Evangelhos canônicos de Mateus, Marcos, Lucas e João são estudados em perspectiva literária em coletânea de artigos de pesquisadores brasileiros e estrangeiros
"OS QUATRO EVANGELISTAS", OBRA DO PINTOR JACOB JORDAENS (1593-1678) crédito: Reprodução
Fascinante. Eis a palavra, com certeza e todas as letras, que acompanha o leitor da Bíblia da primeira à última página. Uns se deliciam com o Antigo Testamento, outros preferem o Novo Testamento ou Evangelhos canônicos, que são os relatos sobre a vida de Jesus Cristo escritos por Mateus, Marcos, Lucas e João. Importante lembrar que ambos, o Antigo e o Novo, representam a base da fé cristã, e, para conhecer com profundidade as Sagradas Escrituras, só mesmo lendo, estudando e procurando entender tantas histórias iniciadas com a frase de “Gênesis”: “No princípio, Deus criou o céu e a terra.”
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Como aprofundar o conhecimento? Neste início de ano, tempo de renovação, uma boa leitura está em “Evangelhos, Literatura e Recepção” (Ateliê Editorial), organizado pelo professor e doutor em teoria e história literária, João Leonel. De antemão, ele explica que a obra é acessível a todos. “Pode ser lida por qualquer pessoa, independentemente de seu credo ou da falta de um,pois a perspectiva analítica é prioritariamente acadêmica, sem que credos e dogmas interfiram nas análises. O conhecimento do campo dos estudos bíblicos, assim como deteorias literárias, poderáajudar o leitor a compreender de forma mais orgânica as análises feitas”.
Com artigos, a maioria inéditos, de autoria de 13 pesquisadores brasileiros e estrangeiros, “Evangelhos...” nasceu das atividades do Núcleo de Estudos Bíblia e Literatura (Nebil), coordenado por João Leonel e pelo professor e escritor Cristhiano Aguiar (autor de livros elogiados como “Gótico nordestino”) e desenvolvido no curso de pós-graduação em letras, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo (SP), na qual os dois lecionam. “Uma vez delimitadaa temática, procuramos outros colegas paracontribuir. E, com alegria, contamos com o aceite de pesquisadores de outras universidades e escolas teológicas brasileiras, assim como de colegas da Alemanha, Portugal, Espanha e Holanda”, explica João Leonel.
São Mateus, São João, São Marcos e São Lucas: os quatro evangelistas Reprodução
MAPA DA CAMINHADA
O livro propõe ao leitor a compreensão de que a Bíblia não é lida e interpretada de forma abstrata. Cada autor, à sua maneira, trata de tradições, memórias, personagens, metáforas, sempre como a convidar o leitor a participar da construção de seus sentidos. “O ‘corpus’ sobre o qual os capítulos se debruçam é constituído pelos evangelhos canônicos (Marcos, Mateus, Lucas e João), estudados prioritariamente em perspectiva literária e diálogo com o campo exegético, e se detendo em uma área específica dos estudos literários: a Estética da Recepção.
A Estética da Recepção é uma corrente dos estudos literários que desloca o foco do autor e do texto para o leitor, considerando a literatura um ato de comunicação dinâmico no qual o sentido de uma obra é construído na interação entre o texto e o público. Tal abordagem entende a leitura como um processo ativo, onde o leitor preenche as lacunas da obra, realizando a experiência estética e dando vida à literatura.
João Leonel espera que o livro possa abrir portas para a leitura mais proveitosa das Sagradas Escrituras. “As diversas abordagens, em diferentes gêneros literários da Bíblia, podem estimular uma ampla leitura de livros bíblicos, bem como uma postura mais responsiva diante dos textos bíblicos”, afirma.
Se começamos este texto com a palavra “fascinante”, é hora de pedir a João Leonel para citar frase ou passagem da Bíblia que mais o emociona. E ele responde com uma expressão que leu (no dia da entrevista), no Evangelho de João, capítulo 11, versículo 35: “Jesus chorou”.
“EVANGELHOS, LITERATURA E RECEPÇÃO” João Leonel (organizador) Ateliê Editorial 288 páginas R$ 96
ENTREVISTA/ JOÃO LEONEL
Professor e doutor em teoria e história literária
"A perspectiva analítica é prioritariamente acadêmica"
Como o senhor define “Evangelhos, literatura e recepção”? É um livro que tematiza os evangelhos canônicos em perspectiva multidisciplinar, no contexto de teorias ligadas ao campo da Humanidades, oferecendo ao leitor o que há de mais recentenos estudos exegéticos e literários.
Para entender melhor o sentido da obra, gostaria que o senhor conectasse as três palavras contidas no título. O ‘corpus’ sobre o qual os capítulos se debruçam é constituído pelos evangelhos canônicos (Marcos, Mateus, Lucas e João), que são estudados prioritariamente em perspectiva literária, em diálogo com o campo exegético, e se detendo em uma área específica dos estudos literários: a estética da recepção.
Este é um livro que pode ser lido por todos, independentemente do credo? Ou aproveitará mais quem tem conhecimento aprofundado sobre a Bíblia? Sim, pode ser lido por qualquer pessoa, independentemente de seu credo ou da falta de um,uma vez que a perspectiva analítica é prioritariamente acadêmica, sem que credos e dogmas interfiram nas análises. O conhecimento do campo dos estudos bíblicos, assim como deteorias literárias, poderáajudar o leitor a compreender de forma mais orgânica as análises feitas.
Vamos falar sobre a “gênese” da obra. Como foi reunir tantos autores (contei 12!) brasileiros e estrangeiros? Na realidade, são 13 autores, uma vez que eu eCristhianoAguiar escrevemos o capítulo sete. O livro surge a partirdas atividades do grupo de pesquisa Nebil (Núcleo de Estudos Bíblia e Literatura, CNPq) que eu e o professor Cristhiano coordenamos, e se desenvolveu no contextoda pós-graduação em Letras, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, onde ambos lecionamos. Uma vez delimitadaa temática, procuramos outros colegas paracontribuir com a obra. E com alegria contamos com o aceite de pesquisadores de outras universidades e escolas teológicas brasileiras, assim como de colegas da Alemanha, Portugal, Espanha e Holanda.O nível acadêmico dos autores, assim como a disposição em contribuir, trouxe um contexto de muitatranquilidadepara a elaboração do livro.
Como foi dividir os temas? Os textos já estavam escritos ou foram produzidos especialmente para o livro? A grande maioria dos capítulos é inédita. Quanto à temática, os autores foram escolhidos a partir do foco de suas pesquisas. Cada um escreveu segundo suaexpertise.
Na introdução, o senhor escreveu que “talvez a grande virtude desta obra seja exatamente colocar em diálogo teorias e metodologias analíticas, como também, e principalmente, apresentá-las lado a lado em um exercício de complementaridade”. Pode explicar melhor? Em termos gerais, os estudos exegéticos, embora no decorrer dos séculos tenham se apropriado de uma série de teorias de variados campos (filosofia, literatura, linguística, história, sociologia, antropologia etc.), tendem a se fecharem seus pressupostos criando um campo com certo hermetismo. O livro“Evangelhos, literatura e recepção”procuraresgatar essa rica tradição e colocá-la em diálogo atualizante com campos já pesquisados, como a Literatura,e com campos com os quais se mantém distante no contexto brasileiro, como a Estética da Recepção. Além disso, a questão da “complementaridade” se evidencia na utilização de mais de uma teoria em vários capítulos, assim como pelo simples fato de termos capítulos com teorias diferentes lado a lado no livro.
De que forma os textos da obra podem iluminar os tempos atuais, em que há tanta polarização, desentendimento e até guerra? Pela postura fraternacom que os colegas aceitaram participar da coletânea e, principalmente, pelo tom dialogal e de profundo respeito com que os textos foram escritos, conscientes deopiniões e posições diferenciadas.
A Bíblia tem a fama de ser o livro mais vendido no mundo, mas nem todo mundo lê do princípio ao fim, certo? A obra pode abrir portas para uma leitura mais proveitosa das Sagradas Escrituras? Espero que sim, embora essa questão seja praticamente impossível de ser verificada.No entanto, as diversas abordagens, em diferentes gêneros literários da Bíblia, podem estimular uma ampla leitura de livros bíblicos, bem como uma postura mais responsiva diante dos textos bíblicos.
Na sua opinião, o que há de mais fascinante nos textos do Novo Testamento, que está no foco do livro? Para mim, é a sensibilidade literária e humana com que os autores produziramseus textos. Eles eram hábeis escritores que conseguiram expressar o que há de mais profundo na relação entre os seres humanos e a divindade e entre seres humanos. Além disso, eles eram profundos conhecedores da natureza humana. Por isso, foram capazes de expressar dilemas, alegrias, tristezas e profundidades da psiquê e da alma humana em seus textos.
Gostaria que o senhor citasse uma frase ou uma passagem da Bíblia que mais o emociona. Vou citar uma expressão que li hoje, no Evangelho de João, capítulo 11, versículo 35: “Jesus chorou”.
Renovar o prazer de leitura
Cristhiano Aguiar Especial para o EM
“O livro ‘Evangelhos, literatura e recepção’ procura consolidar um campo de estudos ainda em formação em nosso meio acadêmico, aquele que pesquisa as relações entre Bíblia e literatura. Os ensaios partem da Teologia para articular um debate com outras áreas de conhecimento nas Humanidades, como a História, a Sociologia, a Antropologia e, dentro do mundo das Letras, a crítica literária, os estudos de recepção, a teoria da literatura e a linguística. A obra se divide em três partes. Na primeira, de abordagem mais teológica, os ensaios buscam ângulos menos explorados de análise dos evangelhos. Na segunda parte, os evangelhos são lidos com um foco no modo como estes textos foram construídos com uma clara intencionalidade artística. Prestar atenção na dimensão literária dos Evangelhos implica em entender ainda melhor sua mensagem teológica, algo importante para quem professa a fé cristã. Mas ler os Evangelhos como literatura é também um convite para todos aqueles que, sendo cristãos ou não, queiram renovar o prazer de leitura de textos tão importantes para a nossa história e cultura. Por fim, na terceira parte, o leitor, e os atos de leitura, são convidados a participar da conversa: os ensaios analisam como os evangelhos foram lidos ao longo do tempo.”
Cristhiano Aguiar é escritor e professor, autor de um dos artigos do livro
Trecho do livro
“Estratégias de Representação em João 11.1-55 – Realismo e Ironia” Cristhiano Aguiar e João Leonel
“Propomos analisar um dos mais significativos episódios dos evangelhos, a ressurreição de Lázaro, sob o olhar da crítica literária. Nossa abordagem buscará compreender o episódio como uma narrativa que possui autonomia literária. Ou seja: analisaremos a construção do texto do Evangelho de João, dando especial atenção às suas estratégias narrativas.
Dois conceitos são importantes e orientam nossa análise: realismo e ironia. Uma visão apressada pode considerá-los estranhos ao nosso objeto. Para um leitor não religioso, ou mesmo com pré-julgamentos em relação ao Novo Testamento, a ideia de “realismo” na base do relato de um dos mais importantes milagres de Jesus pode causar estranheza. Por outro lado, um leitor religioso pode sentir estranheza semelhante, como se a noção de “realismo” de alguma maneira buscasse anular a dimensão teológica da narrativa de João.
Ironia é também uma ideia que, à primeira vista, pode ser considerada de problemática associação às Sagradas Escrituras, embora, no contexto da exegese bíblica, nas últimas décadas tenham surgido estudos sobre a ironia na Bíblia. Quanto ao Evangelho de João, R. Alan Culpepper, na obra que marcou os estudos literários desse Evangelho, “Anatomy of the Fourth Gospel”, lembra que: “O quarto evangelista tem sido caracterizado repetidamente como um mestre da ironia”, embora, no momento em que escreve reconheça, surpreso, que “[...] ainda não tenha surgido uma monografia ou um artigo definitivo sobre a ironia no quarto evangelho”.
Traço considerado fundamental da modernidade e das literaturas modernas, a ironia tem sido tema de intensas investigações por parte das teorias literárias e linguísticas atuais. Do romantismo às narrativas contemporâneas, a ironia caracteriza-se como uma importante chave de compreensão teórica no âmbito dos estudos literários. Assim, tais estudos somam-se e propõem ampliações ao que exegetas da Bíblia têm apresentado sobre o tema.
No campo das relações entre Bíblia e literatura, importantes referências bibliográficas indicam, por outro lado, o quanto pensar “realismo” e “ironia” não só é adequado ao entendimento da Bíblia, como, na verdade, os dois conceitos nos ajudam a entender mecanismos fundamentais daquilo que nos fascina nos textos bíblicos. Em obra-chave não somente para os estudos da Bíblia como literatura, mas também para a crítica literária no século xx, Erich Auerbach, em seu “Mimesis”, dedica dois capítulos à questão do realismo nos textos bíblicos.”
Cristhiano Aguiar é doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo e professor na graduação e na pós-graduação em letras na mesma instituição.
João Leonel é doutor em teoria e história literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor na graduação e na pós-graduação na Universidade Presbiteriana Mackenzie, SP.