Sem antecipar quem poderá ocupar o espaço deixado pelo senador Rodrigo Pacheco (PSB), cuja desistência da disputa ao governo de Minas já é tratada como certa, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (Psol), afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá um palanque “forte” no estado e tem um "leque de possibilidades" para avaliar nas próximas semanas.

Em entrevista exclusiva ao Estado de Minas, nesta quarta-feira (21/5), durante passagem por Belo Horizonte, Boulos sustentou que a eventual saída de Pacheco não altera a prioridade do campo governista de construir uma candidatura competitiva em Minas Gerais.

Boulos reconheceu que havia uma expectativa em torno do nome de Pacheco, mas evitou antecipar alternativas ou indicar preferências internas. O ministro procurou transmitir uma mensagem de continuidade e disse que o rearranjo ainda está em andamento.

“Esse é um tema que vai passar logicamente por conversar com os mineiros e as mineiras do nosso campo, do palanque do Lula, pelo próprio presidente maturar isso, pelos partidos políticos do nosso campo, mas eu não tenho dúvida de uma coisa, o Lula terá um palanque forte em Minas. Não tem hipótese do Lula não ter um palanque forte em Minas”, disse.

A recente declaração do presidente nacional do PT, Edinho Silva, de que Pacheco não disputará o Palácio Tiradentes acelerou, nesta semana, um processo que vinha sendo amadurecido nos bastidores há algumas semanas. Embora o senador ainda não tenha oficializado qualquer decisão e mantenha prevista uma conversa com Lula, integrantes do partido passaram a tratar a desistência como “praticamente consolidada”.

Sem uma base sólida em Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral do país e historicamente considerado um estado-pêndulo, o PT apostava em Pacheco como figura capaz de unir centro e esquerda, e atrair setores moderados da política mineira. “É lógico. Havia uma aposta no Pacheco. Isso é público e notório. O próprio presidente falou isso. Ninguém aqui está tapando o sol com a peneira. Com esse desgaste que teve no Senado, eu acho que criou uma dificuldade para a candidatura do Pacheco, a partir da própria percepção dele”, disse.

Minas Gerais é historicamente o termômetro das eleições presidenciais, desde a redemocratização, nenhum presidente foi eleito sem vencer no estado. Ciente disso, Boulos reiterou a centralidade do território mineiro na disputa, lembrando o feito de 2022. Lula vai ter um palanque forte em Minas e vai ganhar em Minas de novo. Até porque quem ganha em Minas, ganha no Brasil”, afirmou.

O "azedamento" da hipótese Pacheco forçou a esquerda a recalibrar a rota. Apesar do revés do plano principal, o ministro mantém o otimismo na capacidade de articulação do partido. “Tem um leque de possibilidades que nós vamos decidir nas próximas semanas”, disse Boulos. Nos bastidores, o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT), que já esteve ao lado de Lula em 2022, voltou a circular como alternativa.

Com a iminente saída de Pacheco do páreo, o diretório mineiro do PT marcou uma reunião crucial para o próximo sábado (30/5) com suas lideranças para deliberar sobre os novos rumos. 

Rejeição ao governo

Ao ser confrontado com os dados de pesquisas recentes, que apontam índices de rejeição elevados para o governo Lula, Boulos avaliou que o cenário é mais complexo do que o observado em décadas anteriores e combina fatores econômicos, disputas culturais e transformações profundas na circulação da informação.

“Eu acho que não é só isso (polarização). Hoje não é mais só economia como era no início dos anos 90. Você tem um cenário em que o fator ideológico, da cristalização de posições, da guerra cultural, da disputa de valores na sociedade, tem mais peso do que tinha”, comenta.

Para o chefe da Secretaria-Geral da Presidência, o descompasso entre os indicadores macroeconômicos positivos, como a queda do desemprego e o aumento dos salários, e a percepção de bem-estar da população reside no endividamento das famílias, agravado por novos fenômenos sociais.

“Porque o cara está ganhando mais, ele está empregado. Houve aumento real de salário, teve isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, mas ele não está sentindo isso no fim do mês. Por que ele não está sentindo? Porque ele está pagando boleto de dívida com um juro escorchante. O juro bancário no Brasil é criminoso, é de agiota”, afirmou.

Adversários de Lula

Perguntado sobre a possível candidatura do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) à Presidência da República, que passou a ser ventilada como alternativa caso a pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) seja desidratada, Boulos demonstrou surpresa e ceticismo, classificando o movimento como uma estratégia de marketing para ganhar visibilidade.

"Eu acho que isso deve ser jogada. Essa turma é boa em criar coisas para criar holofote", afirmou o ministro, sugerindo que a movimentação pode ser, na verdade, uma tentativa do parlamentar de "crescer aqui em Minas para o governo". Ele pontuou que Cleitinho foi "mais esperto" que outros bolsonaristas ao lidar com pautas populares, mas acredita que o voto da direita continua monopolizado pelo núcleo central do bolsonarismo.

Já em relação a Flávio, o deputado federal licenciado comparou a trajetória do “filho 01” de Jair Bolsonaro à do presidente Lula. "Ele não tem biografia, tem ficha corrida, tem boletim de ocorrência", disparou o ministro, citando as "rachadinhas", os imóveis comprados com dinheiro vivo e o recente áudio de R$ 134 milhões envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, o qual classificou como uma "operação de lavagem de dinheiro" para financiar a estadia de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

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Para Boulos, Flávio é uma figura "vazia de alma, de caráter e de realizações" que, apesar de manter recall eleitoral devido à polarização, agora enfrenta um já esperado desgaste. “Quem está na política sabe quem é o Flávio Bolsonaro. Nada como dar tempo ao tempo”, disse.

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