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Viagens

"Somos bem mais que canecas. Somos companheiros de viagem e do sonho da vida que bebemos juntos"


(foto: Israelbest/Pixabay)
(foto: Israelbest/Pixabay)

Há poucos dias um repórter me perguntou se eu tinha algum hobby, ou colecionava alguma coisa. Respondi que sim! Além de apaixonado por música e ciclismo, coleciono canecas e ímãs de geladeira. Por quase todos os lugares pelos quais passo, invariavelmente, compro uma caneca e um ímã de lembrança.

O motivo é simples: lembrar!

Tal qual um slide (atual.ppt) que usamos para dar aula, a caneca serve como uma cola para não esquecermos os lugares pelos quais passamos. São como rastros que podemos percorrer pela manhã, ou a qualquer hora do dia em que precisarmos usá-las.

A caneca é o hiato necessário da mente, entre o raciocínio e o descanso. Ninguém sabe, mas você sabe o que significou aquela viagem que se encontra na alça e no fundo daquela caneca.

É como se você, a cada gole do líquido ingerido daquela caneca, se transportasse em fração de segundos e viajasse para o local de origem do receptáculo. O curioso é o poder que a caneca tem apenas sobre você, e mais ninguém.

Quem não viveu o ato da compra da caneca, não lhe dá a menor importância. Trata-se de uma coisa de cerâmica, de porcelana ou de um vidro qualquer, que pode se quebrar, e quebra.

Quando quebra, morre em você um pedaço de sua memória. Caneca quebrada, neurônio perdido.

Para os outros, apenas cacos a serem catados e desprezados. Às vezes, sem o devido cuidado de um sepultamento digno, nem para o lixeiro que pode se ferir ao coletar aquele passado.

Há poucos dias, entre uma mudança e outra, me reencontrei com canecas que haviam ficado guardadas numa caixa da mudança anterior.

Foi como se eu me reconciliasse com o passado e minha própria vida. Neurônios de memória recuperados. Milagre da caneca!

Mudanças servem para isso - reencontrar coisas perdidas e despedir-se de outras que já não faz mais sentido algum guardar.

Confesso que tenho enorme dificuldade de despedir-me de quinquilharias que ficam no fundo de gavetas esquecidas. Não por desprezo, mas por simples dificuldade de descartar o passado. Mesmo que elas já não façam sentido algum para você, ou para quem quer que seja.

Do mesmo jeito que me reencontrei com minhas canecas, me despedi com dor no coração dos programas de inúmeros congressos que participei ao longo de décadas.

Peso que carreguei por aeroportos do mundo inteiro, e me custaram suor e dólares por excesso de bagagem, agora vão para o lixo. Alguns deles com anotações e projetos esquecidos.

Enfim, precisamos de mais espaço para guardar novas quinquilharias...

"A vida é assim", como dizia meu velho amigo e meio de campo do nosso saudoso Time da Rua, encontros e despedidas.

Se das coisas é difícil de nos despedirmos, imagine das pessoas! De quase 3 mil que partem todos os dias nesses tempos de pandemia.

Pessoas que não sabemos quem são, escondidas nos mais diferentes locais desse país, mas viram o mundo acontecer junto com você. Vibraram com um gol do Brasil ao mesmo tempo que todos nós. Choraram junto com cada um de nós a morte do Ayrton e de tantos que nos emocionaram.

Pessoas com as quais compartilhamos o mesmo ar, que lhes faltou no final, e sobrou de herança para nós.

Curioso como há gente que não se toca com isto. Simplesmente recolhem os corpos e enterram. Exatamente como aqueles que recolhem os cacos da minha caneca quebrada e os desprezam de qualquer forma, sem um pingo de respeito pelo que foi perdido.

Somos bem mais que canecas. Somos companheiros de viagem e do sonho da vida que bebemos juntos.

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