COMBINAÇÃO DE FATORES

O que matou Gabriel Ganley? Laudo revela causa real da morte aos 22 anos

Condição apontada no atestado de óbito do influenciador é a principal causa de morte súbita em atletas jovens; saiba os sinais que o corpo costuma dar

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O atestado de óbito do fisiculturista e influenciador digital Gabriel Ganley, de 22 anos, encontrado morto em seu apartamento em São Paulo no último sábado (23/5), aponta que ele teve morte súbita causada por cardiomiopatia hipertrófica.

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O jovem, que se preparava para competir no Musclecontest Brasil em julho, havia relatado publicamente o uso de anabolizantes e insulina para potencializar seus resultados. O caso reacendeu a discussão sobre a banalização do uso de hormônios dentro do universo fitness e o culto ao corpo “perfeito”.

Anabolizantes

Medicamentos classificados como de uso controlado, os esteroides androgênicos anabolizantes são substâncias sintéticas, derivadas do hormônio testosterona, o chamado “hormônio masculino”, associado a características como barba, cabelo e pelos. Também se caracterizam pela capacidade anabólica.

De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a venda de anabolizantes é permitida somente em farmácias e drogarias devidamente regularizadas e mediante apresentação de receita especial. Qualquer medicamento anabolizante que não esteja autorizado pela Anvisa é considerado ilegal. 

Uma resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) proíbe a prescrição médica de terapias hormonais com esteroides androgênicos e anabolizantes para fins de estética, ganho de massa muscular ou melhora do desempenho esportivo.

Mas e o laudo?

De acordo com a Diretriz sobre Diagnóstico e Tratamento da Cardiomiopatia Hipertrófica – 2024, a cardiomiopatia hipertrófica atinge cerca de 20 milhões de pessoas no mundo, sendo a maioria homens (70%). A condição também é uma das principais causas de morte súbita em atletas. Destes, 30% a 40% correm o risco de morte súbita. Em geral, ela tem maior incidência em indivíduos mais jovens, com menos de 40 anos.

Conversamos com Augusto Vilela, cardiologista, diretor do Instituto do Coração de Fortaleza e representante do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), para entender onde a saúde do coração entra quando se fala de anabolizantes, prática de atividades físicas e doença genética. Confira:

O que o senhor, como cardiologista, sentiu ao tomar conhecimento do caso?

Sentimento de tristeza profunda, primeiro. Um jovem de 22 anos, cheio de vida, com sonhos, com uma carreira sendo construída. Mas, infelizmente, como cardiologista, não me surpreendeu. Esse é um cenário para o qual a cardiologia esportiva vem alertando há anos. A gente está diante de um problema de saúde pública que cresce silenciosamente nas academias, nas redes sociais, nos vestiários. E, quando acontece, é devastador, porque é rápido, é jovem e é evitável.

O laudo aponta para miocardiopatia hipertrófica. Para quem não é da área médica, o que é isso?

Miocardiopatia hipertrófica, vou chamar de MCH para facilitar, é uma doença em que o músculo do coração fica excessivamente espesso, principalmente na parede do ventrículo esquerdo, que é a câmara responsável por bombear sangue para o corpo inteiro. Esse espessamento pode ser genético, herdado da família, ou pode ser induzido por fatores externos, e aí entram as substâncias que o Gabriel usava.

O problema é que um coração hipertrofiado de forma patológica é um coração elétrica e mecanicamente instável. Ele tem dificuldade para relaxar, pode ter obstrução ao fluxo de saída do sangue e, o mais perigoso, torna-se terreno fértil para arritmias graves, como a fibrilação ventricular, que causa morte súbita. A MCH é, na verdade, a principal causa de morte súbita em jovens atletas com menos de 35 anos. Isso está bem documentado na literatura científica.

Gabriel havia relatado publicamente o uso de anabolizantes esteroides, insulina e pré-treinos. Como cada uma dessas substâncias age no coração?

Cada uma dessas substâncias, isoladamente, já representa um risco. Juntas, formam um coquetel cardiotóxico de alta periculosidade.

Sobre os anabolizantes esteroides androgênicos: os anabolizantes, testosterona sintética e seus derivados, agem nos receptores androgênicos de todo o organismo, inclusive no músculo cardíaco. O coração não distingue “músculo bom” de “músculo ruim”. Então, enquanto o bíceps cresce, o coração também cresce.

Mas o crescimento cardíaco induzido por anabolizantes é patológico: aumenta a espessura da parede, reduz a capacidade de relaxamento, provoca fibrose, que é uma cicatrização do tecido cardíaco, e desequilibra o sistema elétrico. Além disso, os anabolizantes elevam o LDL, o colesterol ruim, e reduzem drasticamente o HDL.

Já vi jovens de 30 anos com perfil lipídico de um idoso de 60 com doença coronariana avançada, tudo por anos de uso de esteroides. O risco de infarto, arritmia e morte súbita é real e documentado.

Sobre a insulina: esse é talvez o risco mais imediato e mais traiçoeiro. A insulina é usada no fisiculturismo para aumentar o transporte de glicose e aminoácidos para dentro do músculo, potencializando a hipertrofia. Mas é um hormônio de precisão cirúrgica, e qualquer desvio pode ser fatal. Se o atleta aplica insulina e não ingere carboidratos suficientes, ou se erra a dose, entra em hipoglicemia severa.

O cérebro fica sem combustível, o sistema nervoso entra em colapso, e o coração, que também depende de glicose, começa a desenvolver arritmias. Uma hipoglicemia grave pode causar fibrilação ventricular e parada cardíaca. E o pior: acontece rapidamente, muitas vezes enquanto a pessoa dorme, sem dar tempo de pedir socorro. O próprio Gabriel havia relatado um episódio anterior de confusão mental após usar insulina. Era um sinal de alerta que, infelizmente, não foi suficiente para interromper o uso.

Sobre os pré-treinos: os suplementos pré-treino contêm, em geral, uma combinação de cafeína e taurina em doses elevadas, beta-alanina, citrulina e, em muitos casos, substâncias estimulantes adicionais. A cafeína em altas doses já é capaz de induzir taquicardia, elevar a pressão arterial e provocar arritmias, especialmente em um coração já hipertrofiado e com fibrose. Num coração com MCH, um pré-treino com megadose de cafeína pode ser o gatilho que desencadeia uma arritmia fatal durante o treino. É como jogar gasolina em uma brasa que já estava acesa.

Então, no caso do Gabriel, pode ter havido uma combinação de fatores?

Exatamente. E é isso que torna esse caso tão emblemático e tão didático, por mais triste que seja. Se a MCH estava presente, seja de origem genética ou induzida pelos anabolizantes, o coração já estava vulnerável. Os anabolizantes, usados por meses, podem ter espessado ainda mais o músculo cardíaco, aumentado a fibrose e criado focos de instabilidade elétrica.

A insulina pode ter adicionado o risco agudo de hipoglicemia severa, com seus efeitos diretos sobre o ritmo cardíaco. E os pré-treinos funcionam como aceleradores de arritmia num coração já comprometido. Quando esses três fatores se somam, o risco de morte súbita deixa de ser uma possibilidade remota e se torna uma probabilidade real. O organismo de Gabriel tinha apenas 22 anos, mas o coração dele pode ter estado muito além da sua idade cronológica.

Mas muita gente usa essas substâncias e não morre. Como o senhor explica isso?

Essa é uma das perguntas mais importantes e mais perigosas que existem. Porque é exatamente esse raciocínio que mata. “Fulano usa há 10 anos e está bem.” Isso é o viés do sobrevivente. Você não vê os que morreram, os que sofreram infartos silenciosos, os que têm miocardiopatia diagnosticada depois dos 40 anos sem entender de onde veio. O uso de anabolizantes esteroides produz dano cumulativo e progressivo ao coração. Parte desse dano é silenciosa por anos.

E existe uma variável importantíssima que muda tudo: a genética individual. Algumas pessoas têm predisposição genética para MCH, para arritmias, para síndrome do QT longo. Elas usam essas substâncias sem saber que têm uma bomba-relógio no peito. O Gabriel pode ter sido exatamente esse caso. Sem avaliação cardiológica prévia, sem rastreamento genético, sem ecocardiograma e sem Holter, o jovem não tinha como saber do risco que corria.

O senhor mencionou avaliação cardiológica. Isso é feito antes de entrar para o fisiculturismo competitivo?

Deveria ser. Não é. E aí está um dos grandes problemas. No esporte de alto rendimento regulamentado — atletismo olímpico, futebol profissional, por exemplo — existe exigência de avaliação pré-competitiva com ECG, ecocardiograma e teste ergométrico. No fisiculturismo, especialmente nas categorias amadoras e semiprofissionais, essa exigência praticamente não existe. Qualquer pessoa se inscreve, passa por uma avaliação superficial de aparência e vai para o palco. Sem saber o que tem no coração.

E, antes do palco, passa meses usando substâncias que, num coração geneticamente vulnerável, podem ser letais. Precisamos urgentemente de protocolos obrigatórios de avaliação cardiológica para atletas do fisiculturismo. A Sociedade Brasileira de Cardiologia tem diretrizes claras sobre isso, mas faltam regulamentação, fiscalização e consciência.

O senhor acompanha muitos jovens que chegam ao consultório após usar essas substâncias. Qual é o quadro que você mais encontra?

Infelizmente, sim. E o quadro mais comum é o jovem de 25 a 35 anos que chega com palpitações, pressão alta e, no ecocardiograma, apresenta hipertrofia ventricular esquerda desproporcional, às vezes com espessura de parede que, em outra situação, eu esperaria ver em um cardiopata de 60 anos. O perfil lipídico é assustador: HDL de 20, 25 mg/dL, quando o normal seria acima de 40. E, às vezes, já há fibrose detectada na ressonância magnética cardíaca.

Esse jovem não sente nada no dia a dia. Treina pesado, parece saudável, tem aparência atlética. Mas o coração está silenciosamente comprometido. E aí, num dia de treino mais intenso, numa competição, num pico de adrenalina, o coração entra em colapso. É o cenário que a literatura chama de “morte súbita do atleta aparentemente saudável”. Aparentemente.

O que o senhor diria diretamente aos jovens que hoje assistem aos conteúdos de influenciadores fitness e pensam em usar essas substâncias?

Diria com toda a clareza que tenho como médico e como ser humano: o coração não mente. Você pode enganar a balança, pode manipular o espelho com substâncias, pode ter um físico impressionante em foto. Mas o coração guarda cada agressão que você faz a ele. Silenciosamente. Acumulativamente. E cobra a conta de uma forma que não dá segunda chance.

Gabriel Ganley tinha 22 anos. Tinha sonhos, tinha seguidores, tinha futuro. E não vai poder realizá-los. Isso não foi azar. Foi uma cadeia de riscos que se somaram em um organismo jovem e vulnerável, sem acompanhamento médico adequado.

Não estou dizendo que ninguém pode competir no fisiculturismo. Estou dizendo que qualquer pessoa que pense em iniciar o uso de esteroides anabolizantes, insulina ou qualquer substância de performance precisa, antes de tudo, fazer uma avaliação cardiológica completa, com ECG, ecocardiograma, teste ergométrico, Holter e dosagem de lipídios. E precisa estar acompanhada por médico durante todo o processo. Não por um coach. Por um médico especialista.

O que esse caso representa para a cardiologia e para a saúde pública no Brasil?

Representa um alerta que não pode ser ignorado. O Brasil tem uma das maiores populações de usuários de anabolizantes do mundo. É um problema de saúde pública silenciado pela estética, pelo Instagram, pela cultura do físico perfeito. Gabriel Ganley tinha uma audiência enorme. Sua morte, tragicamente, pode salvar vidas — se for tratada com seriedade, com informação científica correta e com políticas públicas efetivas. Precisamos de mais regulamentação do fisiculturismo competitivo, mais educação médica nas academias e mais cardiologistas nas discussões sobre esporte de alto rendimento.

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