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Estado de Minas DA ARQUIBANCADA

O Atlético é um vazio de ideias

A cúpula alvinegra pretende repetir na próxima temporada as mesmas estratégias das duas últimas, que não deram certo


postado em 26/10/2019 04:00 / atualizado em 25/10/2019 22:03

O presidente do Atlético, Sérgio Sette Câmara, em entrevista coletiva na Cidade do Galo nessa quinta-feira(foto: Bruno Cantini/Atlético)
O presidente do Atlético, Sérgio Sette Câmara, em entrevista coletiva na Cidade do Galo nessa quinta-feira (foto: Bruno Cantini/Atlético)


Enfim, o alemão botou a cara, já não era sem tempo. Sette Peles deu longa e desenvolta entrevista, é um advogado e professor cuja capacidade discursiva faz jus a ambos os ofícios, está de parabéns. Em comparação com seu igual na política de House of Mãe Joana, Jair Bolsonaro, é Churchill versus Dilma a saudar a mandioca.

Sua oratória, no entanto, não foi capaz de esconder a qualidade do suco que o atleticano será obrigado a engolir. Espreme-se a hora e meia de conversa do presida e o sumo que se tem é mais do mesmo: a receita que já deu errado em duas temporadas vai se repetir, na esperança de que o acaso confira um paladar aceitável à já manjada gororoba. Benditos 45 pontos!

“Dinheiro para fazer aquisição de jogadores, dinheiro mesmo, não tem”, disse o presidente. “Na verdade, o que vamos tentar fazer são escambos.” Coitado da gente. Escambos – ao fim e ao cabo, este é o plano para 2020. Se ainda houvesse bobo no futebol, e se ainda houvesse Kalil, até poderíamos empurrar um Werley na troca por um São Victor, um Daniel Carvalho por um Pierre. Mas bem sabemos o que virá no “escambo” do Zé Welison, do Maidana e do Terans.

É assustadora a mediocridade a que se deixou submeter um clube que lutou tanto para voltar ao seu lugar de direito, em respeito à sua história e à sua torcida. E em tão pouco tempo. A despeito da forma, o conteúdo exposto pelo presidente é de um vazio constrangedor. Fundamentalmente o seguinte: não há dinheiro, e se não há dinheiro vamos trocar jogadores de um elenco mediano por outros jogadores medianos, de preferência mais jovens, porque são desconhecidos e baratos.

A atual direção do Atlético é um vazio completo de ideias. Quem sabe não poderiam estagiar no Bahia ou no Athletico? Não consta que esses dois clubes estejam nadando em dinheiro, não estão. Tome o caso do Bahia. À parte o consistente trabalho que faz em campo, ano passado criou um Núcleo de Ações Afirmativas para fazer do futebol um espaço de discussão sobre racismo, homofobia, assédio às mulheres, intolerância religiosa. Na última rodada, entrou em campo com uma camisa “manchada” de óleo, em protesto contra o derramamento de petróleo no litoral nordestino.

O futebol não é só futebol, e não é só dinheiro – e essa visão pode até significar... dinheiro. O Bahia é, hoje, o segundo time de uma parte crescente da torcida brasileira. Eu, atleticano, comprei uma camisa do Bobô. Um time que antes, a distância, não suscitava em ninguém maiores emoções, é visto hoje como um oásis de consciência em um meio idiotizado e idiotizante. O Bahia se agigantou como nunca antes, e o que se vê em campo parece apenas a extensão do que se passa em seus bastidores. Já o Atlético considera que os gritos homofóbicos da arquibancada precisam parar porque do contrário “seremos punidos com a perda de pontos no campeonato”.

À exceção do estádio, que levará anos até ficar pronto, o que mais se pode fazer para superar a falta de dinheiro, além de comprar e vender atletas sem que eles nem sequer cumpram um mínimo do potencial que têm no próprio Atlético? Que papel inovador pode ter o marketing nessa história, inclusive no que se refere às ações afirmativas?

A torcida precisa de uma “ouvidoria” ou de mais representação no Conselho? O clube precisa de uma “reforma política” capaz de fomentar uma oposição participativa e de qualidade? Como superar o exaustivo e ineficiente troca-troca de técnicos? Os técnicos brasileiros estão superados? Que tipo de planejamento pode atrair um profissional como Jorge Jesus, que bem poderia ter vindo para o Galo antes do Flamengo?

As respostas nem triscam nas cabeças dos nossos dirigentes, apenas (maus) operadores no escambo de pessoas.

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