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Estado de Minas ANTÔNIO ROBERTO

Máscaras sociais

Há momentos para a formalidade na nossa vida social, mas precisamos de muitos momentos sem amarras, sem proteções, sem estar prevenidos


06/06/2021 04:00 - atualizado 04/06/2021 13:55


“Gostaria que você falasse sobre a sensação que tenho de estar presa, amarrada e não sei a quê. Gostaria de me libertar!”
Aparecida, de Belo Horizonte

Certa vez, fazendo uma palestra sobre a amizade eu dizia que entre nossos amigos era importante figurar um velho e uma criança. O velho para nos ensinar a prudência, a sabedoria e a criança para nos mostrar a alegria e a espontaneidade. Quando temos a sensação de estarmos presos é porque, de fato, estamos amarrados aos nossos papéis sociais, às expectativas que as outras pessoas têm de nós, ao controle que queremos exercer sobre os outros, porque perdemos a nossa espontaneidade.

A vida, por definição, é solta, livre, natural. E essa naturalidade é a base de uma pessoa feliz. À medida, porém, que somos educados, aprendemos a reprimir nossas emoções e sentimentos, formalizamos o contato com o mundo e, nos tornamos pessoas premeditadas. E aí nós nos perdemos, enquanto seres que estamos na existência para celebrá-la, usufruindo a misteriosa e prazerosa relação entre nós e o mundo.

É quando a imagem que o outro tem de nós é mais importante que nosso prazer corporal. É quando gastamos enorme energia não para sermos o que somos, mas o que os outros esperam de nós. Toda repressão começa com o medo do que os outros vão pensar a nosso respeito e o medo do castigo decorrente disto, principalmente o perigo da rejeição. Aí a representação ocupa o lugar da vida. Nós nos tornamos atores e nos apegamos excessivamente às nossas máscaras sociais: pai, mãe, chefe, rico, pobre, mulher, homem, professor, marido, esposa, adolescente etc.

Quanto mais reprimimos nossos sentimentos para nos adequarmos a estes “personagens” mais perdemos em individualidade, mais sacrificamos o desenvolvimento natural e o fluir harmonioso do nosso aparato corporal, tão necessários à nossa felicidade. A palavra personagem vem do latim: persona que significa máscara. A pessoa neurótica é aquela que vive se escondendo atrás de máscaras, de papéis, cujo objetivo é protegê-la dos outros, é distanciá-la das suas características humanas: fragilidade, imperfeição, possibilidade de errar, cair, ser ridículo, ser menor.

Reprimimos nossos sentimentos para parecermos fortes, deuses, impávidos, onipotentes e superiores. Nada mais triste do que pessoas “fortes”, que nunca deixam a peteca cair, que carrega tudo e todos nas costas, que sempre dão conta, os heróis. Essa é a expectativa que os filhos têm dos pais, que os homens têm de suas mulheres, que as mulheres têm dos maridos, que os pais têm dos filhos.

Esta imagem idealizada que temos de nós mesmos e dos outros nos encaminha para uma relação social e periférica, mesmo com aqueles com quem deveríamos ter uma relação de total intimidade e brincadeira, que é a relação de amor. Tirar a espontaneidade de alguém é arrancá-la dela mesma. E isso começa cedo: “Homem não chora”. “Seja forte, meu filho”. “Você está parecendo uma mulherzinha”. “Moça tem de ser recatada”. “Você é uma mulher casada”.

Antes que mulher, que homem, que adolescente, que negro, que chefe, que pobre, que esposa, que mãe, que filho nós somos GENTE. As necessidades naturais do ser humano devem ser atendidas prioritariamente, antes que as necessidades criadas pelos seus papéis sociais. Vivemos numa sociedade extremamente ligada à imagem. E devemos cuidar da nossa imagem perante as outras pessoas.

Devemos “vender” uma boa imagem no mundo dos negócios, no mundo público, na sociedade mais ampla. Mas isso não pode se tornar o esforço fundamental de nossa existência, a ponto de nos tornarmos escravos dessa imagem e nos fragmentar, de todas as formas, para atender às expectativas dos nossos roteiros sociais. O grande psicólogo Frederick Pearls, da Gestalt-terapia, costumava preceder as suas sessões de terapia com a leitura do seguinte texto:

Eu sou eu e você é você.
Eu faço minhas coisas e você faz as suas.
Não estou neste mundo para viver de acordo com suas expectativas e nem você está neste mundo para viver de acordo com as minhas
Eu sou eu e você é você.
Se nos encontrarmos assim, será lindo, maravilhoso, é o amor.
Se não, o quê que eu posso fazer?

A vitalidade humana, a fluência gostosa da vida acontecem quando as nossas energias emocionais são claramente expressas. Ter consciência de nossas emoções, quaisquer que sejam elas, consentir, humildemente, nelas e expressá-las da nossa maneira é o primeiro passo para relações espontâneas, naturais e amorosas. Amor e intimidade estão juntos.

O formalismo distancia. Há momentos para a formalidade na nossa vida social, mas precisamos de muitos momentos sem amarras, sem proteções, sem estar prevenidos. A vida é para ser vivida e não para ser representada. Ser livre é assumir inteiramente nossos choros, nossas tristezas, nossas raivas e, sobretudo, nosso AMOR.

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