Lula critica Trump: "Não tem direito de se levantar e ameaçar um país"
Presidente criticou postura do líder norte-americano e defendeu respeito à soberania entre nações
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, “não tem o direito de acordar de manhã e ameaçar um país”, ao comentar a condução das relações internacionais pelo republicano e as diversas ameaças feitas pelo líder norte-americano em suas redes sociais.
A declaração foi dada em entrevista ao jornal espanhol El País, publicada nesta quinta-feira (16/4), na qual Lula também criticou o uso de poder econômico e militar como instrumento de pressão entre nações.
A crítica direta a Trump foi dita ao ser questionado sobre a tratar da corrida armamentista. Na ocasião, Lula disse que há uma pressão global pelo rearmamento, mas reiterou a posição brasileira de priorizar investimentos sociais. Ele lembrou que a Constituição de 1988 proíbe a fabricação de armas nucleares no país e afirmou que prefere investir “em livros, em comida, em empregos”.
O presidente também relatou ter procurado líderes internacionais, como os de China, Índia, Rússia e França, para discutir alternativas de redução de tensões globais. Segundo ele, é necessário que as potências assumam maior responsabilidade pela manutenção da paz internacional.
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“Eu já liguei para o presidente chinês Xi Jinping, o primeiro-ministro indiano Modi, Putin, Macron, todos, pedindo que se reunissem para discutir isso. Porque Trump não tem o direito de acordar de manhã e ameaçar um país. Ele não foi eleito para isso, e sua Constituição não permite. É essencial que aqueles que detêm o poder assumam maior responsabilidade pela manutenção da paz", criticou.
Tarifaço
Ao abordar a recente crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos, quando Trump anunciou o chamado "tarifaço", Lula disse ter se surpreendido com os argumentos utilizados por Trump para justificar a imposição de tarifas contra o Brasil. Segundo o presidente, as justificativas “não eram verdadeiras” e vieram acompanhadas de demonstrações de força militar. Ele ressaltou que preferiu adotar uma postura cautelosa durante as conversas e relatou ter defendido um diálogo mais equilibrado entre os dois países.
“Não precisamos estar alinhados ideologicamente. Um chefe de Estado senta-se à mesa pensando nos interesses do seu país. Além disso, disse a Trump que era importante definir que tipo de líder se quer ser. Prefiro ser um líder respeitado, não um temido. Ninguém tem o direito de incutir medo", disse.
Na avaliação de Lula, Trump acredita que o poder econômico, militar e tecnológico dos Estados Unidos é suficiente para ditar regras globais, o que, segundo ele, gera consequências negativas para o próprio país. O presidente citou como exemplo a elevação dos preços dos combustíveis após ataques militares contra o Irã, ressaltando que os impactos recaem sobre a população.
“Quando ele decidiu atacar o Irã, não sei se ele percebeu que os preços dos combustíveis iriam subir e que seriam as pessoas que pagariam o preço. Quando você é chefe de Estado, você deve respeitar a soberania de outros países. Me preocupa profundamente que o Conselho de Segurança da ONU, criado para manter a paz, esteja travando uma guerra. É como se o mundo fosse um navio à deriva, sem nenhuma instituição para guiar o comportamento civilizado das nações", criticou.
O presidente ainda afirmou que o mundo vive uma situação delicada, com gastos elevados em guerras, que poderiam ser direcionados a políticas sociais. “Com metade disso, poderíamos erradicar o analfabetismo, resolver o problema energético global e acabar com a fome para 630 milhões de pessoas. Quando vamos cair em si...?", ponderou.
Reformulação
Nesse contexto, Lula defendeu a reformulação da ONU, com ampliação da representatividade e revisão do poder de veto. Segundo Lula, a estrutura atual reflete uma geopolítica ultrapassada. “A geopolítica de 1945 não é válida para 2026”, afirmou.
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“Os cinco países do Conselho de Segurança, que deveriam dar o exemplo, não o fazem. Nem a invasão do Iraque, nem a invasão da Líbia pela França e pelo Reino Unido, nem a invasão da Ucrânia por Putin, nem o massacre de Israel em Gaz foram levados ao Conselho de Segurança", criticou.