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As luzes da cidade

A caminho de um futuro incerto, o planeta perdeu, até hoje, uma Belo Horizonte em vidas, cerca de 15 Nagasaki e Hiroshima, em apenas 1 ano


(foto: Kristina Tripkovic/Unsplash)
(foto: Kristina Tripkovic/Unsplash)

A barra do dia, as luzes e o silêncio pandêmico tornam o cenário único em uma existência. A cidade e seus semáforos piscando para ninguém. 

O cão perdido, que não tem a quem seguir, cansou, parou. Nem um ciclista para assustar. Frustrante pra cachorro!

Tempos estranhos. Para onde foram todos?! Não foram. Ficaram, mas não estão. Permanecem na casamata esperando o vírus passar pelos olhos das janelas.

A vida só voltará a ser como antes se nos refugiarmos dentro de nós mesmos. Abraçarmos a solidão como um estado natural de quem vive, do berço ao túmulo, sem a angústia que apaga todas as luzes. É preciso evoluir para sobreviver. 

Aprendemos com o vírus.

É preciso horizonte. Um Belo Horizonte para buscar caminhos. Mirar o infinito, sem perder o sentido de proximidade.

A cidade pulsa em coma induzido. Há vida a ser vivida.

Ainda há oxigênio a ser respirado no planeta. Há sexo nessa tortura. 

Pessoas nascerão para viver suas próprias epidemias, surtos de paixão, TPMs, ilusão e tédio.

Distante desses dias, antropólogos nos analisarão com frieza e curiosidade. 

Porque será precisavam tanto aglomerar para se sentirem felizes?! E as fantasias?! Já não bastavam as máscaras?!

Uma coisa é certa: aprenderam a descobrir a si mesmos, reataram laços familiares e o sentido do trabalho como necessário à subsistência.

A interdependência global real começou a ser perceptível com a pandemia de 2020. A conectividade e o sentido de tecido humano integrado à natureza começa a ser entendido, de fato, a partir de 1 milhão de vidas perdidas.

A caminho de um futuro incerto, o planeta perdeu, até hoje, uma Belo Horizonte em vidas (2.787.785 pessoas). Cerca de 15 Nagasaki e Hiroshima em apenas 1 ano.

Foram necessários mais de 300 mil mortos para que um “gênio da época” usasse máscara e esboçasse, mesmo que contrariado, algum sentimento pelas vidas perdidas no seu país. 

Asfixia política é mais eficiente do que covas preenchidas.

Nossos investigadores futuros nos verão como seres pré-históricos, cujo cérebro do dirigente maior merecerá estudo especial para encontrar os marcadores genéticos e fisiopatológicos da perversidade e falta de caráter.

A dificuldade será encontrar, num crânio vazio, massa encefálica a ser estudada.

Mas, arqueólogos usando técnicas especiais descobrirão os sonhos ditatoriais do governante: - Império de Messias I, II, III e IV.

Catástrofe secular! Ainda bem que não passou de um neurônio delirante psicótico. 

Abortado o delírio, imperam os princípios democráticos e o país volta a ser o país do futuro.

Será?!

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