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Estado de Minas DA ARQUIBANCADA

O Galo é do povo, e o povo vai levá-lo nas costas

"Nada, nenhum dirigente, nenhum jogador é mais importante do que essa união sinistra entre o Galo e o seu torcedor, algo que transcende o futebol e cuja explicação só se pode achar no exercício do amor"


postado em 09/11/2019 04:00 / atualizado em 08/11/2019 22:31

No Mineirão, a Massa empurrou o Atlético para a vitória contra o Goiás por 2 a 0, na quarta-feira(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
No Mineirão, a Massa empurrou o Atlético para a vitória contra o Goiás por 2 a 0, na quarta-feira (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)


O que aconteceu na última quarta-feira no Mineirão, quando o Atlético bateu o Goiás por 2 a 0, é o fato mais importante de toda a temporada: a prova cabal de que o Galo é a sua torcida, e que não há Atlético se não houver o atleticano. O Galo é do povo, e o povo sempre o levará nas costas, no gogó e no coração.

O mais notável equívoco das gestões Kalil e pós-Kalil foi deixar-se levar pela moda da elitização dos estádios. Sim, houve as categorias populares de sócio-torcedor. Mas o discurso e a intenção nunca esconderam preterir o povão em favor da renda. Talvez a fórmula possa ser bem-sucedida em outros clubes. No Atlético, foi e será sua derrocada. Não precisa faixa: o Galo é, sem concorrência, o time do povo.

Quarta-feira, com o ingresso a R$ 5, o povo foi chamado a salvar o Atlético, desprovido que é hoje de comando e de projeto, sob a gerência desastrada de pessoas aquém de seu tempo, sem nenhuma responsabilidade social e nenhum traquejo com o futebol. Na internet, a campanha #Trégua45Pontos foi levada a cabo pelo torcedor comum, representado na fala doce e sincera do seu Laerte, o atleticano humilde a pedir união contra o “arrebaixamento”.

No passado, houve um torcedor que se chamava Sempre, apelido que advinha de sua frequência no estádio. Reza a lenda que Sempre foi chamado ao Mineirão ainda em construção para que escolhesse em qual lado ficaria a torcida do Atlético. Sempre escolheu certo meio do campo, ficando o outro destinado às cadeiras e cabines. Cruzeirenses e americanos ocupariam cada qual a parte de trás dos dois gols, as partes que lhes cabiam no latifúndio alvinegro.

Quando enfim o Mineirão ficou pronto, nos idos de 63 (isso me lembra o Simca Chambord do Camisa de Vênus), a torcida do Atlético ocupava a porção que apanhava todo o sol, inclemente, como que a castigar aquele imenso povaréu. Sempre havia visitado o estádio pela manhã, não se dera conta da solaca. Indagado sobre a escolha que fizera, saiu-se com uma frase tão definitiva quanto aquela do Roberto Drummond. “A torcida do Atlético pode até ficar no sol”, disse, “mas é fiel feito a sombra”. (Essa história me contou o Bolivar, obrigado, xará.) Os anos que viriam, de glórias, sim, mas sobretudo de infortúnios, sofrimento e injustiça, não poderiam estar melhor alocados do que naquele forno quente a esturricar nossos miolos regados ao chope e ao tropeiro, à emoção desmedida e ao grito “mais gutural de todas as torcidas, como que arrancado da alma: Gaaaaalooo” (isso é do Juca Kfouri).

“Nós somos do Clube Atlético Mineiro”, lembrou Carlos Gustavo Mota, neto de Vicente Mota, o autor do hino do Galo. Carlos foi um dos tantos a gravar em vídeo uma mensagem de apoio ao time nos dias que antecederam o jogo contra o Goiás. Se me permite a heresia, Carlos, este é o único verso da nossa Marselhesa que eu mexeria no texto. Nós não somos DO Clube Atlético Mineiro. Vicente Mota haveria de concordar: nós somos O Clube Atlético Mineiro.

Quando o Corinthians joga, o corintiano diz “Vai, Corinthians”. Quando o Galo joga, o atleticano diz “Vamo, Galo”. Nós estamos sempre conjugados na primeira pessoa do plural. Repare na gramática da nossa resenha: NÓS contratamos o fulano, NÓS perdemos, NÓS ganhamos. NÓS somos campeões do Gelo. JOGAMOS com muita raça e amor. VIBRAMOS com alegria nas vitórias. Somos, o Atlético e o atleticano, algo que se mistura numa pessoa só.

Nada, nenhum dirigente, nenhum jogador é mais importante do que essa união sinistra entre o Galo e o seu torcedor, algo que transcende o futebol e cuja explicação só se pode achar no exercício do amor. Ou não é o amor essa conjunção carnal e espiritual entre duas partes que já não se podem mais existir senão em seu conjunto? Pode faltar dinheiro, pode faltar campo para treinar, como já faltou, pode faltar competência, honestidade, ideias – o Atlético sempre vai se salvar nesse amor eterno de seu torcedor. Sempre. Galo sempre!


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