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Estado de Minas COLUNA

Mulher solteira

Essa insistência social de dar muito valor ao fato de estarmos casados ou namorando nos induz a um desleixo no valor de estarmos felizes


28/02/2021 04:00 - atualizado 26/02/2021 11:15


“Sou de Pouso Alegre, solteira, e o meu grande problema na vida é a solidão. Vou ter que sentir isso sempre ou vou encontrar um companheiro?”

Joana Athaide

A cultura americana expressa claramente nos filmes de Hollywood sempre enfatizou que a felicidade só pode ser alcançada através do casamento. Quem não se lembra dos finais dos filmes românticos, quando o casal se afasta abraçados e “foram felizes para sempre”? A mensagem subliminar, falsa, perigosa e cruel é que você só se realiza por intermédio de outra pessoa. E essa ideia se internalizou em nós, principalmente nas mulheres, de tal forma que toda nossa energia vital não é canalizada para aprendermos a ser felizes, mas para arranjar um(a) namorado(a) e se casar.

Daí os sentimentos angustiantes de solidão, do medo de ficar só. O que dói e provoca a sensação de desamparo não é o fato de não ter um companheiro, mas a crença alimentada em toda a sua vida de que ela só será feliz quando tiver alguém e que é justo e natural sofrer por não ter ainda este alguém.

Há uma profunda diferença entre “estar só” e “solidão”. O estar só é um fato objetivo. Cada um de nós, em alguns momentos ou em alguma etapa da vida, pode estar só. A singularidade de cada pessoa, a unicidade do indivíduo atestam “o só” como condição básica e fundamental do homem. E é a partir deste “só” que nos unimos às outras pessoas. Tentar acabar com esse “vazio” natural do ser humano a partir de outra pessoa é a raiz do controle e das frustrações nos relacionamentos.

Inúmeras vezes tenho ouvido frases que denotam esta crença: “Ele não me fez feliz”, “Vou fazer você feliz”. Ninguém pode fazer um outro feliz. Ou, em outras palavras, ninguém preenche as falhas da outra pessoa. A solidão, ao contrário do estar só ou da sensação natural de ser só, é um estado natural doloroso de mendicância, de carência, de falta, de necessidade. É a resistência dolorosa a uma existência autônoma, na qual eu desejo o outro, mas não tenho uma necessidade obsessiva do outro. A carência afetiva, fruto do medo do abandono, é a raiz da solidão.

Quais as consequências da solidão na nossa vida? A procura incessante do outro como fator de felicidade nos leva a escolher “qualquer” pessoa para nos preencher. Essa má escolha, feita a qualquer preço, além de não nos fazer felizes, tende ao término, e quando isso ocorre nos remete a uma solidão (carência) maior ainda do que antes do namoro ou casamento. As relações entre pessoas que têm solidão são dolorosas e frustrantes porque é o encontro de “dois mendigos”. Além da exploração mútua, esses relacionamentos se caracterizam pelo ciúme, apego excessivo, controle, posse, cobrança do amor do outro.

Na verdade, a solidão é uma incapacidade de amar. No amor, procuramos alguém para partilhar nosso afeto, nossa alegria, nossa construção de vida. Uma pessoa amorosa, mesmo que não esteja casada, leva uma vida rica e sente necessidade de alargar, cada vez mais, através das amizades, do crescimento, de sua contribuição do mundo. A autoestima de quem tem muito amor no coração não é medida pelo amor do outro. “O seu valor vem da sua capacidade de amar, e não pelo fato de ser amada.”

Quanto mais pobre for a nossa vida psicológica, mais solidão sentiremos, mesmo se estivermos com alguém. E quanto mais rica, mais amor e menos solidão, mesmo sozinhos. Essa insistência social de dar muito valor ao fato de estarmos casados ou namorando nos induz a um desleixo no valor de estarmos felizes. Talvez esse seja o motivo principal porque a maioria dos relacionamentos se deteriora. As pessoas, ao se encontrar, param de crescer emocionalmente, de desenvolver o próprio potencial, de incrementar o autoamor, de procurar, enfim, os seus caminhos próprios para a felicidade.

Trocar de marido, de mulher, de namorado não vai adiantar nada enquanto acreditarmos que alguém pode nos fazer felizes ou acreditar que ser só é sinônimo de tristeza e fracasso. Ser feliz é algo pessoal, inalienável e intransferível. É uma batalha individual. E quando alguém consegue ser feliz, ainda que só, é maravilhoso querer alguém para compartilhar com ele da sua luz e alegria.

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