HISTÓRIA

Zuzu Angel: "Depois da morte de Stuart, tivemos que desaparecer"

Ex-integrante da Polop e da Colina, Apolo Heringer Lisboa relembra a clandestinidade, a convivência com Stuart Angel e a luta contra a ditadura

Publicidade
Carregando...

A frase resume, em poucas palavras, a lógica brutal da clandestinidade durante a ditadura militar brasileira: a prisão de um companheiro não significava apenas perda, mas risco imediato para todos ao redor. Ao recordar o momento em que soube da captura, tortura e morte de Stuart Angel Jones, Apolo Heringer Lisboa expõe o funcionamento de uma engrenagem repressiva que impunha o desaparecimento como única forma de sobrevivência.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

Dirigente estudantil desde o golpe de 1964, o médico e professor da UFMG, Apolo Heringer Lisboa, construiu uma trajetória marcada pela atuação em diferentes frentes da resistência à ditadura militar. Membro da direção estadual da Polop (Organização Política Marxista – Política Operária) a partir de 1965, integrou também a direção da Colina (Comandos de Libertação Nacional) e ocupou a vice-presidência da UNE em 1966. Em 1970, tornou-se um dos fundadores da DVP (Dissidência da VAR-Palmares). Exilado em 1973, retornou ao Brasil em outubro de 1979, com a Anistia.


Foi nesse ambiente de clandestinidade, marcado por vigilância permanente e risco constante, que Apolo conheceu Stuart Angel Jones, no Rio de Janeiro. A militância exigia disciplina e rigor: encontros planejados, identidades ocultas e circulação restrita. Ainda assim, havia uma rotina de articulação política, com reuniões voltadas à análise da conjuntura nacional e internacional: “Conheci o Stuart Angel Jones no movimento guerrilheiro no Rio de Janeiro. Éramos membros da resistência à ditadura. Vivíamos na clandestinidade, muito perseguidos. Foi um período de terror, com torturas, assassinatos e desaparecimentos. Tínhamos encontros periódicos para troca de informações e análise da conjuntura. Era a guerra dos Estados Unidos contra o Vietnã, a repressão às universidades, artistas e jornalistas. As classes assalariadas estavam sofrendo o arrocho salarial e os sindicatos aterrorizados. Cada dia sem ser preso era mais um dia de vida. E nunca deixamos o medo nos dominar, pois o compromisso de restabelecer a liberdade no Brasil era mais forte”, relembra.


Segundo Apolo Heringer Lisboa, ele e Stuart Angel Jones mantinham contatos periódicos na região Oeste do Rio de Janeiro, dentro da lógica fragmentada da clandestinidade. A prisão do filho de Zuzu Angel, no entanto, rompeu essa dinâmica e provocou um impacto imediato entre os grupos de resistência.


“Eu tinha encontros periódicos com o Stuart na região Oeste do Rio de Janeiro, mas a gente não conhecia os verdadeiros nomes nem os locais de moradia. Quando soubemos que o Stuart havia sido preso, torturado e assassinado na Base Aérea do Galeão, tivemos que desaparecer. Sair da área e reorganizar os contatos perdidos”, afirma.


A repressão fazia parte do cotidiano. Prisões, mortes e desaparecimentos eram acompanhados por meio de jornais ou informes internos das organizações, em um cenário descrito como permanente estado de guerra.


“Era rotina ver pelos jornais ou por relatos das organizações a prisão e morte de companheiros e companheiras. Era rotina, assim como também quando nossos movimentos passaram a trocar presos torturados por embaixadores dos países aliados dos Estados Unidos e do Brasil. Parecia uma guerra eterna e que não iríamos rever nossas famílias”, diz.


ZUZU ANGEL


Apolo também destaca o papel de Zuzu Angel na denúncia internacional dos crimes da ditadura. Mãe de Stuart, ela levou o caso ao exterior e expôs a repressão brasileira em espaços de grande visibilidade como foi o caso do Desfile de protesto.


“Zuleika Angel articulou nos Estados Unidos a denúncia da morte e do desaparecimento do corpo do seu filho. Quando sabia da presença de autoridades norte-americanas, como Henry Kissinger, aparecia de surpresa em aeroportos ou cerimônias e fazia a denúncia, que ganhava repercussão internacional. Uma heroína, um exemplo de mãe na luta e no sofrimento. Por tudo isso que aconteceu no Brasil, é imperdoável que ainda haja quem defenda tortura, estupro de presas, assassinatos e desaparecimentos. Ditadura nunca mais”, afirma.


Décadas depois, o episódio segue como referência nos debates sobre memória e direitos humanos no Brasil. O testemunho de Apolo Heringer contribui para documentar esse período e reforça a centralidade de relatos diretos na compreensão das violações cometidas pelo regime militar.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


Com o passar dos anos, Apolo passou a travar outra batalha. Fundador do Projeto Manuelzão, atua há décadas na defesa do meio ambiente, com foco na recuperação do Rio das Velhas. Sua principal frente hoje é a Meta 2034, que busca a despoluição da bacia hidrográfica — uma luta que ele define como dura e persistente, comparável, em intensidade, à resistência enfrentada nos anos de ditadura. Entre passado e presente, sua trajetória mantém um fio condutor claro: a defesa da vida, da memória e do futuro.

Tópicos relacionados:

angel ditadura historia zuzu

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay