De Lagoa Santa ao mar: a saga da expedição que cruzou o Brasil em canoas
Idealizada por um grupo de aventureiros mineiros, travessia de quase 2.800 quilômetros pelos rios brasileiros marcou os anos 1990 e agora ganha novos capítulos
compartilhe
SIGA
No inverno de 1998, um grupo de jovens mineiros transformou um sonho aparentemente impossível em uma das aventuras mais extraordinárias já realizadas pelos rios brasileiros. Em canoas canadenses construídas artesanalmente em fibra de vidro, eles partiram de Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e seguiram pelo Rio das Velhas, São Francisco e Parnaíba até alcançar o litoral do Piauí, depois de aproximadamente 2.800 quilômetros de navegação.
Sem patrocinadores, praticamente sem dinheiro e dependendo da pesca, de doações e da solidariedade encontrada pelo caminho, a expedição chamou a atenção da imprensa nacional. Pela mistura de improviso, ousadia e espírito aventureiro, recebeu o apelido de "Armada de Brancaleone", numa referência ao clássico filme italiano sobre um grupo de heróis improváveis.
A aventura foi acompanhada de perto pelo Estado de Minas, que documentou a jornada desde a partida, em Lagoa Santa, até a chegada ao mar, em Luís Correia, no litoral do Piauí. As reportagens, assinadas pelo jornalista Guilherme Aragão, com fotografias de Renato Weill, registraram o cotidiano da expedição, os obstáculos enfrentados pelos canoeiros e a emocionante chegada ao oceano. A série publicada na editoria Gerais/Aventura trouxe mapas do percurso, relatos da viagem e imagens que se tornaram documentos históricos daquela travessia.
Uma das reportagens, publicada em 26 de julho de 1998, destacava na manchete "De Lagoa Santa ao Oceano" a conquista dos aventureiros após quase quatro meses remando pelos rios brasileiros. No dia seguinte, o jornal estampou uma fotografia de página inteira mostrando os expedicionários comemorando a chegada ao mar, ao lado das canoas que os conduziram durante toda a jornada.
Na época, outras publicações também compararam a travessia às viagens do explorador inglês Richard Burton, que percorreu o Rio São Francisco no século 19. A aventura ganhou espaço em revistas nacionais e foi lembrada pelo navegador Amyr Klink como um exemplo da tradição brasileira das grandes expedições.
Décadas depois, porém, um dos idealizadores da jornada afirma que parte da história permaneceu desconhecida.
Leia Mais
"O rio nasceu em mim"
Marcelus Macedo Cruz (Téo) afirma que o projeto começou muito antes da partida das canoas.
Segundo ele, o sonho nasceu ainda na adolescência, durante brincadeiras com jangadas improvisadas de troncos de bananeira no Ribeirão Jaboticatubas, nas proximidades de Lagoa Santa. A ideia de seguir o curso das águas até encontrar o oceano permaneceu viva por anos.
Mais tarde, ao assistir ao filme Amargo Pesadelo, Marcelus conta ter descoberto a embarcação que permitiria transformar aquele sonho em realidade: as canoas canadenses utilizadas em rios de corredeiras.
A decisão definitiva teria surgido durante uma viagem a São Thomé das Letras, quando convidou amigos para realizar a expedição que, anos depois, ganharia as páginas dos jornais.
Planejamento além da aventura
Ao contrário da imagem de improviso retratada em parte da cobertura da época, Marcelus sustenta que a expedição foi resultado de um longo planejamento.
Ele afirma ter localizado o molde das embarcações, participado da construção das canoas em fibra de vidro e definido aspectos fundamentais da logística da viagem, como a estratégia de solicitar apoio às prefeituras das cidades ribeirinhas para garantir alimentos durante o percurso.
Também convidou para integrar a equipe Luiz Carlos, amigo de infância com experiência em sobrevivência na mata.
Segundo Marcelus, seu principal objetivo era garantir que o grupo superasse o trecho considerado mais difícil de toda a viagem: a descida do Rio das Velhas.
A despedida antes do fim
O relato ganha um tom emocional quando Marcelus explica por que não concluiu a travessia.
Ele afirma que decidiu deixar a expedição em Barra do Guaicuí, na confluência entre os rios das Velhas e São Francisco, após divergências internas.
Antes disso, porém, diz ter permanecido justamente na etapa mais técnica e perigosa da navegação, conduzindo as canoas até que o grupo alcançasse águas mais seguras.
"Eu sabia que precisava sacrificar alguma coisa para que as canoas chegassem ao mar. Esse sacrifício acabou sendo a minha própria presença no projeto", recorda.
Apesar de ter deixado a jornada antes do final, Marcelus considera que sua missão estava cumprida.
Uma história contada por diferentes vozes
Ao longo dos anos, a travessia foi lembrada principalmente pelos integrantes que chegaram ao oceano. Marcelus afirma que seu nome, assim como o do amigo Adélsio Aparecido — que se juntou posteriormente ao grupo —, acabou ficando ausente de parte dos registros publicados.
Hoje, seu objetivo não é reescrever a aventura, mas preservar sua participação na origem da expedição.
"Não busco apenas reconhecimento. Busco a honra de quem plantou a semente."
O legado de uma aventura brasileira
Mais de duas décadas depois, a expedição permanece como um marco do aventureirismo nacional. Foram quase 2.800 quilômetros navegados entre Minas Gerais e o litoral nordestino, enfrentando corredeiras, tempestades, fome, escassez de recursos e longos períodos de isolamento.
As páginas do Estado de Minas eternizaram aquele feito, registrando não apenas o destino alcançado, mas a coragem de um grupo de jovens que decidiu seguir o curso dos rios movido apenas pela determinação de chegar ao mar.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Agora, quase 30 anos depois, novos relatos ajudam a ampliar a compreensão sobre uma das maiores aventuras fluviais já realizadas por brasileiros, mostrando que, por trás da epopeia registrada pela imprensa, existem histórias, versões e personagens que ainda buscam seu lugar na memória dessa travessia histórica.