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Estado de Minas

Conexão com a natureza

Está comprovado cientificamente que mexer com terra e lidar com plantas tem efeito terapêutico. Além de ajudar a manter a qualidade de vida, evita doenças como a depressão e o estresse


postado em 17/11/2019 04:00


Os alunos Luiz Cláudio e Cecília, de 6 anos, já sabem que as aulas de jardinagem fazem bem para a saúde(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Os alunos Luiz Cláudio e Cecília, de 6 anos, já sabem que as aulas de jardinagem fazem bem para a saúde (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)

 

Mais do que a ingestão de ingredientes naturais, uma prática ancestral simples e, por que não dizer, universal pode ser aliada para superar tais problemas como a depressão e o estresse. Colocar as mãos na terra e lidar com plantas é tão corriqueiro quanto benéfico para a manutenção da qualidade de vida e do bem-estar. Por tudo isso e além, é permitido pisar na grama! Essa ligação com a natureza expande o sentido terapêutico que o ato representa.

Agora, as vantagens de mexer com a terra ou cuidar de plantas têm respaldo científico. Pesquisa desenvolvida por especialistas do Departamento de Fisiologia Integrada e do Centro de Neurociência da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, divulgada na revista Neuroscience, atesta que, afora o prazer do mero hábito, o contato com uma bactéria específica encontrada no solo é capaz de combater diferentes processos inflamatórios, inclusive transtornos psiquiátricos e outras complicações psíquicas relacionadas, entre outros aspectos, ao estresse.

Trata-se da Mycobacterium vaccae, bactéria que cumpre função importante no equilíbrio do comportamento emocional do indivíduo. Um dos líderes do estudo, o professor Christopher Lowry, explica que o convívio com a biodiversidade microbiana é a justificativa mais evidente para os efeitos positivos de estar entre os espaços verdes.

Um dos primeiros pontos sobre a proximidade com bactérias, algo que vem no próprio ritmo da evolução da humanidade, é a melhora de processos inflamatórios, partindo da influência que os micro-organismos assumem sobre o sistema imunológico. Nesse contexto, é fundamental esclarecer que o ser humano é um ecossistema que precisa diretamente dos micróbios presentes no organismo.

Na Escola Verde Vida, em Belo Horizonte, que atende alunos entre 1 e 6 anos, as crianças desfrutam de um horário reservado para atividades de jardinagem, quando têm contato com plantas e animais. "É uma maneira de plantar uma semente dentro delas, falar sobre a importância de não degradar o meio ambiente, de cuidar da natureza, de se preocupar com o futuro", diz a coordenadora, Carla Brittes da Silva. Cecilia Pizzato da Silveira, de 6, diz que adora cuidar das plantas e dos animais. "Gosto das árvores, de mexer com a terra, dar água para a planta quando ela está com sede", diz a menina, que, agora, tem o costume de levar as sementes que sobram quando come frutas para plantar novamente. Colega de Cecília na Escola Verde, Luiz Cláudio Armond Ribeiro, também de 6, conta que as plantas retribuem com coisas boas e que, perto delas, “a gente respira melhor”. No Dia das Crianças, não é que o garoto pediu e ganhou de presente sementes de alimentos, como cenoura, tomate e melancia? E algumas “já até começaram a nascer”, empolga-se.

RECOMENDAÇÃO 

Ainda não há consenso sobre o período diário de exposição ao solo e qual o modo mais adequado para experimentar tais atividades, mirando uma melhora geral da saúde. É sabido, no entanto, que a exposição não somente a partir do contato manual, mas a respiração propriamente dita desses organismos ambientais oriundos da natureza reduzem as inflamações e, em muitos casos, podem auxiliar até no combate ao câncer. É evidente que, diante de qual seja a patologia, tudo deve ocorrer com acompanhamento de profissionais de saúde. Porém, agora, mexer com a terra pode mesmo ser uma recomendação médica.

O estudo comprova que a Mycobacterium vaccae influi na produção de serotonina, hormônio relacionado ao prazer, com efeitos sobre neurônios associados a propriedades antidepressivas, conforme elucida Christopher. "Mostramos que o tratamento com essa bactéria apresenta efeitos semelhantes ao antidepressivo. A exposição a esse organismo derivado do solo, por inalação ou injeção, ativa a serotonina", afirma. O estudioso lembra, ainda, que um levantamento anterior já havia demonstrado que a bactéria também atuou no tratamento de carcinoma pulmonar, influenciando na melhora da saúde emocional, nas funções cognitivas e na diminuição da dor em pacientes com a doença.

O experimento em camundongos mostrou eficácia para impedir o desenvolvimento de estresse pós-traumático e ansiedade, protegendo contra a colite induzida por estresse. "Isso sugere que simplesmente respirar bactérias derivadas do solo pode ter benefícios para a saúde", diz o especialista. Outra benesse é a diminuição do medo. Os testes também apontaram a extinção do comprometimento cognitivo em ratos idosos expostos a cirurgias.

“Em 2007, éramos muito cautelosos ao sugerir que a simples exposição ao solo e, consequentemente, a bactérias derivadas do solo pode trazer vantagens à saúde. Agora, parece claro que sim. Um estudo mais recente mostra que simplesmente hospedar ratos no solo altera o microbioma do intestino, protegendo contra a inflamação alérgica das vias aéreas, como ocorre em quadros de asma alérgica, e promove a resiliência ao estresse. Ao diminuir a inflamação, a Mycobacterium vaccae tem potencial para minimizar o risco de doenças psiquiátricas, desde transtornos de ansiedade até depressão, já que a inflamação crônica é um elemento de risco para tais distúrbios.”

Outro estudo revela que crianças que vivem em ambientes urbanos, quando em contato com microbiomas naturais, como fazendas, tiveram minimizados os riscos de apresentar asma. "Também observamos que homens jovens na Alemanha que cresceram em cidades, e sem animais de estimação, tiveram reações exageradas frente a fatores estressores se comparados ao que ocorre com os que cresceram em fazendas", diz o professor.

“Existem muitas razões pelas quais as pessoas que convivem com plantas se beneficiem em termos de saúde mental. Isso inclui o fato de que tendem a comer melhor (ou seja, mais vegetais), têm uma sensação maior de conexão com a natureza, são expostas ao ar fresco, geralmente fazem mais atividades físicas e a melhora aparece até mesmo nas relações sociais”, afirma Christopher Lowry.


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