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Estado de Minas CULTIVANDO A LEVEZA

Plantando árvores com os filhos em tempos de pandemia

'Vamos ajudar a plantar várias árvores, ideias e filhos conscientes. Semear o verde para colher esperança'


postado em 30/05/2020 04:00 / atualizado em 30/05/2020 08:12

 

“En la vida hay que hacer tres cosas: tener un hijo, plantar un árbol y escribir un libro.” Em relação a essa frase, atribuída ao poeta cubano modernista José Martí, cumpri dois terços das coisas essenciais que se há de fazer na vida. Tive dois filhos e escrevi um livro. Falta, agora, cultivar a árvore. Eu me dei conta disso quando o meu caçula resolveu plantar um pé de feijão no quintal. Quis repetir, por vontade própria, a velha experiência pedida nas escolas.

 

Gostei da ideia. Taí uma atividade interessante para propor às crianças nessas férias inesperadas, que vieram para interromper o calendário virtual das aulas, ops, o calendário de aulas virtuais. Se continuar assim, 2020 entrará para a história como sendo o ano escolar que não terminou.

 

Voltemos às árvores. Meu filho inventou de ter o próprio feijoeiro. Preparou uma cama com chumaços de algodão e deitou nela três sementes. Derramou um pouco de água e colocou os grãos para tomar  sol. Concluída a missão, foi jogar videogame com os amigos.

 

Meia hora depois, volta o pequeno. “Será que o meu feijão já nasceu, mamãe?” Devo ter feito exatamente essa pergunta à minha mãe, três décadas atrás. Sorrindo por dentro, reproduzi o carinho de mãe, explicando a necessidade de ter paciência, de esperar o tempo certo das coisas, de ter fé.

 

E assim foi feito. Ele molhava todos os dias, colocava no sol, tirava do sol, corria os olhos no vaso de cerâmica. Mas nada de novo acontecia. Bastou o menino se cansar de mimar o feijãozinho, reduzir as expectativas, soltar as rédeas, entregar para Deus. Daí, o desapego abriu terreno para desabrochar a surpresa.

 

Brotou, mamãe!”, gritou ele, todo feliz, alguns dias depois. É uma graça ver o caule saindo do interior da semente, ganhando vida em plena pandemia, imune ao fim da quarentena, indiferente ao confinamento social.

 

Mesmo com a abertura, o pé de feijão não sairia correndo de casa. Permaneceria ali plantado, até segunda ordem, até pegar um pezinho.

 

Trocadilhos intrusos (e infames) brotavam da cabeça da mãe, enquanto ela varria o quintal, regulava o horário do almoço, lembrava de não se esquecer de dependurar as roupas no varal. Era preciso concluir as tarefas urgentemente e arranjar jeito de escrever este texto sobre Bernardo e o pé de feijão.

 

Como no conto de fadas, o feijãozinho seguiria crescendo, crescendo até alcançar as nuvens, às vezes trombando com terríveis gigantes. Lutando as próprias batalhas.

 

Antes de se perder novamente em pensamentos, surgiu a dúvida seminal, capaz de abalar a tríade da felicidade citada no primeiro parágrafo da crônica: plantar árvore, escrever livro, ter filhos. Afinal de contas, cultivar um pé de feijão equivaleria a plantar uma árvore?

 

Infelizmente, não, de acordo com as leis da botânica. Ao contrário das fábulas, a muda de feijão não ultrapassa a altura de 50 centímetros. Não chega aos pés (é o último trocadilho, prometo) do abacateiro, das mangueiras ou do pé de laranja-lima de José Mauro de Vasconcelos, num dos títulos mais ternos que já li.

 

Na dúvida, eu e meu filho ficamos devendo a árvore da vida. Logo que der, podemos fazer feito o governo tailandês, que orientou os cidadãos a não desperdiçarem as sementes das frutas. Em vez de jogá-las no lixo, você deve reservar esses tesouros, porta-joias naturais, mensageiras da abundância.

 

É recomendável lavá-las, deixar secar ao sol, armazenar em um saco de papel e deixar dentro do carro. Ao sair da garagem, assim que for possível, você deve atirar as ‘bombas caseiras de sementes’ em terrenos vagos, canteiros, matas. Foi assim que o governo da Tailândia reflorestou o país.

 

Vamos ajudar a plantar várias árvores, ideias e filhos conscientes. Semear o verde para colher esperança. Dias melhores já estão vindo. Basta ter paciência. 

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