Presidente da Câmara de BH aponta mobilidade como principal desafio
Presidente da Câmara diz que comissão especial sobre transporte coletivo pode influenciar edital de 2028 e avalia Tarifa Zero como tema que exige estudo
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Em entrevista exclusiva ao Estado de Minas, o presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte, Juliano Lopes (Podemos), afirma que a mobilidade urbana é hoje o principal problema da capital e defende que a cidade aproveite os próximos anos para corrigir distorções históricas do sistema de transporte coletivo. À frente do Legislativo desde 2025, ele aposta no trabalho da comissão especial criada para discutir o novo contrato de concessão dos ônibus, que vence em 2028, como um dos legados mais relevantes de sua gestão.
Segundo Lopes, a comissão foi pensada para funcionar como um espaço plural de debate, reunindo vereadores de diferentes espectros políticos. A avaliação é de que, sem essa diversidade, a discussão não avançaria. “Se colocarmos só pessoas de um lado, o debate não anda. Por isso, a comissão tem gente da esquerda, da direita e do centro”, afirmou.
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O contrato atual do transporte coletivo foi assinado em 2008, no fim da gestão do então prefeito Fernando Pimentel (PT), e completará 20 anos. Para o presidente da Câmara, trata-se de um modelo rígido, que limita mudanças mesmo diante de críticas recorrentes da população. “Muita coisa de que a população reclama está prevista no contrato. O reajuste da passagem, por exemplo, está lá. Não estou dizendo se é certo ou errado, mas está assinado”, disse.
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A comissão especial não tem caráter de CPI e não interfere no contrato vigente. O objetivo é produzir um diagnóstico técnico e político do modelo atual, com foco nos aspectos financeiros e operacionais, para subsidiar a construção das diretrizes do próximo edital. A expectativa é de que, em 2027, a prefeitura já tenha que lançar a nova licitação.
Pelo plano de trabalho elaborado pelo relator Pedro Rousseff (PT), a comissão vem ouvindo usuários, empresários do setor, representantes da Superintendência de Mobilidade (Sumob) e da BHTrans. Também estão previstas convocações de secretários municipais, responsáveis legais pelas concessionárias e do prefeito em exercício, Álvaro Damião (União). O colegiado é presidido pela vereadora Fernanda Pereira Altoé (Novo) e conta ainda com Helton Junior (PSD) e Rudson Paixão (Solidariedade) entre os integrantes.
Questionado sobre críticas de vereadores quanto à dificuldade de acesso a informações por parte do Executivo, Juliano Lopes minimizou o problema. Disse que, ao assumir a presidência, conversou com a Sumob e pediu agilidade no atendimento aos requerimentos da Câmara. “Esses dados são fundamentais para o relatório da comissão e para a própria prefeitura pensar uma nova licitação. A gente vem conversando e acredito que, com o retorno da Câmara em fevereiro, isso tende a melhorar”, afirmou.
Tarifa Zero
No debate sobre Tarifa Zero, tema que mobilizou a Câmara em 2025, Lopes adota um tom cauteloso. O Projeto de Lei 60/2025, que previa gratuidade em todas as linhas de ônibus, foi rejeitado em primeiro turno após uma sessão marcada por protestos e tumulto nas galerias. O texto precisava de 28 votos, mas terminou com 30 contrários e apenas 10 favoráveis. O principal ponto de divergência foi o modelo de financiamento, baseado na criação da Taxa do Transporte Público (TTP), que seria cobrada de empresas com mais de 10 funcionários.
Para o presidente da Casa, o centro da discussão não era o texto em si, mas as consequências práticas da proposta. “Alguém vai pagar essa conta. A questão é saber quem”, disse. Ele citou o impacto sobre empresários, que passariam a arcar com uma taxa estimada em cerca de R$ 170 por empregado. “Em qualquer crise, o que as empresas deixam de pagar primeiro são os impostos, para depois negociar”, avaliou.
Apesar da rejeição do projeto, Lopes considera que o debate produziu efeitos concretos. Após o veto ao Tarifa Zero, a prefeitura implantou a gratuidade aos domingos e feriados. “Isso já foi uma conquista. Talvez tenha sido o primeiro passo”, afirmou. Na avaliação dele, sem a discussão intensa na Câmara, com audiências públicas e embates em plenário, essa alternativa dificilmente teria surgido.
O presidente da Câmara defende agora que a política seja avaliada com base em dados. Ele diz que pretende solicitar, no fim de janeiro, um relatório sobre o aumento do número de passageiros aos domingos após a implantação da gratuidade. “Quando se pagava passagem, havia um número de usuários. Quanto isso aumentou? E se fosse gratuito todos os dias, seria o mesmo percentual? Durante a semana seria igual?”, questionou.
Lopes pondera que um crescimento expressivo da demanda exigiria contrapartidas do poder público, como ampliação da frota e criação de novas linhas. “Se houver um aumento de 30%, por exemplo, estou apenas supondo, isso gera impacto direto na operação. É uma experiência que precisa ser medida”, afirmou.
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A entrevista completa com o presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte está disponível no canal do Portal Uai no YouTube, além de trechos publicados em reportagens no portal do EM.