HISTÓRIA

Zuzu Angel: ‘‘Meu filho foi preso, torturado e morto’’

Depois de receber uma carta às vésperas do Dia das Mães, Zuzu Angel muda sua postura e passa a denunciar os horrores da ditadura militar

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A carta de Alex Polari de Alverga chegou a Zuzu Angel às vésperas do Dia das Mães. Era mais do que um relato, era a confirmação brutal do que o Estado insistia em negar. A partir dali, a busca terminou. Começou a denúncia.

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Zuzu passou a ocupar qualquer espaço possível com a mesma pauta: dar nome ao que o Estado tentava apagar. Não havia cerimônia, nem cálculo político. Havia urgência e vigilância.

Em casa, ao telefone, já desconfiava que suas ligações estavam grampeadas por agentes da ditadura. Não recuava. Incorporava o próprio grampo à sua forma de enfrentamento. Em meio às conversas, interrompia o diálogo e falava diretamente com quem estivesse ouvindo: “Ei, você que está aí me ouvindo, não adianta porque não vou parar”. Não era desabafo. Era aviso. E não parou.

Confrontou figuras públicas, como o ex-presidente Juscelino Kubitschek, de quem esperava uma denúncia internacional.

“Você perdeu essa oportunidade”, disse, deixando claro que, para ela, o silêncio também era uma forma de conivência. Em momentos de irritação, chegou a chamá-lo de “pamonha”, expressão que, no contexto, carregava menos ofensa e mais frustração diante da inércia.

Mas foi na moda que sua denúncia ganhou forma mais contundente e impossível de ignorar.


Primeiro desfile de moda político


Em setembro de 1971, em Nova York, Zuzu apresentou o desfile que marcaria uma ruptura definitiva: a moda deixava de ser apenas expressão estética para se tornar denúncia política. Para driblar um decreto que proibia brasileiros de criticar o país no exterior, levou a apresentação para a residência do cônsul-geral Lauro Alves. Ali, em território oficialmente brasileiro, construiu um dos atos mais ousados da história cultural do país.

O desfile não começava com choque. Começava com familiaridade. As primeiras peças ainda carregavam a assinatura que havia consagrado Zuzu: leveza, referências à cultura brasileira, delicadeza no corte. O público, formado por diplomatas, jornalistas e convidados da elite internacional, ainda acreditava assistir a uma coleção convencional. A ruptura vinha aos poucos.

Os tecidos começavam a revelar sinais de tensão. Elementos estranhos surgiam onde antes havia harmonia. Até que o desfile atingia seu ponto de inflexão.

O vestido branco de modelagem ampla surgia como peça-manifesto.

À primeira vista, parecia quase infantil, desenhos que lembravam o traço de uma criança. Mas era justamente essa aparência que produzia o impacto. Sobre o algodão, tanques de guerra, soldados, canhões e quepes militares se misturavam a árvores, flores, casinhas com chaminé, tambores e passarinhos. Não havia separação entre os dois mundos. A guerra invadia a infância.

Anjos tristes, pombas negras e um sol rígido, quase deformado, completavam a composição. Tudo era calculado. Nada era decorativo.

Em outros vestidos, pássaros apareciam presos em gaiolas, repetidos como um padrão sufocante. A liberdade, elemento central na estética anterior de Zuzu, agora era negada. O olhar do público era forçado a perceber: aquilo não era metáfora distante. Era relato. Era Stuart Angel.

O desfile na casa do cônsul Lauro Alves foi estratégico: driblar a  repressão. Como era proibido criticar o regime no exterior,  Zuzu Angel utilizou a residência diplomática, considerada  território brasileiro, para fazer a denúncia sem risco de ser presa
O desfile na casa do cônsul Lauro Alves foi estratégico: driblar a repressão. Como era proibido criticar o regime no exterior, Zuzu Angel utilizou a residência diplomática, considerada território brasileiro, para fazer a denúncia sem risco de ser presa Fotos: Reprodução

De preto, com colar de anjo e cinto com crucifixos


As modelos reforçavam a narrativa. Algumas traziam faixas pretas nos braços, em luto explícito. Não havia glamour convencional, havia contenção, rigidez, uma tensão que atravessava a passarela. O desfile avançava como uma construção dramática.

No momento final, Zuzu surgia. Vestida de preto, em silêncio, ocupava a passarela com uma presença quase ritualística. Usava um cinto com dezenas de crucifixos pendurados, que se moviam a cada passo como pequenas lápides em movimento. No pescoço, um colar com a imagem ampliada de um anjo. Sua figura condensava dor e denúncia.

Ao seu lado, duas modelos vestidas de branco, sorridentes, criavam um contraste perturbador, como se representassem a normalidade que o regime tentava sustentar. Ao fundo, Ana Cristina Angel, sua filha, cantava “Tristeza”. A cena não era apenas estética. Era muito forte politicamente.

O jornalista Zuenir Ventura diria mais tarde que aquele desfile “rompia qualquer possibilidade de neutralidade”. O “The New York Times” descreveu as peças e levou ao mundo a história de Stuart, indo parar em jornais e revistas de todo o mundo. No dia 15 de setembro de 1971, o canadense “The Montreal Star" trazia como manchete: “Designer de moda pede pelo filho desaparecido”. Cinco dias depois, o “Chicago Tribune" estampava: “A mensagem política de Zuzu está nas suas roupas”. A passarela se transformava em documento.

Quatro anos depois, em 1975, Zuzu radicalizaria essa linguagem, tornando a denúncia ainda mais direta, com referências mais explícitas à prisão, à violência e à morte. Mas foi ali, em 1971, que tudo começou.

Em fevereiro de 1976, ela levaria essa mesma lógica para a política internacional. Durante a visita de Henry Kissinger ao Brasil, rompeu o esquema de segurança do hotel onde ele estava hospedado e lhe entregou uma carta. “Meu filho foi preso, torturado e morto”, escreveu. Não pedia. Acusava.

Sabia o risco. E registrou: “Se algo vier a acontecer comigo, se eu aparecer morta por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho”.

Na madrugada de 14 de abril de 1976, pouco depois das 3h, dirigia pela zona sul do Rio de Janeiro quando sofreu o acidente que encerraria sua trajetória.

Mas, naquele momento, ainda não havia fim. Havia apenas uma mulher que havia transformado sua dor em linguagem e sua linguagem em denúncia impossível de apagar.

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Como em Antígona, não se tratava apenas de enfrentar o poder. Tratava-se de garantir aos mortos o direito de serem nomeados e de impedir que o silêncio os enterrasse pela segunda vez. n

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