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Estado de Minas COLUNA

Religião e dons espirituais

O apego excessivo aos sinais exteriores da religião às vezes atrapalha o crescimento espiritual


04/04/2021 04:00 - atualizado 01/04/2021 15:14


 
"Sou dentista, tenho 28 anos e sou seu admirador. Do ponto de vista do comportamento, qual é o papel da religião, de Deus, da fé na vida das pessoas?”

Fábio, por e-mail

Primeiramente, temos que distinguir entre religião e religiosidade. A religiosidade é fundamental, pois é a religação do homem com Deus, com o Universo, com o cosmo, com o todo, com o outro e consigo mesmo. É uma tendência natural do ser humano. É um impulso básico para o Infinito. Pessoas que têm uma ligação com o infinito, com o desconhecido viverão com maior abundância, maior amor ao próximo.

A religião, por outro lado, é a posse de rituais e crenças religiosas. A religião é uma escolha e um caminho para a religiosidade, um meio para se entrar em contato com a divindade. Em si, ela não é essencial e, sim, o impulso de ligação com Deus.

A religião passa a ser importante na medida em que facilita tal ligação. Todos os rituais, sons, palavras, mantras, cheiro de incenso, velas criam um clima propício para o contato com o eu interior e com o eu cósmico. A falta de religiosidade tem trazido graves consequências nas relações pessoais e sociais. O grande dom espiritual são os valores encarnados por essa espiritualidade, tais como solidariedade, amor, alegria, celebração, esperança.

À medida que falta essa espiritualidade, faltam também esses valores. Aí acabam prevalecendo nos relacionamentos os valores ditados pela nossa sociedade, como competição, cobiça, esperteza, violência, ciúme. A violência aparece quando desrespeitamos o outro. Todo ato de violência é uma invasão ao espaço de alguém. É o não consentimento do outro como indivíduo, como alguém que é outro, que não eu. E isso tem a ver com os valores disseminados por uma cultura de competição que privilegia o prazer imediato acima de tudo.

De repente, quero dinheiro, então destruo alguém. Quero o carro do outro, simplesmente tomo.

Quero um filho, vou à maternidade e roubo um bebê.

O prazer em si é bonito e sagrado. Todos o buscamos, mas não pode ser a qualquer preço. Há hora para adiar o prazer ou abrir mão dele em função da realidade. A verdadeira religiosidade nos ensina a conjugar o material com o espiritual, o imediato com o depois, o prazer com a realidade. E entre todos esses valores, o principal deles é o amor, com todos os seus ingredientes de alegria, encantamento, serenidade, paciência e paz.

Pessoas, que se dizem religiosas e não são amorosas na verdade não o são.

Ter uma religião é fácil. Basta entrar para uma delas, pagar o dízimo e frequentar os rituais. Ser religioso é mais difícil, porque supõe um caminho de crescimento na tolerância, no respeito a todos os seres, na honestidade com a realidade, no amor real a Deus.

Como entender a guerra entre religiões, cada uma matando em nome do seu Deus?

É que lhes falta a religiosidade. Uma pessoa amorosa não mata em nome do amor. O apego excessivo aos sinais exteriores da religião às vezes atrapalha o crescimento espiritual, nos infantilizando na relação com Deus e nos tornando cada vez mais supersticiosos.

Uma forma infantilizada, por exemplo, de nos ligarmos a Deus é vê-lo apenas como protetor, a quem recorremos constantemente à espera do milagre. Deus só faz uma parte do milagre. A outra nós temos de completar. O maior milagre ele já fez: nos deu a vida. A construção é nossa. Deus não nos substituirá. Senão, não precisaríamos existir. A ideia do milagre sem nossa participação é alienante e nos leva à acomodação.

Pode ocorrer a intervenção direta de Deus, mas grande parte dos milagres têm de ter nosso esforço, nossa dedicação. Estamos sempre pedindo coisas a Deus. Sempre querendo a sua proteção. É uma forma quase supersticiosa, como um amuleto. Deus nos protegendo do mal como se ele estivesse fora de nós.

Nossa relação com Deus deve também primar pelo amor. Algumas religiões têm, por prática, o agradecimento a Deus por todas a as dádivas que Ele nos dá, a começar pela vida. Ele nos deu o livre-arbítrio. Ele está mais interessado em nos fazer construtores do nosso mundo.

Muitas vezes, pensamos em Deus nos momentos de sofrimento. Na verdade, dois caminhos nos encaminham à realidade. O amor e a dor. Pessoas alegres, amorosas e celebrativas vão encontrar Deus necessariamente. A solidariedade, a compreensão do outro e a compaixão nos colocam em sintonia com algo mais profundo. Um coração religioso é um coração com Deus dentro. A dor, a perda, a tristeza profunda também nos despertam porque nos colocam em contato com os limites humanos, com a transitoriedade e esbarramos na necessidade da transcendência. Mas para que a religião não se torne oca, sem sentido, periférica ela deve virar comportamento.

Religiosidade é uma forma de viver. A graça supõe a natureza. Há algum tempo, alguém me perguntou por que eu falava muito pouco de Deus nos meus programas da televisão. A minha resposta, na qual acredito piamente, foi: “Deus não é para ser falado, mas para ser vivido”.

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