"JK foi morto a mando dos homens de 64", reforça amigo do ex-presidente
Diretor do museu Casa de Juscelino e amigo de JK diz que relatório responsabilizando ditadura pela morte confirma antigas suspeitas e faz justiça à história
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Foi como se um raio de luz, guiado pela verdade, atravessasse a escuridão, reavivasse as memórias e afastasse incertezas que sobrevivem há quase meio século. Esse o impacto no coração de Serafim Jardim, de 90 anos, mineiro de Diamantina, ao saber do relatório indicando que o conterrâneo e amigo do peito, o presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976), pode ter sido assassinado pela ditadura militar (de 1964 a 1985), no que a versão oficial trata como um acidente na Via Dutra, em Resende (RJ), em 22 de agosto de 1976.
“Nunca duvidei disso”, ele afirma, confiante, diante de um documento em análise pelos integrantes da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP). Elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, o parecer ainda não foi submetido a votação, mas já chegou à família de JK, como era conhecido o político que, antes de mandatário do Brasil e fundador de Brasília (DF), foi prefeito de Belo Horizonte e governador de Minas Gerais.
Neta de Juscelino e presidente do Memorial JK, na capital federal, Anna Christina Kubitschek afirma que, durante décadas, prevaleceu a versão de que o avô teria sido vítima de um acidente automobilístico. “No entanto, novas investigações, perícias independentes e relatórios produzidos por comissões da verdade estaduais, pelo Ministério Público Federal e agora pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos apontam graves inconsistências nessa narrativa.”
A historiadora Maria Cecília Adão trabalhou durante mais de um ano para elaborar o documento em análise pela CEMDP. No total, o trabalho, cuja divulgação ainda é aguardada, tem 5 mil páginas, mil delas apenas com o parecer da relatora.
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“Mentira, erros e falhas”
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A conclusão a que chegou a investigação independente é algo sobre o que Serafim Jardim nunca teve dúvida: JK foi assassinado. Passados quase 50 anos da morte do ex-presidente, o amigo e conterrâneo está com o coração mais tranquilo, certo de que a verdade tarda, mas não falha.
“Eu me sinto muito feliz com o parecer da historiadora Maria Cecília Adão, o qual se encontra em análise na Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos. Acredito que Juscelino foi morto a mando dos ‘homens de 64’, como me refiro aos que governaram o Brasil de 1964 a 1985, no período da ditadura militar”, afirma Serafim, que completará 91 anos em agosto e segue firme à frente da Casa de Juscelino, no Centro Histórico de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha. O imóvel centenário guarda parte da história do ex-presidente da República (de 1956 a 1961), ex-governador de Minas (1951-1955) e ex-prefeito de Belo Horizonte (1940-1945).
Lúcido, preciso em datas e detalhes e sempre com o bom humor em alta, Serafim Jardim diz que sua luta para esclarecimento dos fatos sobre o desastre na Via Dutra (BR-116), em Resende (RJ), que vitimou JK e seu motorista e amigo, Geraldo Ribeiro, ganhou força há 30 anos.
“Era tanta mentira, tantos erros e falhas nos laudos da perícia, tantos depoimentos suspeitos, que estive em Resende e pedi a reabertura do processo. Em seis dias, o caso, que estava arquivado, foi reaberto. Já estávamos no governo democrático (do então presidente José Sarney), mas mesmo assim o processo na Justiça ficou lento. Em 1996, no governo Fernando Henrique Cardoso, o caso chegou ao Ministério da Justiça, mas foi deixado de lado sob a alegação de ‘não ter nada de novo’”.
“Onde está a verdade?”
Autor do livro “Onde está a verdade?”, publicado em 1999, Serafim responde, sem pestanejar, à pergunta sobre os motivos do assassinato de JK. “Os responsáveis foram os ‘homens de 64’, dispostos a se perpetuarem no poder. Por isso, eliminaram os três lideres da Frente Ampla”, afirma, sobre o movimento político de oposição à ditadura militar, lançado em 1966 pelo então ex-governador da Guanabara (atual Rio de Janeiro), Carlos Lacerda (1914-1977), e com posterior adesão do também ex-presidente João Goulart, o Jango (1919-1976), cassado dois anos antes e exilado no Uruguai.
“Em 272 dias, os três morreram em condições suspeitas. Juscelino em agosto, Jango, quatro meses depois, e Lacerda, em maio de 1977”, lembra Serafim. O relato da Comissão Municipal da Verdade de São Paulo (Comissão Vladimir Herzog), em 2012, sugeriu que os óbitos podem estar relacionados com a Operação Condor, uma articulação entre as ditaduras militares do Chile, da Argentina, do Uruguai, do Paraguai, da Bolívia e do Brasil criada para trocar informações e eliminar desafetos.
“Todos esses fatos mostram que não foi um simples acidente de veículo”, avalia Serafim. “O processo foi baseado no depoimento do motorista Ladislau Borges, condutor da carreta Scania-Vabis, que colidiu com o Chevrolet Opala, no qual estava JK, após ser atingido por um ônibus da Viação Cometa e invadir a pista contrária”. Sob o título de “Brasil de luto por Juscelino”, o Estado de Minas fez extensa cobertura sobre o acidente ocorrido num domingo, assim como o extinto “Diário da Tarde”.
DIPLOMADO EM JUSCELINO
As lembranças fortalecem o desejo de justiça que sempre acompanhou o diamantinense à frente da Casa de Juscelino. “Conheci o presidente em 1967, no retorno do exílio na Europa, e fomos amigos por quase uma década. Diziam que eu era ‘secretário’ dele, mas nunca tive esse cargo. Isso foi uma ‘invenção’ do jornalista Wilson Frade (1920-2000), que trabalhou no Estado de Minas. Como me via sempre com o presidente, quando ele vinha a BH, Frade brincava assim: 'Olha lá o secretário de JK'”, conta Serafim. E explica que, quando lhe perguntam sobre sua formação acadêmica, reponde: “Sou formado em JK”.
Ao falar mais uma vez sobre o amigo querido, Serafim ressalta também as investigações feitas pelo jornalista e escritor Carlos Heitor Cony, biógrafo do ex-presidente e autor de “JK e a ditadura”. Em depoimento à Comissão Municipal da Verdade de São Paulo (veja trecho ao lado), Cony, último profissional de imprensa que esteve com o ex-presidente antes da sua morte, disse não ter dúvidas de que JK foi assassinado num atentado político. “A máquina para matar JK na estrada estava pronta”, declarou à comissão.
Cony ainda lembrou que o ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes (1916-2005), na época exilado na Argélia, integrava uma rede internacional de informações cujo objetivo era garantir a integridade e a vida de políticos exilados e perseguidos por ditaduras militares. “Arraes alertou que Jango e JK corriam riscos”, relatou o jornalista.
“QUEREM ME MATAR”
Ao lembrar o depoimento de Cony, Serafim conta que, por inúmeras vezes, Juscelino lhe disse: “Estão querendo me matar”. Em 7 de agosto de 1976, 15 dias antes da morte em Resende (RJ), circulou o boato de que ele teria morrido “num acidente de carro”. Ao receber a notícia, Serafim pediu a seu filho, residente em Brasília (DF), que fosse imediatamente à fazenda de JK, em Luziânia (GO). “Quando chegou lá, encontrou o presidente bem, e só um comentário: ‘Não me mataram, não’”.
Os comentários sobre JK aumentaram mais ainda após a morte da estilista Zuzu Angel (1921-1976), mineira de Curvelo, ocorrida em 14 de abril, portanto quatro meses antes do acidente na Via Dutra. “Mataram a Zuzu”, ele disse, sobre o atentado contra ela no Túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro (RJ), quando trafegava no seu veículo, um Karmann-Ghia.
Zuzu denunciava a ditadura militar pela morte de seu filho, Stuart Angel Jones, militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Em agosto do ano passado, o governo federal retificou a certidão de óbito da estilista, reconhecendo oficialmente a responsabilidade da ditadura militar na sua morte.
A perda das duas vidas, Zuzu e JK, lembra Serafim, ocorreu quando era presidente do Brasil o general Ernesto Geisel (1907-1996) e chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), João Batista Figueiredo (1918-1999), depois mandatário entre 1979 e 1985. “Olho para o passado e tenho tranquilidade para falar no presente. Há muitos episódios que ficaram sem o devido esclarecimento – um deles sobre o que de fato ocorreu na Via Dutra. O presidente e Geraldo pararam durante 40 minutos num restaurante na rodovia. Tudo indica que ‘mexeram’ no freio do Opala, mais exatamente no conduíte que leva o óleo ao freio. O veículo poderia ter caído numa ribanceira logo depois, mas acabou colidindo com o ônibus da Cometa”.
“Eu creio sinceramente que Juscelino foi assassinado”
Autor do livro “JK e a Ditadura”, o escritor Carlos Heitor Cony (1926-2018) depôs na Comissão Municipal da Verdade – Vladimir Herzog, em São Paulo (SP), e falou sobre a morte do ex-presidente.
Confira alguns trechos do testemunho:
Resposta de Cony ao presidente da Comissão, Gilberto Natalini,diante da pergunta:
“O que aconteceu quando você foi ao Hotel Fazenda Villa-Forte?” (JK e motorista pararam no local, à beira da Via Dutra, pouco antes do acidente.)
“Conversei com o guardador do estacionamento. Ele me disse que o motorista Geraldo Ribeiro entrou no carro, que ficou guardado ali uns 40, 45 minutos, deu a ré e sentiu alguma coisa. Perguntou ao guardador: ‘Alguém mexeu no carro?’. O guardador negou. A minha suspeita é que mexeram e o carro ia arrebentar logo nas primeiras curvas, na descida da serra.”
“O perito Sérgio de Souza Leite me disse, quando se falou de armação: ‘Não sou detetive, sou técnico em acidentes de estrada. Mas ele foi ao hotel fazenda e soube que uma comissão de militares tinha se antecipado. Disse também que uma comissão vinha rastreando Juscelino desde São Paulo. Eu tenho o relatório dele, gravado por ele.”
Resposta à pergunta de Natalini:
“Você acha que o telefone de Juscelino era grampeado?”
“Depois que (JK) morreu, fiquei com o gabinete dele na Manchete (antiga revista do grupo Bloch) e o grampo era geral. Parou depois de algum tempo. Juscelino foi a São Paulo participar de uma reunião com ex-governadores. Estava sem dinheiro, emprestou 10 mil cruzeiros de um primo, Ildeu de Oliveira. Amigos o sustentavam. Eu mesmo levei dinheiro a ele duas vezes.”
Resposta sobre a pergunta de um integrante da Comissão sobre boato anterior de um acidente em que JK teria morrido:
“A montagem do acidente estava preparada para duas semanas antes, em Luziânia. Não foi possível, porque Juscelino não saiu. Eu creio sinceramente que Juscelino foi assassinado. Aquilo não foi um acidente comum.”
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FONTE: Relatório da Comissão Municipal da Verdade de São Paulo (SP) - Vladimir Herzog, 2013/2014