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Estado de Minas POESIA

Poesia de resistência em tempos de pandemia e neofascismo

O amor, a solidão e a incompletude da vida no momento atual permeiam o segundo livro do poeta mineiro João Gabriel


22/01/2021 04:00 - atualizado 22/01/2021 08:40

(foto: ARQUIVO PESSOAL)
(foto: ARQUIVO PESSOAL)
"A poesia em tempos hipercapitalistas como os nossos só pode servir pra resistir”, diz João Gabriel, ao definir um dos sentimentos manifestados em seu segundo livro de poemas, que acaba de ser lançado. Em tempos de (re)ascensão do fascismo, fake news e pandemia, “desinformação, anticiência, fascismo explícito”, como ele mesmo define, é preciso mesmo resistir.

Resistir à solidão (do isolamento), à opressão, ao medo, à amargura, à falta da presença do outro e até de si próprio, a incompletude? “Estou sozinho no banco da praça, na sala de casa, no que resta das horas. A solidão justifica a demora e a falta sentida assim, caminhando a meu lado, na beleza que o mundo empresta, é a presença que me resta”, diz o jovem poeta de BH, nos belos versos finais de A falta.

Vende-se um elefante triste reúne 25 poemas, boa parte escrita durante a pandemia, e os títulos da maioria já permitem ao leitor imaginar o que vem: Dos brutos, Paciência, O poema do amor derradeiro, Era uma vez..., Entre homens covardes, Pobre Diabo, Manual para arrancar a dor do peito, Ode do tempo perdido, Ralé, A falta, Dia do juízo, Corpo fechado... Todos parecem ter a ver com a peste do coronavírus. E têm, de uma forma ou de outra.

Fernando Pessoa declamou ao mundo: “O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que finge que é dor a dor que deveras sente”. João Gabriel não finge, depura a solidão, o sofrimento e a angústia dos seres mortais assombrados pela dor e pela morte destes tempos sombrios. Mas sofrimento também é superação: “O verso em cima da mesa é que aponta o bonito em meio a tanta tristeza, cura o coração machucado, o peito rasgado nos cacos da delicadeza, deste espírito condenado a vibrar indelicado”, como diz o poema Corpo fechado.

Também é preciso até rir de si mesmo e também encarar a tristeza. O poema Meu elefante fala de um paquiderme posto no telhado e da necessidade de tirá-lo de lá para acabar com sua tristeza. No chão, homem e elefante poderão rir juntos na suposta solidez do solo. “É um poema sobre tristeza, sobre, ao invés de fugir da tristeza, como é costume nos tempos atuais, se colocar ao seu lado,” conta João Gabriel.

E o que dizer do encontro com o Pobre Diabo? Os desatinos do ser humano sobre a face da Terra são tão absurdos que até mesmo o diabo está impressionado e nem quer saber de pacto. Flagrado  em sua tristeza, ele já adianta: “Não tenho culpa de nada”. Não é? Parece que  o homem já não pode contar com o diabo para maldades terrenas porque as suas já bastam para atrair a morte.

Como diz João Gabriel, parafraseando Manuel Bandeira, uma de suas fontes de inspiração: “O que nos resta é dançar um tango argentino”, ou, melhor ainda, comprar um elefante triste.

VERSOS FALADOS

Diante do confinamento obrigatório causado pela pandemia, Vende-se um elefante triste não teve lançamento presencial, mas chega em grande estilo ao mercado com uma ótima sacada: declamado pelas redes sociais. Pelo Instagram (@osapoeta), os poemas de João Gabriel são lidos por pessoas diversas, entre elas o ator Antônio Fagundes, que declama Ralé: “Daqui do meu canto, as coisas nunca foram tão bonitas. e não que falte beleza ou outra coisa nas coisas, mas as horas passam, malcriadas por mim e de demoras disfarçadas, sem que eu saiba enfeitiçá-las. se houvesse deitá-las em uma rede de estrelas talvez – e só talvez –, chegasse o tempo em que discriminaríamos os porquês. daqui, da ralé do momento, se muito respiro fundo. tento achar a beleza escondida das vidas de que não me lembro”.

O projeto gráfico-editorial é outro forte atrativo do livro, com versos ilustrados pela artista plástica Bia Pessoa. “Conseguimos um ajuntamento perfeito entre desenho e palavra”, explica João Gabriel para apresentar seus versos, que entrega aos leitores, cada qual com sua visão dos seus belos poemas.

 Como diria a portuguesa Florbela Espanca, com seu poema Poetas: “Ai, as almas dos poetas/Não as entende ninguém/São almas de violetas/Que são poetas também/Andam perdidas na vida/Como as estrelas no ar/Sentem o vento gemer/Ouvem as rosas chorar/Só quem embala no peito/Dores amargas e secretas/É que em noites de luar/Pode entender os poetas/E eu que arrasto amarguras/Que nunca arrastou ninguém/Tenho alma pra sentir/A dos poetas também!”

Corpo fechado

Se notares, um dia,
meu medo, meu segredo,
e meu corpo fechado
no quarto,
perdoa o meu peito
por bater indelicado.
E ao me achares
perdido, dando ares
de louco
saiba que, aos poucos,
vou inventando meu lado,
da porta fechada
que guarda
meu coração indelicado.
O verso em cima
da mesa
é que aponta o bonito
em meio a tanta tristeza,
cura o coração machucado,
o peito rasgado
nos cacos da delicadeza,
deste espírito condenado
a vibrar indelicado.

Pobre Diabo

Encontrei o Diabo
e ele estava triste.
Não foi um encontro marcado,
o Diabo vinha passando
sem sequer olhar pro lado
e distraído, o Coitado,
tropeçou no próprio rabo.
Estendi-lhe minhas mãos
mas seus olhos não
fizeram festa –
ajudei o pobre diabo
a recuperar-se da queda.
Já de pé, agradeceu-me
com algumas
palavras tranquilas e
comentou alguma coisa
sobre o clima, os fatos do dia,
soltou um suspiro profundo
e já ia dando no pé.
Mas, eu me aprumei e
lhe disse,
“O sr. é o Diabo, não é?”
Não tinha certeza, de fato,
mas segui
“Tive dúvida quando não vi
os chifres, o sr. está de chapéu,
mas logo notei pelo rabo.”
Ele me olhou assustado,
pálido, com os olhos vermelhos
marejados de lágrimas.
Pobre Diabo,
parecia um fantasma.
Fez menção de ir embora,
mas colocou
o dedo e me disse
– Eu não tenho culpa de nada!
Era de se notar
o quanto estava triste.


Entrevista/João Gabriel

“Se eu fosse o diabo, teria pavor do ser humano”

Os poemas do seu novo livro parecem unir sentimentos de fracasso e de resistência diante de um mundo doente. Poesia é resistência ou resignação?
Escrever, em momentos históricos, é um grande desafio: guerras, pandemias, ascensões fascistas, fatos que atingem grande populações são paralisantes porque acabam viciando as conversas, os acontecimentos, tornam a realidade monocromática. Mas a criação não passa só por escrever, é também reunir, dar forma, analisar o que já foi feito, pra assim dizer destes tempos. Escrever, pra mim, é deixar o poema, ou qualquer texto, crescer num ponto em que eu não possa mais contê-lo.

Esses momentos de escrita me agitam, me fazem andar de um lado pro outro, mas me deixam alheio do resto à minha volta, como se fosse uma espécie diferente de concentração. O fracasso, nessa obra, não é um fim em si mesmo, aparece, na verdade, como circunstância, fio condutor: a poesia – e a arte, de forma geral –, em tempos hipercapitalistas como os nossos, só pode servir pra resistir, dizer o que a opinião oficial não diz. Senão, é horóscopo do dia.

A metáfora do elefante triste no telhado seria o imponderável da vida nestes momentos difíceis? O elefante e o homem que riem são os que têm os pés no chão?
Tenho três sensações ao pensar num elefante no telhado. A primeira delas me vem como uma pergunta: quem colocou ele ali?. A segunda é a certeza de que ele não vai ficar ali pra sempre, e a partir dessas duas, sinto que tenho um problema. Escrever esse poema foi responder a esses estímulos a partir dessa imagem. Para mim, o elefante é uma maneira de olhar pra si mesmo. E o homem e o elefante, rindo juntos, são uma espécie de reencontro, funcionam como um espelho: ao olhar um pro outro, gostam do que veem. É um poema sobre tristeza, sobre, ao invés de fugir da tristeza, como é costume nos tempos atuais, se colocar ao seu lado.

“A falta é a presença que me resta.” Assim termina o poema A falta, que fala de solidão e desencontro. Cabe ao leitor interpretar que presença é essa. Seria a do reencontro consigo mesmo e com o mundo?
O leitor é sempre senhor na interpretação, mas penso que o poema quer dizer dos momentos de muita solidão, como os que vivemos agora, em que, além da pulsão de morte daqueles com pouca vida interior, é possível reconectar-se com o passado e, assim, consigo mesmo, revivendo e refazendo experiências. Apesar de o poema dizer muito sobre os dias atuais, ele foi escrito em uma fase em que me isolei e passei por momentos muito solitários, mesmo acompanhado.

A falta, caminhando ao meu lado, é tudo que a vida me deu e eu não posso carregar na mochila; ainda assim, por um momento ela era, também, tudo que eu tinha. Essa falta, a incompletude, é uma realidade de todos e devíamos andar com ela do nosso lado, conversar com ela e fazer esforço para entendê-la, como se fosse um animal de estimação.

A tentação do diabo, inclusive a bíblica, atravessa a literatura ocidental, passando por Mefistósfeles em Fausto (Goethe), Doutor Fausto (Thomas Mann), Grande sertão: veredas (Guimarães Rosa) e outras obras. No caso do poema Pobre diabo, entretanto, em vez de pacto, ele diz que não tem culpa de nada. O que dizer disso? Não há mais a quem o ser humano culpar por suas desgraças?
Sempre pensei muito no encontro do Eduardo, personagem de Encontro marcado, de Fernando Sabino, com o diabo – se não me engano, na Lagoa da Pampulha. É um dos meus livros preferidos desde a adolescência e esse encontro – apesar dos desencontros do livro – é muito marcante. Ali, o personagem sente muito medo da figura diabólica, mas a verdade é que, se eu fosse o diabo e visse o mundo como está, cheio de desinformação, anticiência e fascismos explícitos, teria pavor do ser humano.


VENDE-SE UM
ELEFANTE TRISTE

• De João Gabriel
• Produções do Ó
• 83 páginas
• R$ 40
• Vendas: WhatsApp: (31) 99535 7566
• Instagram: @osapoeta
• E-mail: joaogabrielfurbino @gmail.com

João Gabriel estudou letras na UFMG e lançou No meio da rua, seu primeiro livro, em 2015


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