avaliou 12 mil pessoas de 12 diferentes países (o Brasil não foi incluído) indicou que 54% dos entrevistados aceitariam receber atendimento de saúde por um robô com IA. Curiosamente, nos países mais pobres a aceitação foi maior, de forma que 94% dos entrevistados da Nigéria, 85% da Turquia, 41% da Alemanha e 39% da Inglaterra se mostraram dispostos a responder às questões de saúde, realizar exames, receber diagnósticos e até tratamentos via robôs e IA. Médicos são humanos sujeitos a erros. Robôs são máquinas e, apesar de poder armazenar infinitos dados, analisá-los e fazer raciocínios dedutivos, estão sujeitos a erros. Acredito que o melhor será utilizar robôs e a IA como suportes à equipe de saúde.

Como o médico deve lidar com a tecnologia na saúde justamente quando, nos últimos anos, o debate girava em torno do resgate mais próximo e humanizado da relação médico-paciente? A presença da máquina não fará essa relação ficar ainda mais fria e distante? 
Acredito que o médico atual deve buscar o mais alto grau de conhecimento, habilidade em utilizar os modernos recursos tecnológicos e a mais ampla rede de acesso à informação, mas preservar o humanismo, a cordialidade e o bem-querer aos pacientes da medicina tradicional. Mais que nunca, o médico atual deve trabalhar em equipe, conectado a outros especialistas, outros profissionais de saúde e a bons hospitais, clínicas e centros de ensino e pesquisa. Por tudo isso, a medicina é muito mais que uma profissão. É também uma ciência e uma arte. 


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