POESIA MINEIRA

Como achar desenhos em nuvens

O poeta mineiro João Gabriel ratifica sua vocação poética e seu lugar na escrita em antologia editada no Brasil e em Portugal

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Christovam de Chevalier*

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Na fala corrente do brasileiro, morador dos centros urbanos, fazer axepa significa recolher sobras na feira. É também o momento propício a barganhar descontos. O termo ganha agora uso que em nada remete ao seu significado original. “A xepa”é o título escolhido pelo mineiro João Gabriel para esta que é a primeira antologia do poeta de 36 anos. Editada pela portuguesa Mercador, a coletânea reúne 24 textos, sendo 18 deles extraídos de“Vende-se um elefante triste” (2020), obra na qual o autor, então com 31 anos, já mostrava as credenciais para merecer a alcunha de poeta.

A menção à xepa não é em nada aleatória, uma vez que ela dá título ao poema que arremata a edição. Acontece que o poeta lida com inutilidades,como bem observou Manoel de Barros (1916-2014), e, em se tratando de matéria de poesia, “raspas e restos” interessam, como apregoado por Cazuza (1958-1990), que, através da música, arejou o fazer poético a partir dos anos 1980. E, no caso de João Gabriel, as tais sobras não são matéria putrefata ou em decomposição, mas pepitas extraídas desse lamaçal que podemos chamar de vida, ainda mais num tempo em que vivemos a ilusão de estarmos (hiper)conectados.

O tempo do poeta é outro. “fazer poemas é”, como ele nos mostra,“achar desenhos em nuvens”. Seu tempo é o da placidez, o da contemplação e, não menos importante, o da investigação.“toma/bebe da garrafa de Alice/e diminui, diminui (...) e você passeia/ pelo meu mundo”, convida o autor na abertura do livro,fazendo, alguns versos adiante, a ressalva; “entra no meu peito/com muito cuidado/ para não tropeçar/ em nada/ as luzes estão apagadas/ mas há tralha, muita tralha/ espalhada...’

Será mesmo? Na medida em que avançamos na leitura, vemos que o alerta em questão é pura propaganda enganosa. O que está espalhado são fragmentos de vida em estado genuíno de poesia, resultado de um trabalho laborioso e em nada superficial ou corriqueiro como assegura-nos o autor em um de seus textos: “não se torce poesia/do pano/ sem um tipo de contato/mais íntimo”.

“Edo que falará o poeta senão do próprio cotidiano?”, rebateu,certa vez, a poeta mineira Adélia Prado farta por ser comumente rotulada de “A Poeta do Cotidiano”. Nesses tempos em que, graças aos gadgets tecnológicos, muito se escreve, mas muito pouco se lê, a perguntada poeta pode ir além e estender-se também à questão: como escreverão os poetas de hoje?

E,no caso de João Gabriel, ele escreve aliando autenticidade a uma dicção poética singular, sem emular estilos daqueles que o influenciaram ao mesmo tempo em que não renega tais influências. E um exemplo latente é o de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).O legado do poeta itabirano, pai de todos nós, fica evidente em “Meu elefante”, que reza sobre um paquiderme colocado no telhado de uma casa. ‘não havia forma segura/maneira nenhuma de descê-lo//escolhi o melhor caminho/ subi no teto para não deixar/ meu elefante sozinho’, relata o jovem poeta.

Sim,como se diz hoje em dia, Drummond presente! E não poderia ser diferente. Afinal, como observado por T.S.Eliot (1888-1965), os poetas levam consigo as falas daqueles que os precederam. E JG demonstra estar de acordo com tal máxima quando constata: “um caminho só se faz/ ao olharmos para trás/ mas evolui, é evidente/tanto mais vamos em frente”. E João Gabriel vai adiante, a tento para não pisar em falso – e esse risco ele não corre.

Há uma máxima que diz que o homem nasce duas vezes: a primeira, quando de fato vem ao mundo e, a segunda, quando descobre para que veio. Nã osei se JG já teve tal insight e,na dúvida, arrisco um palpite: ele tem na poesia a razão do seu estar no mundo. João Gabriel é poeta, de fato. E continuará sendo mesmo que, num rompante rimbaudiano, decida não escrever (publicar seria o mais correto) nada daqui para frente. E se algum dia ele,porventura, tomar tal decisão, será algo a se lamentar.

João Gabriel tem na poesia mais do que uma vocação; um destino. Se a xepa traz no nome uma carga de bagaceira, de fim de festa, a xepa do poeta é composta por finas iguarias que, levadas ao fogo,resultam num banquete a ser apreciado com olhos e as papilas degustativas apurados. Afinal, como eternizado por Waly Salomão(1943-2003), “o poeta é a pimenta do Planeta”. E a pimenta é um condimento que, quando bem armazenado, resiste ao tempo. A esses tempos, sobremaneira.

*Christovam de Chevalier é poeta e jornalista, editor do site denotícias New Mag e autor de cinco livros de poesia.

A XEPA

De João Gabriel

46 páginas

Mercador Editorial

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