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Estado de Minas DA ARQUIBANCADA

O Atlético precisa falar à alma do atleticano

"Na situação de emergência em que nos encontramos, no lugar deles eu faria qualquer coisa capaz de aproximar a torcida"


postado em 02/11/2019 04:00 / atualizado em 01/11/2019 21:23

Sérgio Sette Câmara, presidente do Atlético, com mandato até o ano que vem(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press - 12/4/19)
Sérgio Sette Câmara, presidente do Atlético, com mandato até o ano que vem (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press - 12/4/19)


Questionado por jornalistas, Alexandre Kalil disse que o Galo “não vai cair, não”. É um exercício de fé. Em se tratando exclusivamente da razão, está prontinho pra cair, tendo cumprido todos os requisitos e fechado a cartela do bingo. Se acontecer, será com requintes de crueldade, porque bastante provável que livre o Cruzeiro do descenso, passando a ocupar no Z-4 o lugar que foi do arquirrival até a penúltima rodada. Caso a tragédia aconteça, toc-toc-toc, será um dos maiores vexames da história do futebol brasileiro, com potencial para fazer uma significativa parcela da torcida simplesmente desistir do Atlético. Seja como for, não se poderá dizer que não foi merecido.

Do ponto de vista do jogo, Mário Marra está coberto de razão: o Atlético é hoje o pior time da Série A. Hoje não, ontem — nas últimas 15 rodadas, foram apenas duas vitórias. Numa disputa hipotética em que valesse apenas o segundo turno do Brasileirão, o Galo estaria em 17º, com aproveitamento de rebaixado. Apenas Chapecoense, Botafogo e Avaí conseguem a proeza de números piores. Os três ganharam da gente nos últimos confrontos. A derrota para a Chapecoense, na quarta-feira, afasta qualquer pensamento racional de que seremos capazes de escapar da degola.

Estive domingo passado no Morumbi, quando o Atlético enfrentou o São Paulo (“enfrentou” é concessão ao lugar- comum, não houve qualquer enfrentamento). Foi o espetáculo mais deprimente a que assisti num estádio de futebol, sem exagero. Em certa altura do segundo tempo, as pessoas olhavam seus celulares sem qualquer interesse na partida. Nenhuma revolta, nenhuma indignação. O atleticano não se reconhece no Galo atual. Estava eu conjecturando a respeito disso quando dormi. Juro: em um jogo do Galo, eu dormi na arquibancada. Mexerica jamais teria conseguido esse feito.

Os salários estão atrasados, a diretoria não entende de futebol nem de gestão, o diretor de futebol é fraco, o técnico é um especialista em ser rebaixado e, inacreditável, já se começa a cogitar sua demissão. A esta altura, no entanto, esses são problemas menores diante do mais grave: a absoluta desconexão entre time e torcida. É o mais grave porque, dadas as circunstâncias, apenas o atleticano pode salvar o Atlético do maior vexame de sua história — repito, com potencial para fazer diminuir o tamanho de sua torcida, talvez de forma irreversível.

O Atlético deve ao atleticano sua sobrevivência. No passado, times de grande expressão, como o América, tornaram-se pequenos porque foram abandonados por seus torcedores. Mesmo hoje assistimos ao definhar de clubes tradicionais como Fluminense e Botafogo, cujas torcidas, somadas, não chegam à do Galo.

Em mais de 40 anos de sofrimento, injustiças diversas e azares monumentais, o Atlético poderia ter virado o América. Mas, ao contrário da lógica, sua torcida se manteve fiel, produziu novas gerações de fãs e cresceu ainda mais. Isso se deveu aos campeonatos estaduais, antes importantes, mas sobretudo a um sentimento caro a qualquer agrupamento humano: quando se merece e se é injustiçado, emerge de dentro da gente uma força inexplicável. Quem ganhou a Libertadores de 2013 sabe sobre o que estou falando.

Hoje, a gente não merece nada. A diretoria do Atlético desconhece a própria história do clube, não sabe nada sobre o que é ser atleticano, não conhece de futebol, nem de gestão e nem de marketing. Ainda assim, são arrogantes e cheios de si, como cabe ao homem branco e rico nessa nossa Belíndia. O que sobra de dinheiro a esse pessoal falta de cultura na mesma proporção. Acercam-se de seus iguais, não ouvem o torcedor comum, vivem numa bolha de pobreza intelectual e de ideias. O tempo veio e atropelou sem dó esse pessoal.

Na situação de emergência em que nos encontramos, no lugar deles eu faria qualquer coisa capaz de aproximar a torcida. Não é fazer reunião com torcida organizada. É falar à alma desse torcedor, que nunca se furtará a uma empreitada épica pra salvar o nosso Galo. É hora de agir, de botar em campo os atleticanos da base, que até outro dia estavam na arquibancada. É hora de um técnico que tenha identidade com a Massa, ainda que não tenha lá um grande cartel de títulos (Éder? Reinaldo? Léo Silva?). É hora de ingresso barato, de transparência, de pedido de desculpas, mas também de socorro. É hora de Sette Câmara anunciar que sai tão logo garanta a permanência na Série A, ele e sua turma.



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