O presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) se enfrentaram na noite dessa sexta-feira (23/10) no debate promovido pela TV Globo, o último antes do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para domingo (25). O encontro, mediado pelo jornalista César Tralli e transmitido ao vivo dos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, misturou discussões sobre economia, saúde e segurança pública com uma série de ataques pessoais entre os dois candidatos.
O xingamento mais lembrado da noite foi o apelido "nove dedos", usado por Flávio ao criticar a política econômica do governo: "Não adianta nada, Lula, o salário mínimo estar em 1.621 reais se você dá com uma mão e tira com os nove dedos." Lula respondeu chamando o adversário de "miliciano" e explicou que perdeu o dedo em acidente de trabalho aos 17 anos. "Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos", disse o presidente. Flávio usou o direito de resposta para falar sobre causa animal, sem rebater a acusação. Ao final do debate, afirmou que nunca foi investigado por envolvimento com milícia.
O que foi discutido em cada bloco?
O primeiro bloco girou em torno das regiões do país e de temas como infraestrutura, exportações, saneamento e aposentadorias. Flávio atacou o governo pelo número de obras paradas, citando relatório do TCU que aponta mais de 11.500 obras paralisadas. Lula rebateu dizendo que herdou 6 mil obras inacabadas e listou projetos em andamento, como a BR-319, a Transnordestina, a Fiol e a Fico.
No tema salário mínimo, Flávio acusou Lula de elevar juros e endividar a população. O presidente retrucou que, sem os governos do PT, o salário mínimo seria de R$ 900, e questionou o adversário sobre a proposta de tarifa zero nos ônibus nos fins de semana. Flávio disse ser favorável à ideia, mas criticou a carga tributária do governo e prometeu reajustar o salário acima da inflação.
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No Centro-Oeste, Lula afirmou que o Brasil abriu 700 novos mercados e aumentou o superávit comercial. Criticou a postura de Flávio durante as tarifas impostas por Donald Trump: "Quando o meu adversário ficou lambendo o Trump para taxar o Brasil, eu não fiquei preocupado." Flávio respondeu que produtores rurais enfrentam juros reais próximos de 20% e prometeu garantir recursos para o seguro rural e o Plano Safra.
Na rodada sobre a região Norte, Flávio perguntou por que a bancada do PT votou contra o Marco Legal do Saneamento Básico. Lula disse que o adversário "não conhece o Brasil" e lembrou que Jair Bolsonaro ironizou as mortes por falta de oxigênio no Amazonas durante a pandemia. Flávio questionou se quem governa o país é Lula ou o Google, em referência aos pedidos do petista para que eleitores checassem dados na plataforma.
O que foi discutido sobre dívidas e SUS?
No segundo bloco, a disputa em torno do endividamento dos brasileiros ganhou espaço central. Flávio prometeu comprar dívidas dos bancos e refinanciá-las pela Caixa Econômica Federal, com suspensão dos pagamentos por seis meses para pessoas físicas e um ano para empresas. Lula afirmou que o adversário copiava uma proposta sua, já enviada ao Senado, e disse ter enviado medida provisória para leilão de dívidas que pode alcançar R$ 150 bilhões.
No tema SUS, Lula perguntou como Flávio pretende melhorar a saúde pública prometendo cortes. "Como é que você vai melhorar a saúde? É com o tesouraço?", questionou o presidente. Flávio criticou as filas de atendimento e disse que os cortes seriam na corrupção e na burocracia. Após pressão de Lula, o senador confirmou: "Eu vou manter, sim, vou investir no SUS, sim."
O tema da licença-maternidade também gerou embate. Lula cobrou Flávio por ter votado contra a ampliação do benefício para 180 dias quando era deputado estadual. O senador admitiu o erro: "Eu estava errado. Hoje, depois que eu casei, depois que tenho duas filhas, mais do que nunca eu sei da importância da mãe estar perto do filho."
O que foi discutido sobre segurança e violência?
Flávio perguntou sobre saídas temporárias de presos, maioridade penal e classificação de facções como organizações terroristas. Lula trouxe o caso Ana Clara, menina de 5 anos morta por um tiro de fuzil, e questionou por que o senador atuou como advogado do policial réu pelo crime. "O que leva um senador a defender um policial que deu um tiro de fuzil numa menina de cinco anos?", disse o presidente.
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Flávio prometeu classificar o PCC, o Comando Vermelho e as milícias como organizações narcoterroristas, pena mínima de oito anos para furto de celular, trabalho obrigatório nos presídios e redução da maioridade penal para 16 anos, ou 14 anos em casos de estupro. "Eu vou tratar bandido como bandido", afirmou. Lula, na tréplica, citou a atuação de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio, onde, segundo o presidente, o senador defendeu e homenageou milicianos.
O que dominou o bloco final?
O quarto e último bloco, de tema livre, foi tomado por acusações cruzadas. Lula questionou Flávio sobre uma ilha em Angra dos Reis comprada pelo jogador Richarlison, afirmando que o advogado Willer Tomaz, amigo do senador, obteve a titularidade do imóvel em uma semana enquanto o atleta ainda aguardava regularização. "Queria que me explicasse como vocês tomaram a ilha do Richarlison", disse o presidente. Flávio negou irregularidades e disse que Willer é amigo, não sócio: "O sócio dele é o seu advogado, o ex-ministro da Dilma, chamado Eugênio Aragão."
Os dois também trocaram acusações envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, preso pelo governo Lula. Flávio afirmou que Vorcaro financiou o filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro, sem contrapartida política. Lula retrucou dizendo que Flávio estava em um barco negociando com dois empresários enquanto o Brasil registrava 100 mil mortes por Covid. "Ele estava no barco, negociando com dois empresários. Eu sei até o nome das pessoas", afirmou o presidente. O senador negou.
O que cada candidato disse no encerramento?
Nas considerações finais, Lula pediu desculpas pelo tom do debate, fez um apanhado de sua trajetória de vida e convocou os eleitores a votar pela manutenção da democracia. "Ou a gente mantém a democracia funcionando ou a gente vai ter um miliciano governando esse país dentro do Palácio do Planalto, o que não é bom para ninguém", disse.
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Flávio agradeceu o apoio recebido durante a campanha e fez três promessas: não prometer o que não pode cumprir, devolver o poder de compra dos brasileiros e lutar pela liberdade e pela segurança nas ruas. "Vote em Flávio Bolsonaro, 22, pelo futuro, pelo futuro da nossa nação", pediu ao encerrar.
