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Estado de Minas CARLOS STARLING

COVID e a suspensão do futebol: 'O gol contra?!!'

Sendo os jogos de futebol atividade ao ar livre, e com os envolvidos com testes negativos de COVID-19, probabilidade de transmissão do vírus é virtualmente nula


(foto: Capri23auto/Pixabay)
(foto: Capri23auto/Pixabay)

Em ciência, nem sempre o que se procura é o que se acha. Muitas vezes, o que não se procura é achado, e melhor, se transforma em algo tão ou mais importante do que era procurado.

Traduzindo, o efeito colateral de um medicamento pode se transformar na solução de um outro problema, o qual não era o objetivo inicial do estudo. O exemplo clássico e mais próximo de todos nós é o do medicamento Sildenafila, vulgo Viagra.

Inicialmente pesquisado para tratamento da hipertensão pulmonar, este medicamento apresentava um curioso efeito colateral nos pacientes. Homens e mulheres que já haviam pendurado a chuteira voltaram a bater um bolão.

Como diria o filósofo Dadá Maravilha, não existe gol feio, feio é não fazer gol. No caso dessa descoberta, foi um gol de placa, sem querer, conhecido popularmente por jogadores de todos os esportes como "cagada".

Pois bem, foi algo parecido com isto que aconteceu com o protocolo que desenvolvemos para a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). O objetivo inicial era elaborar regras que permitissem o retorno seguro do futebol durante a pandemia, a exemplo do que vinha sendo feito pelas várias ligas europeias de futebol e inúmeras empresas mundo afora.

Fomos contatados e convidados pelo doutor Sérgio Wey, professor da Universidade Federal de São Paulo, para integrar a equipe coordenada pelo doutor Jorge Pagura, da CBF, para estudar e contribuir na elaboração de regras de segurança para que a competição acontecesse.

Fica aqui registrado o meu conflito de interesse com o tema - sou apaixonado por futebol.

Após longas discussões, que envolveram colegas de várias especialidades e de todo país, concluímos um protocolo tão rígido e complexo que duvidamos da possibilidade de implementá-lo num país com as dimensões do nosso.

Mesmo assim, este exoesqueleto ficou de pé e andou para frente, apenas com recursos da iniciativa privada.

O trabalho se transformou, certamente, no maior levantamento de dados referentes à COVID-19 envolvendo o futebol mundial. Foram realizados mais de 90 mil testes pela PCR para a detecção de SARS-CoV-2, vulgo novo coronavírus, numa população de 13.237 atletas masculinos e femininos, em 2.423 partidas de futebol (3.635 horas de jogo), os quais foram também submetidos a mais de 116 mil inquéritos epidemiológicos analisados pela Comissão Médica Especial da CBF.

A análise de 67 interações em que o time adversário tinha, pelo menos, três atletas afastados por serem PCR positivos para o SARS-CoV-2, evidenciou que o risco de transmissão do vírus, durante a realização do jogo, foi nula.

A vigilância ativa, por meio de testagem ampla pela PCR, aliada a inquérito epidemiológico pré-jogo, impediu que jogadores infectados pelo coronavírus, incluindo os assintomáticos, participassem das partidas.

Os dados epidemiológicos e a análise estatística não mostraram nenhuma associação entre a incidência de infecção nos clubes e as cidades de origem destes times. Ou seja, a realização das partidas de futebol, com as regras estabelecidas pelo protocolo, em nada afetaram o curso da epidemia nas cidades onde os jogos foram realizados. Da mesma forma, a epidemia nas cidades não afetou os clubes.

Apesar do contato próximo durante os jogos de futebol e do alto risco de transmissão comunitária de COVID-19 no Brasil, a transmissão do SARS-CoV-2 durante os jogos não foi observada na temporada 2020-2021 entre os jogadores e árbitros.

A análise de mobilidade dos jogadores, feita por pesquisadores alemães com a utilização de GPS, provou que, durante um jogo de 90 minutos, o contato máximo que um jogador tem com outro a menos de 1 metro de distância, não dura mais que que 1 minuto e 30 segundos, o que é bem menor que os 15 minutos necessários para que haja transmissão do vírus, conforme as definições de contato de alto risco do CDC de Atlanta - USA.

Além disso, sendo a atividade ao ar livre, e estando todos os envolvidos com testes pré-jogo com resultado negativo pela PCR para o SARS-CoV-2, a probabilidade de transmissão do vírus é virtualmente nula.

Por uma única falha de comunicação, em uma partida da série B, um jogador com teste PCR positivo jogou por 45 minutos. Todos que estavam em campo foram testados nos dias subsequentes. Ninguém foi infectado.

Surtos investigados que ocorreram nos clubes, em sua quase totalidade, foram por quebra do protocolo pelos jogadores ou membros da comissão técnica e dirigentes.

Merece destaque: não houve óbitos entre os atletas e menos de 0,1% necessitou internação. Destes, todos estão recuperados, sem sequelas, e já voltaram a jogar pelos seus clubes.

Mas as principais conclusões e legados deste estudo estão longe do mundo futebolístico. O estudo evidenciou que poderíamos ter tido, no Brasil, cerca da metade do número de casos de COVID-19 que tivemos e, consequentemente, milhares de óbitos a menos.

Bastaria termos testado o maior número de pessoas possível pela PCR e, consequentemente, os indivíduos positivos ficassem isolados por pelo menos 10 dias. Estudos têm confirmado que mais de 60% das infecções são causadas por pessoas sem sintomas ou antes de apresentar os primeiros sinais da doença.

Novidade? Claro que não!

Esta foi a mesma estratégia utilizada por vários países, principalmente os asiáticos. Exatamente os mesmos que mantiveram PIB positivo em plena pandemia, provando que proteger as pessoas é a melhor maneira de proteger a economia.

Vale lembrar que a cadeia produtiva do futebol no Brasil garante a sobrevivência direta de milhares de famílias e movimentou, em 2018, cerca de R$ 59,2 bilhões, com um impacto em 0,72 % do nosso PIB.

O futebol já foi tachado de "o ópio do povo". Claro, depende do contexto e de quem o analisa.

Nesse caso e nesse momento que vivemos, o futebol, assim como as deliciosas lives do Caetano, Gil, e tantas outras, podem ser o bálsamo para amenizar a dureza do isolamento social de uma pandemia que nos roubou o horizonte, mas não o belo da esperança.

A indústria do entretenimento, reinventada na sua forma de se relacionar com o grande público, e respaldada por protocolos cientificamente validados, é mitigadora da depressão e da angústia, que, por sua vez, têm elevado os índices de distúrbios mentais e suicídio durante a pandemia.

Choramos nossos mortos, mas com a postura ativa de reduzir danos futuros. Para que isso ocorra, não basta olhar a temperatura na porta de estabelecimentos. É necessário que as pessoas sejam testadas, as assintomáticas identificadas e orientadas a se afastar do convívio social por um período mínimo de 10 dias. Apenas ter febre é um sintoma pouco confiável nessa doença.

Como tudo em ciência, o protocolo de segurança no futebol e em todas as outras atividades é uma peça viva, que deve ser aperfeiçoado a ponto de romper com os novos desafios impostos pelas incertezas da pandemia.

As variantes virais, assim como os belos chutes de craques como Nelinho e Eder Aleixo, têm rumo incerto e só a ciência explica o seu comportamento.

Mas, e o gol contra na epidemia? Quem fez?

Algumas torcidas invadiram o campo do bom senso e promoveram aglomerações. Estas, assim como seus respectivos times, deveriam ser punidos pelo mau comportamento de fanáticos inconsequentes.

O vírus deve ser visto como um técnico rigoroso que exige disciplina, respeito pelo semelhante, principalmente pelo seu adversário, que não é inimigo, mas apenas colega de trabalho.

Alguns jogadores de grande visibilidade pisaram na bola e fizeram jogo sujo, prejudicando a si mesmos, suas famílias e a sociedade a qual pertencem. Cartão vermelho para o antijogo epidêmico.

Mas os piores exemplos foram dados exatamente por quem quis usar o futebol como "ópio".

Quem foi que aglomerou, promoveu aglomerações, menosprezou as máscaras, banalizou cuidados higiênicos, incentivou drogas sem comprovação científica e, principalmente, desdenhou das vacinas?

E pior, quem influenciou uma parte significativa da população a não respeitar as regras fundamentais para conter a disseminação viral?

A primeira parcela da conta está chegando agora. Em um país literalmente asfixiado pela insensatez, arrogância e incompetência, teremos que nos submeter a uma intubação sem a anestesia do futebol.

Tenho certeza que o leitor inteligente identificou muito bem quem fez a lambança.

Apesar de todo esforço realizado para se estudar cientificamente um problema inédito, ficará valendo o senso comum, o grito desesperado do técnico mal informado, e a manifestação eloquente, sem qualquer fundamento, de alguns especialistas em tudo e em coisa alguma.

Brasil estará, mais uma vez, vazio nas tardes de Domingo...

Miraram na codorna e mataram o cachorro...

*Apesar de não ser usual em crônicas, esta merece referências bibliográficas.

Referências:

JONES, Ben; PHILLIPS, Gemma; KEMP, Simon; PAYNE, Brendan; HART, Brian; CROSS, Matthew; A STOKES, Keith. SARS-CoV-2 transmission during rugby league matches: do players become infected after participating with sars-cov-2 positive players?. British Journal Of Sports Medicine, [S.L.], p. 1-7, 11 fev. 2021. BMJ.

http://dx.doi.org/10.1136/bjsports-2020-103714.

MEYER T, MACK D, DONDE K. Successful return to professional men’s football (soccer) competition after the COVID-19 shutdown: a cohort study in the German Bundesliga. Br J Sports Med 2020.

SCHUMACHER, Yorck Olaf; TABBEN, Montassar; HASSOUN, Khalid; MARWANI, Asmaa Al; HUSSEIN, Ibrahim Al; COYLE, Peter; ABBASSI, Ahmed Khellil; BALLAN, Hani Taleb; AL-KUWARI, Abdulaziz; CHAMARI, Karim. Resuming professional football (soccer) during the COVID-19 pandemic in a country with high infection rates: a prospective cohort study. British Journal Of Sports Medicine, [S.L.], p. 1-7, 15 fev. 2021. BMJ.

http://dx.doi.org/10.1136/bjsports-2020-103724
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