Quando o tambor chama, a alma responde: a fé que faz Minas Novas pulsar
No Vale do Jequitinhonha, a tradicional Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos oferece um espetáculo de resistência, memória e espiritualidade
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Há celebrações que encantam os olhos. Outras tocam o coração. Mas a Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha, a cerca de 540 quilômetros de Belo Horizonte, alcança um lugar ainda mais profundo: ela desperta a alma. Antes mesmo que a procissão apareça, são os tambores que anunciam sua chegada. O som reverbera pelas ruas centenárias como um chamado ancestral, rompendo o silêncio da cidade e ecoando entre montanhas e memórias.
Não é apenas música. É a voz dos que vieram antes, atravessando gerações para lembrar que fé, resistência e identidade caminham lado a lado. Cada batida do congado, cada canto entoado e cada passo ritmado carregam mais de dois séculos de devoção, preservando uma das mais belas expressões da cultura afro-mineira.
A festa religiosa é uma das mais antigas e emblemáticas manifestações de fé, cultura afro-brasileira e tradição popular do Vale do Jequitinhonha. Realizada há mais de dois séculos, a celebração une religiosidade, memória e identidade em torno da devoção a Nossa Senhora do Rosário, padroeira das irmandades negras.
Ao longo dos festejos, a cidade ganha vida com as guardas de congado, marujadas, cortejos, levantamento do mastro, coroação dos reis e rainhas do Reinado, missas, novenas, barraquinhas e apresentações culturais. Também fazem parte da celebração grupos tradicionais como o Boi-me-deu, a Banda de Taquara e a Guarda do Cofre, expressões que reforçam a riqueza do patrimônio imaterial da região.
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‘Buscada da Santa’
A Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos transforma a cidade entre os dias 15 e 25 de junho, mas seu ponto mais emocionante aconteceu em 23 de junho, quando a tradicional Buscada da Santa levou centenas de pessoas às margens do Rio Fanado, de onde, segundo a tradição oral, a imagem da Virgem foi encontrada há mais de dois séculos.
Conta a tradição que a imagem de Nossa Senhora do Rosário foi encontrada nas águas do Rio Fanado por um homem negro. Desde então, todos os anos, a emocionante ‘Buscada da Santa’ revive esse encontro entre o céu e a terra. Não é apenas uma procissão. É um retorno às origens, um chamado para que cada devoto se reconheça parte de uma história maior, onde o sagrado escolheu se manifestar por meio daqueles que tantas vezes foram silenciados.
Guardas de congado homenageiam Nossa Senhora do Rosário em bairro de BH
Lá, a espiritualidade não está restrita ao altar da igreja. Ela dança nas saias coloridas, vibra nas espadas erguidas pelos congadeiros, repousa sobre as coroas dos reis e rainhas do Rosário e se faz presente no olhar de quem acompanha a passagem das guardas. Cada gesto parece costurar o mundo visível ao invisível.
Para a designer Mary Arantes, que esteve presente na edição deste ano, a devoção à Nossa Senhora do Rosário, tão profundamente ligada à herança afro-brasileira, transforma a festa em um dos mais belos testemunhos de que a fé também é resistência: “os fiéis entram no rio, com água até a cintura, para buscar a imagem de Nossa Senhora na pedreira do outro lado. Foi de arrepiar ver a devoção na festa lá do Vale. Um ritual lindo aqui em Minas”, emociona.
Festa única
Mais do que uma manifestação religiosa, a celebração preserva rituais raros que sobreviveram ao tempo. Antes mesmo do início oficial da festa, moradores acordam ainda de madrugada para buscar água no Rio Fanado. Com ela, realizam a simbólica lavagem da Igreja do Rosário, um gesto de purificação conhecido como Quinta-feira do Angu, tradição que atravessa gerações.
Outra singularidade é que a festa mantém viva uma organização secular da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, fundada no início do século 19, responsável por preservar os ritos, escolher os reis e rainhas do Reinado e transmitir, de geração em geração, uma herança cultural que faz de Minas Novas uma das poucas cidades mineiras a conservar praticamente intacto o ritual tradicional do Rosário.
Não por acaso, os moradores se orgulham de dizer que pertencem ao "povo de Ngoma" — palavra de origem africana que significa tambor. E é justamente o tambor que conduz a celebração: ele não marca apenas o ritmo dos cortejos, mas simboliza o elo entre a terra, os ancestrais e o divino.
Esses tambores não anunciam apenas uma celebração: anunciam a permanência de um povo, de sua cultura e de sua espiritualidade. Há quem diga que, durante os cortejos, é impossível não sentir um arrepio. Não pelo espetáculo — embora ele seja grandioso —, mas pela sensação de que o tempo deixa de existir. O passado caminha ao lado do presente, e cada canto parece uma oração que atravessa gerações.
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Congado
Mais do que uma festa religiosa, a celebração é um testemunho da força da cultura afro-mineira. Ela representa a preservação das tradições das antigas irmandades negras, que encontraram na devoção a Nossa Senhora do Rosário um espaço para manter vivas suas referências culturais, musicais e espirituais, tornando Minas Novas um dos grandes símbolos do congado em Minas Gerais.