Ex-servidora liderou desvio de R$ 1,3 mi dos cofres públicos de Santa Luzia
Investigada usava credenciais de sistema de trânsito para excluir multas e o filho dela oferecia desconto aos autuados. Mais de 4 mil multas foram excluídas
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Uma ex-servidora pública da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Trânsito da cidade de Santa Luzia (MG), na Região Metropolitana de Belo Horizonte, de 44 anos, foi presa após um desvio de mais de R$ 1,3 milhão aos cofres públicos e a identificação de venda clandestina de medicamentos para emagrecimento.
Investigações da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), que tiveram início em outubro de 2025, dão conta que o dinheiro foi desviado desde o ano de 2023 em um esquema criminoso de exclusão fraudulenta de infrações de trânsito, em meio ao crime de corrupção passiva e peculato eletrônico. Segundo a corporação, o inquérito policial já soma mais de 1.200 páginas de elementos probatórios.
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De acordo com o delegado responsável pelo caso, Fábio Lucas Gabrich Cruz e Silva, a investigada usava credenciais de acesso ao sistema de gestão de trânsito para excluir as infrações e o filho dela, também envolvido no esquema, prometia aos autuados, pelas redes sociais, um desconto das multas. Ao todo, foram identificadas 4.445 baixas irregulares.
“O filho da investigada prometia o cancelamento das autuações por valores inferiores a 50% das taxas oficiais, comprometendo não apenas os cofres públicos, mas também o caráter educativo e repressivo da fiscalização urbana”, explicou.
Foi realizada uma operação de busca e apreensão na quarta-feira (29/4), que resultou no sequestro de bens de luxo adquiridos recentemente, como uma caminhonete e uma motocicleta de alta cilindrada, avaliados em mais de R$ 160 mil, dispositivos eletrônicos de última geração, relógios de marca e joias. Também foram recolhidos R$ 11.474 em espécie. Todos os itens servirão como prova do enriquecimento ilícito familiar no esquema.
Crime contra a saúde
Os policiais ainda encontraram materiais hospitalares, incluindo seringas e agulhas, que eram utilizados para a manipulação ilegal de medicamentos de origem estrangeira. Nenhum deles tinha qualquer registro nos órgãos de vigilância sanitária. A prática, segundo a PC, configura crime contra a saúde.
A investigada confessou que comprava os medicamentos de emagrecimento – conhecidos como “canetas emagrecedoras" – e os fracionava em seringas para a venda clandestina. Segundo Gabrich, ela usava “técnicas rudimentares aprendidas em vídeos de redes sociais, operando sem qualquer formação na área da saúde”. “A gravidade da conduta ensejou a prisão em flagrante, fundamentada no risco iminente à incolumidade pública”, explicou.
Todos os itens serão submetidos à perícia técnica, que subsidiará a continuidade das investigações. Agora, a polícia trabalha para identificar outros beneficiários do esquema de corrupção e lavagem de dinheiro.
Desconfiança levou à ação policial
A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Trânsito e a Comissão de Auditoria, instituída pela atual gestão, apuraram as baixas e encaminharam as suspeitas às autoridades policiais e ao Ministério Público de Minas Gerais. Conforme relatório técnico inicial, o desvio aconteceu enquanto a servidora atuava no setor e depois de sua exoneração, e chegou ao valor de R$ 1.390.000.
Em coletiva de imprensa, o secretário de Desenvolvimento Hélio Henrique Queiroz T. Rosa contou que a pasta iniciou uma auditoria no último ano por ter percebido que algumas autuações de trânsito estavam saindo do sistema, a partir de acesso vinculado ao sistema da Empresa de Tecnologia da Informação do Governo de Minas (Prodemge), sem justificativa legal.
Com isso, foi identificado que o usuário responsável pela exclusão pertencia a uma servidora que começou a atuar na pasta em 2021 e havia sido exonerada em janeiro de 2025. Segundo Hélio Rosa, a Prefeitura não tinha conhecimento que uma ex-servidora ainda tinha acesso ao sistema de tecnologia, uma vez que as credenciais ligadas ao Executivo haviam sido bloqueadas.
O prefeito da cidade, Paulo Bigodinho (Avante) defendeu a atuação municipal na denúncia. “Na hora em que identificamos a situação, nossa obrigação foi agir com responsabilidade, instaurar auditoria, reunir provas e encaminhar tudo aos órgãos de controle. A Prefeitura não foi omissa. Pelo contrário, foi a própria administração que provocou as investigações”, afirmou.
Em nota, a Prefeitura de Santa Luzia defende que “sua atuação firme, responsável e imediata diante dos primeiros indícios” demonstram alinhamento da administração “com uma política de tolerância zero a práticas lesivas ao erário”.
Investigações continuam
Os desvios aconteceram em um período anterior à gestão atual. A auditoria segue em andamento, abrangendo contratos e procedimentos datados desde o ano de 2019, e tem previsão de conclusão em julho de 2026. Além da apuração no caso de multas, o objetivo é aprimorar e identificar falhas dos mecanismos de controle, além de aperfeiçoar a fiscalização dentro da administração pública.
De acordo com a procuradora-geral do município, Isabelle Maria Gomes Fagundes de Sá, a Prefeitura de Santa Luzia vai ingressar com medidas judiciais cabíveis para buscar o ressarcimento dos prejuízos causados aos cofres públicos, além de ações relacionadas à improbidade administrativa.
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A Polícia Civil foi procurada para esclarecimentos sobre a investigação contra o filho da ex-servidora e ainda não retornou. Esta reportagem será atualizada assim que o contato for feito.