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Estado de Minas DA ARQUIBANCADA

Torcida única, ideia de jerico


postado em 16/11/2019 04:00 / atualizado em 16/11/2019 07:48

Após confusão generalizada nos camarotes no último clássico Cruzeiro x Atlético, decisão equivocada fechou saídas de emergência no Mineirão(foto: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS)
Após confusão generalizada nos camarotes no último clássico Cruzeiro x Atlético, decisão equivocada fechou saídas de emergência no Mineirão (foto: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS)

Vivemos um tempo curioso, para dizer o mínimo. As ideias de jerico vicejam com extraordinária volúpia. Veja o caso da Terra plana. Segundo o DataFolha, 7% dos brasileiros creem vivermos sobre uma espécie de pizza cuja borda de gergelim seria uma geleira intransponível. O homem jamais foi à lua: trata-se de invenção tramada pelo consórcio Rússia-Estados Unidos, assim como a Guerra Fria, com a finalidade de dominar o mundo. Esse intento, contudo, choca-se frontalmente com o “fato” de que já somos dominados — por habitantes das Três Marias. Sim, as estrelas.

O mundo não nasceu do Big Bang. Deus, empreiteiro dos bons (concluiu a obra em uma semana), teria, antes, detonado a explosão. Não está claro ainda se com bananas de dinamite. A Teoria da Evolução é uma falácia inventada por Darwin. O aquecimento global não existe (e se há o registro de algum aquecimento, informa o chanceler Ernesto Araújo, deve-se aos termômetros instalados no asfalto quente). As vacinas provocam autismo e são, na verdade, um mecanismo obscuro de controle social.

Como retrato da vida, o futebol é fertilíssimo terreno, também, onde pasta o jerico pensante. Vejamos o caso da violência nos estádios. Nos primórdios, era tudo como numa Copa do Mundo, onde não há separação de torcidas. Seguia-se a teoria do cachorro no portão: bote-se um cão de cada lado, e eles irão ladrar furiosamente. Abra-se o portão e, por instinto de sobrevivência, serão diplomáticos. Há exceções, como em toda regra. Para elas existe a focinheira. É raro o registro de brigas de torcidas em Copas do Mundo.

No entanto, decidiu-se por separar as torcidas dos clubes. Como previsto, elas passaram a ladrar furiosamente. Não bastassem os portões, foram apartadas em ruas e avenidas. O próprio poder público a contribuir na construção de um teatro de guerra. Àquelas exceções, não conferiram a necessária focinheira. Ficaram soltos, ganharam importância na política dos clubes e na política das cidades.

Com a situação fora de controle, não se cogitou retomá-lo pelo princípio da Copa do Mundo, ainda que o único comprovadamente eficaz – e aquele mais didático do ponto de vista do fomento de uma cultura de paz na sociedade em geral. Fez-se o contrário: dobrou-se a aposta no portão, diminuindo o tamanho de um dos cachorros. Aqueles com um parafuso a menos, fossem os pinschers ou os pastores alemães, seguiram desprovidos da focinheira.

Como o apartheid era impraticável para além do estádio, seus arredores e principais acessos, os cães apenas passaram a se atracar alguns quilômetros antes. Nas paradas de ônibus, nas periferias, nos pontos de encontro combinados na internet para o exercício do Clube da Luta. A essa altura, incentivados pelo endosso oficial da convivência impossível e pelo teatro de guerra, a animosidade espalhou-se como uma doença contagiosa. Nada além do previsto.
No domingo passado, um pitbull munido com uma garrafa e um copo de vidro, privilégio dos camarotes que abrigam aqueles com pedigree, achou por bem arremessá-los por sobre o portão, atingindo o “inimigo” em sua trincheira. O “inimigo” achou que tal atitude configurava um crime de guerra, derrubou o portão e foi às vias de fato. Ninguém usava focinheira.

Policiais e seguranças, buchas de canhão daqueles que tomam as decisões erradas na segurança de seus gabinetes, fecharam saídas de emergência ao mesmo tempo em que atiraram gás e desceram a porrada em gente inocente, crianças, senhoras. Um dos animais, cujo pelo é tosado por um negro, mandou que o segurança se atentasse para a cor de sua pele. O outro, da mesma ninhada, disse: “Macaco”. Nenhum dos dois foi posto na jaula. Até o fechamento desta coluna, ainda não se sabia o nome do animal que atirou a garrafa de vidro na multidão, embora dele se tenha fotos e vídeo. O reis do camarote têm os seus privilégios.

Pois agora os jericos, em alta, tiveram nova ideia, já explorada por jericos de outras partes: a torcida única, uma combinação entre Sette Peles e Zezé Perrella, que dupla! Fica abolido o portão, alija-se um cachorro, e estará finda a violência. Para que a medida seja efetiva e coerente, é importante cuidar para que, em dias de jogos, apenas uma torcida tenha direito à cidade. Teje preso o atleticano com camisa do Atlético em qualquer parte de Belo Horizonte. Teje apreendido o dimenor com a camisa do Cruzeiro quando o mandante for o Galo. Certeza de que estamos construindo um mundo melhor.


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